A Magia do Silêncio

«A Semana do Silêncio» termina esta sexta-feira. Ao longo de cinco dias, publicámos excertos do livro «A Magia do Silêncio», de Kankyo Tannier e editado pela Arena. Um livro que convida o leitor a uma nova postura na vida.

 

Uma cura de silêncio em casa (método)

Como podemos desligar-nos, em casa ou no exterior, durante um ou dois dias, nas melhores condições? Porque não uma cura de silêncio? A ideia é bastante fácil de pôr em prática e tem alguns tesouros escondidos, que podem acelerar a nossa evolução. 

Encontrará nas páginas que se seguem diferentes pistas para acompanhar a sua cura. São sugestões simples, baseadas na experiência, a adaptar à sua situação específica. Se dispõe apenas de algumas horas de solidão durante o dia, os preparativos da véspera são igualmente úteis, para estar nas melhores condições.

Em qualquer dos casos, quer a sua cura dure três horas ou dois dias, entrar no Nobre Silêncio, com respeito, pela grande Porta da Concentração, só pode ser-lhe proveitoso.

PREPARAÇÃO

Tudo começa na véspera ou alguns dias antes. Trata-se de tomar a decisão de se lançar na experiência, preparar-se interiormente para mudar de ritmo e recorrer a algumas ferramentas ou acessórios para acompanhar o seu retiro silencioso. 

Ultrapassar a culpa

Há alguns anos, tive a oportunidade de fazer uma terapia analítica com uma senhora muito sábia, a senhora Gabrielle Bastian. Num dia em que eu lhe descrevia mais uma vez, lamentando-me, a pessoa realizada e profunda que eu infelizmente não era, ela retorquiu-me com um sorriso entendido: «Mas, Kankyo, está a descrever-me uma pessoa de 70 anos que viveu as provas da vida pouco a pouco e que delas colheu os frutos. A Kankyo só tem 28 anos… Dê a si própria tempo para aprender!» As palavras dela tiveram o efeito de um electrochoque salutar e parei imediatamente de correr atrás de um ideal inatingível.

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Ou melhor: decidi caminhar para ele tranquilamente, progredindo aos poucos. É como um indivíduo que deseje chegar ao cume do Monte Branco: se começar de um dia para o outro a subir a montanha, calçado com sandálias, o choque pode ser violento e a descida imediata (a não ser que, desencorajado à partida, o herói dos nossos dias prefira apanhar logo o comboio para Paris)! Se aceitar que precisa de tempo para treinar, se comprar material adequado, se estudar o terreno, a montanha oferecer-se-á aos poucos e o desafio tornar-se-á realizável. Resumindo: tudo é uma questão de timing e… de aceitarmos os nossos limites provisórios.

Para se lançar na cura, vamos então começar por: desculpabilizar! Desculpabilizar-nos por sermos demasiado ansiosos, não suficientemente descontraídos, maus pais… o que quer que seja. Vai partir de um estado de «irrealizado» e progredir para algo diferente, como é normal. Por vezes, em conferências, converso com o público e ouço esta frase: «Ah, não, a meditação não é para mim, sou demasiado acelerado!» Pois, precisamente por isso! A meditação não está reservada às pessoas calmas e ponderadas, muito pelo contrário. Tal como a prática do silêncio, a meditação ensina-nos a basear-nos na nossa suposta imperfeição, a aceitá-la, acolhendo-a plenamente.

Claro que pode começar a sua cura culpabilizando-se por não se dedicar o suficiente aos seus filhos, a outros familiares, ao seu trabalho, à miséria em África. Ou a lamentar ser demasiado sensível, demasiado fingido, pouco descontraído, pouco confiante, etc. Este sentimento de culpa, de inadequação será, talvez, a emoção que vai ultrapassar durante este retiro silencioso. É até possível (ou mesmo provável) que ela desapareça por si própria,
que se extinga como uma fogueira que consumiu toda a lenha.

Bons alimentos

É inútil escondê-lo: passar do ruído à calma tem todas as características de uma aposta. A mudança pode revelar-se brutal, até desestabilizadora, e verá que precisa de alguns alimentos celestes — ou perfeitamente terrestres — para o acompanhar. 

Ingredientes saborosos como recompensa

A não ser que combine silêncio e jejum (é preciso ser-se louco!), deverá prever várias refeições a consumir durante a sua cura. Convido-o com insistência a pensar cuidadosamente nessas refeições e a fazer delas objectos de prazer. Procure alimentos biológicos e saborosos alguns dias antes, sinta a frescura dos ingredientes, encha os seus olhos de cores… Alguns alimentos cuidadosamente escolhidos, pela sua qualidade nutritiva, certamente, mas sobretudo pelo seu gosto. 

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Ficar em silêncio e abrandar o nosso ritmo é uma prática difícil em que o prazer está em segundo lugar. As refeições podem representar uma recompensa, momentos de puro prazer, entre duas asceses. Permitem alternar entre o esforço e a satisfação, em harmonia.

Estas refeições saborosas são realmente o símbolo de uma cura bem-sucedida. Isto porque se o programa de cura que se propôs fazer for demasiado árduo, o desencorajamento pode ameaçá-lo. O psicólogo (de nome impronunciável) Mihaly Csikszentmihalyi sublinha-o na sua obra Vivre — La psychologie du bonheur. A respeito de um estudo transversal a várias culturas e várias gerações, os investigadores encontraram o segredo universal da felicidade. Sugiro vivamente a leitura desta obra, que é muitíssimo interessante. Para resumir, trata-se de termos na nossa vida objectivos, desejos, metas que nos dêem prazer e — esta é a condição mágica — que exijam um pouco de esforço para serem alcançados. O livro ilustra um processo que oscila incessantemente entre esforço e prazer, à semelhança do que propomos nesta cura de silêncio. Como, por exemplo, no seu programa, ter vinte minutos de silêncio sem fazer nada, com uma sensação de tédio, se possível, seguidos de uma refeição saborosa como recompensa (relativamente ao programa de cura, ver mais à frente).

Livros inspiradores como alimentos espirituais

Mais uma vez, a escolha cabe-lhe a si: pode forçar-se a ler finalmente aquele enorme tijolo sobre «as novas ferramentas da comunicação» (o seu chefe vai ficar contente), ou pousar sobre a mesa da sala algumas pequenas obras inspiradoras, tão diversas quanto apelativas.

Após algumas horas de silêncio, o nosso espírito torna-se muito mais receptivo às novidades, às mudanças de pontos de vista. Será, talvez, uma boa altura para lhe dar que pensar, oferecendo-lhe obras sobre o sentido da vida, a compreensão da alma humana, um pouco de psicologia ou diários de viagem. A escolha é sua…

A título de sugestão, encontrará uma pequena lista de livros (e vídeos) inspiradores no final desta obra.

Estabelecer os seus limites e prevenir os que o rodeiam 

Em certos mosteiros, adoptou-se a seguinte regra: o praticante que deseje mergulhar no Grande Silêncio durante alguns dias coloca no seu vestuário uma etiqueta onde se lê «Em silêncio». Desta forma, os seus colegas evitam escrupulosamente dirigir-lhe a palavra durante o tempo da sua cura. Porque não adoptar este sistema se estiver em família, durante algumas horas ou alguns dias?

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Para levar a cabo este exercício entre os seus familiares, terá de estar seguro da sua decisão. Estabelecer os seus limites, explicar, informar a respeito dos benefícios que espera alcançar para si e para os que o rodeiam. Terá, sem dúvida, de enfrentar algumas críticas ou comentários trocistas. O meu conselho de amiga: mantenha-se estóico e deixe passar a tempestade. 

Pode também ter em mente um ponto importante, capaz de acalmar qualquer situação: não precisa de convencer ninguém! É possível que os outros não compreendam ou não estejam de acordo. Não importa. O essencial é traçar o seu caminho, com tranquilidade, mas com firmeza. 

Retiro digital e ausência programada 

Estamos a chegar a um dos pontos cruciais de toda esta iniciativa: o retiro digital. Para desfrutar plenamente do silêncio, terá de desligar as ferramentas de comunicação habituais: smartphone, computador, telefone fixo, tablet, etc.

Mudar a nossa relação com o mundo

Premir o off e sentir, de repente, uma relação completamente diferente com o mundo. Há anos que temos o hábito de estar permanentemente em contacto uns com os outros através da web 2.0. É reconfortante e dá-nos muitas vezes a sensação de estarmos menos sós, de termos numerosas testemunhas, de estarmos rodeados por uma comunidade humana. Conheço pessoas que ao publicarem diariamente a sua opinião sobre o mundo encontram um sentido para a sua vida. Longe de mim a ideia de denegrir em bloco as novas tecnologias e o tecido digital. Porém, na cura de silêncio, o elemento de solidão é essencial. Permite-nos acalmarmo-nos verdadeiramente e aprendermos uma nova forma de estar na nossa pele.

Para uma cura com êxito, tem de se desligar por completo. Desligar telemóveis e computadores, e — após um breve momento de pânico — saborear a sua liberdade reencontrada!

Como é que funciona? Depois de anunciar a sua cura de silêncio no Twitter (francamente!), ponha todos os seus aparelhos digitais o mais longe possível da sua vista. Sente-se, respire, abra os olhos para a decoração do momento. Ou então aproxime-se da janela e observe um pouco, tranquilamente, o que se passa lá fora. Desligar-se do mundo digital permite-lhe concentrar-se novamente no instante, e no lugar onde se encontra, aqui, de imediato! Este simples facto é, por si só, muito repousante.

Na verdade, as redes sociais e as ferramentas de comunicação criam uma espécie de tensão permanente. A exposição das nossas vidas através destes diferentes meios tem também o inconveniente de nos impedir de viver a experiência do momento na sua plenitude. É por isso que muitas pessoas estão sempre adiantadas em relação ao instante presente: encontram-se ali, connosco, mas, ao mesmo tempo, estão a pensar na forma como vão comunicá-lo ao mundo (fotografia, mensagem, tweet, etc.). Uma sociedade de hiperinformação, onde estar, simplesmente, perdeu a razão de ser.

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Tendo desligado os vários aparelhos digitais, depois de alguns momentos de vazio, apercebemo-nos de uma outra relação com o mundo, geradora de um profundo bem-estar. E tudo isto começa… na véspera da cura!

Uma ausência programada

É a véspera do grande dia! Para a sua ausência do mundo virtual (Internet), diferentes factores irão facilitar-lhe a tarefa. Trata-se, em primeiro lugar, de avisar toda a gente:

• Uma mensagem no atendedor;
• A activação da resposta automática da sua caixa de correio;
• Um telefonema aos amigos e à família para os tranquilizar.

Esta forma de procedimento é duplamente vantajosa. Não só ficará com o espírito livre para se concentrar noutra coisa como também estará a impor a si próprio uma obrigação de silêncio. Tendo anunciado o seu projecto a toda a gente, será difícil desistir a meio sem passar por mentiroso… Um amigo meu deixou de fumar assim. Gabou-se tanto de ter deixado de fumar, que uma recaída o teria descredibilizado aos olhos de todos. Ao informar toda a gente da sua cura de silêncio e da duração da mesma, ficará prisioneiro da sua decisão, o que o obrigará a cumprir o prazo estipulado e, sobretudo… a sentir-se tranquilo durante alguns dias!

Mas ainda há melhor: ao tomar consciência do seu projecto, vai suscitar a curiosidade das pessoas e, certamente, haverá quem o imite. Não deixarão de o interrogar sobre o desenrolar da experiência e os seus efeitos, e poderá contribuir para a difusão desta prática espiritual benéfica: é o que se chama juntar o útil ao agradável!

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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