A importância da Técnica de Corrida e como ela é ignorada por muitos

gelana

Como certamente já percebeu, o especialista Marco Pereira procura não escrever para impressionar, mas para informar. O objetivo é sempre aliar o conhecimento teórico/científico à sua experiência prática. Por esta razão, este artigo, sobre a técnica de corrida, poderá surpreender alguns…

 

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Como o próprio nome indica, a técnica de corrida não é nada mais do que treinar a técnica/forma como se corre. Estes treinos assumem um papel mais ou menos importante conforme a faixa etária e o nível do atleta.
Vejamos em primeiro lugar os principais objetivos da técnica de corrida:

1- O principal é melhorar a forma como se corre, tornando os apoios mais eficiente, eficazes e amplos;
2- Melhorar os níveis de força.

Pergunta: «Será que podemos corrigir a forma/técnica de corrida em todas as faixas etárias?»

Na literatura encontramos muitos escritos a dizer que sim e menos a dizer que não.

De acordo com a minha experiência profissional, aplicada no dia-a-dia, mas também pela observação de diversos atletas nacionais e internacionais, acredito que a técnica de corrida é fundamental nas faixas etárias mais baixas, até aos primeiros anos de Sub-23/Sénior.

Após esta idade defendo que a técnica de corrida assume um papel menos importante, já que o objectivo principal já não é melhorar a técnica, mas aperfeiçoar a corrida, por exemplo com os níveis de força provenientes dos treinos.

Exemplo prático:

Nos Jogos Olímpicos de Londres, na Maratona feminina, a etíope Tiki Gelana venceu a prova e alcançou inclusive o recorde olímpico, com o tempo 2h23m07. Esta atleta a correr apresenta uma oscilação de pernas na “fase de voo”. Julgo ser claro que a etíope, nos seus planos de treino, também trabalha a técnica.

Então a pergunta é obrigatória: «Porque não a corrigiu?»

Neste ponto, a pessoa ideal para responder a questão seria um ortopedista, mas acredito que Gelana tem quase de certeza alguns “desvios” ao nível do seu esqueleto, “desvios” de nascença que fizeram com que os seus músculos/corpo crescesse e desenvolvesse desta forma. No entanto, ela consegue ser uma das melhores atletas do mundo na maratona.

Alguns teóricos defendem, imaginem, que a etíope seria muito melhor se não tivesse essa oscilação. Eu afirmo o contrário. Sendo alterações morfológicas de nascença, todo o nosso organismo é potencializado a contar com aquela “alteração” – logo, se não for limitadora, também nós conseguimos de igual modo grandes níveis de performance.

Por isso, a ideia de que corremos muito inclinados à frente ou atrás ou que o apoio é mais supinador ou pronador pouco ou nada influencia na performance. Na verdade, devemos sempre ter o modelo ideal da perfeição e da optimização da performance, mas esses modelos são meramente matemáticos e biofísicos porque, na vida real, os atletas diferem uns dos outros: uns têm escoliose, outros lordose; uns são supinadores, outros pronadores; uns têm mais volume muscular, outros menos; uns são mais altos, outros mais baixos, etc.

E a verdade é que todos são bons atletas, uns campeões esporádicos, outros campeões naturais, logo mais regulares. São estes que nós não conhecemos e que poderiam dar-nos indicações pormenorizadas daquelas pequenas grandes diferenças entre bons atletas e os poucos verdadeiramente vencedores.

Por estas razões, o leitor deve ter consciência de que a técnica de corrida assume um papel importante na formação de atletas, mas isso não significa que não deva a incluir sempre nos seus planos de treino, no mínimo para melhorar os níveis de força, amplitude, eficácia e eficiência dos apoios.

Os atletas de meio-fundo e fundo dão pouca importância à técnica de corrida. Praticamente todo o seu treino se baseia no desenvolvimento da resistência, quer através da corrida contínua (método de treino mais utilizado), quer através de “fartleks” ou treino intervalado na pista. O treino das outras capacidades físicas – velocidade, força e flexibilidade – raramente faz parte de um planeamento de treino dos fundistas portugueses, principalmente os que se dedicam exclusivamente às provas de estrada (na minha opinião, um erro). Nos próximos artigos procurarei explicar e falar de exercícios práticos que todos devem ter presentes nos seus treinos.

Skipping baixo, médio, alto, atrás, à frente, etc.. Certamente é isto que o leitor deseja conhecer mais e, logicamente, abordarei esses métodos nos próximos artigos. Contudo, esta introdução serve para raciocinar sobre o tema e, acima de tudo, para ter consciência da forma como corre. Não podemos nunca esquecer um fator essencial no nosso desenvolvimento: toda a mudança ou evolução só acontece depois de sabermos onde e como estamos.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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