Condicionalismos em estados patológicos e prevenção da lesão em estados saudáveis (Parte II)

Conforme Carla Martins referiu em artigos anteriores, a corrida é a forma mais comum e ancestral de exercício físico, sendo indiscutível o benefício que acarreta para a saúde e bem-estar dos corredores. Todavia, a corrida, sobretudo se efectuada como desporto, com o cariz competitivo que lhe é inerente, também pode comprometer a fisiologia normal do indivíduo, conduzindo ao desenvolvimento de diversos processos patológicos.

 

Faça um LIKE na nossa página e partilhe a mesma para podermos correr com mais atletas virtuais. Obrigado! 

 

As complicações mais frequentes referem-se às lesões musculoesqueléticas, designadamente dos membros inferiores / região lombar, ocorrendo numa incidência entre cerca de 20 a 80%. Aqui incluem-se lesões como o síndrome doloroso femoro-rotuliano (uma das lesões mais comuns), o síndrome de stress tibial medial, a tendinopatia de Aquiles, a fasceíte plantar, fracturas de stress dos metatarsos e tíbia, o lumbago, a coxalgia / coxartrose e dor nas regiões gemelares.

As lesões musculoesqueléticas, apesar de bastante comuns, não ocorrem de forma idêntica em todos os corredores e, actualmente, já se tem conhecimento de alguns dos possíveis factores de risco para a ocorrência deste tipo de distúrbios. Por uma questão de comodidade vou agrupar esses factores de risco em factores intrínsecos ao indivíduo e factores extrínsecos.

Relativamente aos factores intrínsecos importa realçar a anatomia do indivíduo, nomeadamente no que se refere ao alinhamento dos membros inferiores (problemático sobretudo no caso das mulheres, por causa do ângulo ao nível da articulação dos joelhos) e ao tipo de pé (sobremaneira o pé cavo); e o sexo e idade do indivíduo. As mulheres, de facto, parecem ter mais risco de desenvolver lesões musculoesqueléticas que os homens, sobretudo lesões de stress, sendo mais incidentes naquelas com baixa densidade mineral óssea, distúrbios menstruais ou problemas nutricionais. A idade não é um factor de risco linear mas uma meta-análise recente mostrou maior prevalência deste tipo de lesões em idades abaixo dos 34 anos. No entanto, isto pode querer simplesmente dizer que indivíduos com lesões musculoesqueléticas repetidas acabam por abandonar a modalidade, diminuindo de forma enviesada a prevalência de lesões em idades mais avançadas. Ainda dentro dos factores intrínsecos aponto a obesidade e, obviamente, a história prévia de lesão musculoesquelética, sobretudo se mal reabilitada.

Os factores de risco extrínsecos englobam certas variáveis do treino, como o tipo de calçado, o tipo de nutrição / suplementos e claramente certos factores psicológicos. No que respeita ao treino é extremamente importante respeitar a regra dos 10%, isto é, começar com determinada intensidade e frequência de treino, cumprindo certa distância / duração da corrida (variáveis determinadas pelo treinador) e depois, conforme a evolução da condição física do indivíduo, ir procedendo a incrementos (de intensidade e/ou frequência) semanais de 10%. É igualmente proibitivo efectuar alterações abruptas de treino, sendo obrigatório cumprir exercícios de aquecimento e arrefecimento, antes e após treino, respectivamente. O calçado deve ser confortável e adaptado à anatomia do pé do corredor (ver artigo relativo à escolha dos ténis escrito pelo nosso ortopedista). Os factores psicológicos são bastante controversos, mas parece haver uma tendência para corredores com personalidade do tipo A sofrerem lesões múltiplas quando comparados com outros tipos de personalidade.

Por último, quero esclarecer que, embora menos frequentes, há outras complicações que podem surgir num corredor, sobretudo se for atleta profissional, de alta competição. Neste caso, alerto para a ocorrência de distúrbios do equilíbrio hidro-electrolítico e para o golpe de calor. Após 90 minutos de corrida intensa, se o atleta não respeitar uma reposição adequada de água e electrólitos podem surgir situações como a desidratação (e, por conseguinte, lesão renal aguda e alterações da função cerebral, entre outras) ou a hiponatrémia (sobretudo se o atleta ingerir água em excesso, também com implicações importantes na função cerebral). Para evitar isto aconselho a ingestão de 500ml de água alternados com 500ml de bebida isotónica a cada 30m, para treinos acima dos 90 minutos. O golpe de calor pode surgir sobretudo em dias quentes, mas não só, isto porque os próprios músculos em exercício produzem calor suficiente para despoletar esta complicação, sobretudo se o atleta não estiver equipado com vestuário que lhe permita uma sudação normal.

Para terminar, no caso do exercício físico de longa duração, é preciso ter muito cuidado para não depletar as reservas energéticas dos músculos esqueléticos (glicogénio, glicose e ácidos gordos livres), pois aí o próprio músculo pode entrar em catabolismo para usar os aminoácidos daí resultantes para produzir energia. E isso vai destruir músculo e, portanto, diminuir a sua força / performance.

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos