Condicionalismos em estados patológicos e prevenção da lesão em estados saudáveis (Parte I)

gripe

O exercício físico regular é efectivamente saudável e é recomendado na prática clínica diária, mas o mesmo não se passa com o nível de exercício físico próprio do desporto. Aí ultrapassamos o limiar dos processos fisiológicos dum organismo vivo e o atleta evolui inexoravelmente para a disfunção/lesão, defende a especialista Carla Martins. 

 

Faça um LIKE na nossa página. Só assim poderemos continuar com o nosso trabalho. Obrigado! 

 

Por outro lado, convém entender que, antes de iniciar qualquer tipo de programa de exercício físico regular, se deve fazer uma avaliação médica completa pois existem certos distúrbios que podem condicionar a performance do corredor/atleta e outros que poderão restringir ou mesmo contra-indicar a sua concretização.

As condições clínicas que contra-indicam o desporto remetem-se ao grupo cardiovascular e nelas se incluem a doença coronária grave (sobretudo se o doente já teve enfarte do miocárdio e/ou não tem condições para revascularização cirúrgica), cardiomiopatias como a hipertrófica e a arritmogénica do ventrículo direito, a fibrilhação auricular, aneurismas da artéria aorta, estenose aórtica moderada a severa e situações que aumentam o risco de arritmias fatais durante o exercício, como é o caso do síndrome de Wolf-Parkinson-White e do síndrome do QT longo.

Temos depois outras doenças cardiovasculares, que embora não contra-indiquem, de forma absoluta, a prática de desporto, obrigam, no mínimo, a uma redução da intensidade e/ou frequência do exercício (a avaliar caso a caso, obviamente). Neste grupo incluem-se a hipertensão arterial sistémica (sobretudo se mal controlada), a doença arterial periférica e o prolapso da válvula mitral.

Todavia, no campo das doenças crónicas, não são só as cardiovasculares que impõem restrições ao exercício físico. As doenças respiratórias, sejam elas obstrutivas ou restritivas, também limitam significativamente a prática desportiva. Como exemplos temos a doença pulmonar obstrutiva crónica, a asma brônquica e doenças graves do interstício pulmonar. No caso destas doenças respiratórias, o risco de morte súbita durante o exercício é menor que aquele relacionado com as doenças cardiovasculares – e pode ocorrer sobretudo devido ao broncospasmo induzido pelo próprio exercício físico (mas isso pode-se controlar medicamente).

De facto, o problema fundamental relacionado com estas doenças respiratórias é, efectivamente, a limitação da performance física do atleta, pois são indivíduos com um baixo índice de reserva respiratória (ver artigo anterior). Os distúrbios hematológicos também restringem o exercício físico regular, uma vez mais essencialmente por causa da limitação funcional que lhes é inerente. A este respeito importa realçar não só as anemias (diminuição da concentração de hemoglobina no sangue), que condicionam obviamente o VO2 máximo, como também distúrbios (não tão facilmente detectados) da própria hemoglobina (normalmente de origem genética), que condicionam o aumento da sua afinidade para o oxigénio e, por conseguinte, levam a uma menor capacidade de o libertar nos tecidos que dele precisam.

Por último, os distúrbios de comportamento alimentar (nomeadamente a anorexia nervosa e a bulimia nervosa) devem impor, também, restrição formal do exercício físico intenso, dado o risco de malnutrição associado, bem como outras complicações a curto e médio-longo prazo. Por outro lado, a FC máxima está directamente relacionada com a massa magra corporal. Assim, os indivíduos malnutridos poderão atingir uma FC máxima, no pico do exercício, inferior à de indivíduos normais, e por consequência um débito cardíaco menor, um menor VO2 máximo, e obviamente uma pior performance.

Os estados de doença aguda, evidentemente, também devem ser motivo de suspensão/redução temporária no exercício físico. Por um lado, no caso de doenças infecciosas (gripe, por exemplo), o exercício físico induz adaptações hemodinâmicas (ver artigo anterior) que facilitam a disseminação do agente infeccioso pelo organismo e diminui o estado imunitário, pondo em risco a capacidade de defesa do organismo (relevante também no caso das doenças oncológicas). Por outro lado, o exercício físico consome as nossas reservas energéticas prejudicando depois o metabolismo necessário à regeneração celular própria da resposta inflamatória sistémica, comum a qualquer estado de doença aguda, infecciosa ou não (ex.: certos cancros, convalescença de intervenções cirúrgicas ou traumatismos, leucemias agudas…).

Para terminar, devo referir que, embora tenha feito uma revisão superficial dos principais estados patológicos que impõem condicionalismos ao exercício físico regular, é importante não esquecer outros estados (não patológicos) que podem, realmente, limitar/condicionar a performance de um atleta. Como exemplo, realço aqui a constituição genética do indivíduo em termos de fibras musculares, não só a sua constituição proporcional em termos qualitativos, mas sobremaneira a velocidade máxima de encurtamento dessas mesmas fibras, pois, se for demasiado elevada (por exemplo), o atleta gastará demasiada energia para se mover e, por conseguinte, irá atingir mais rapidamente a exaustão.

Porém, nem tudo é mau, nem tudo é restrição! Há situações clínicas cujo plano terapêutico engloba o exercício físico regular e quero apontar aqui, propositadamente, a depressão, um dos principais flagelos do século XXI. Não há melhor antidepressivo que uma boa dose de exercício físico regular adequadamente prescrito.

No próximo artigo, discutir-se-ão as complicações/lesões resultantes do exercício físico regular, em particular daquele exercício próprio do desporto.

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos