A fisiopatologia da corrida: Impacto da vida intra-uterina na performance do atleta

mulher

Na sequência do artigo anterior da especialista Carla Martins, vamos dissecar um pouco a fisiopatologia do feto tentando extrapolar para a vida extra-uterina o impacto de certos eventos ou processos, ao mesmo tempo que vamos teorizar acerca dos fatores modificadores da performance de um futuro atleta. 

 

A atividade fetal pode ser notada ecograficamente desde o 1.º trimestre e inclui uma diversidade de movimentos do tronco (inclinar, espreguiçar, soluços, respirar, rodar), dos membros (esticar, mão na face, abrir e fechar a mão), da face e da cabeça (rotação, sugar, bocejar, protusão da língua). Se repararmos, estes movimentos correspondem maioritariamente a alongamentos, o que nos permite teorizar acerca da prática saudável do desporto, devendo-se incluir exercícios de alongamento/relaxamento antes e após o treino físico.

Ainda não se conseguiu determinar, por estudos randomizados, qual o número de movimentos fetais que claramente distingue um feto saudável de um doente. Um dos critérios de rastreio usado é contar 10 movimentos em 12h00 de atividade normal da mãe.

A presença de um número normal de movimentos tranquiliza-nos quanto à integridade funcional dos sistemas reguladores do feto. Uma redução transitória dessa atividade também não deve ser motivo de alarme, pois corresponde normalmente a períodos de sono fetal.

Todavia, uma diminuição persistente da atividade fetal deve alertar-nos para uma potencial insuficiência placentária (com restrição do aporte de oxigénio e nutrientes), sendo que, inicialmente, essa diminuição de atividade constitui uma resposta comportamental compensatória (semelhante à da redistribuição do fluxo de sangue para os órgãos vitais durante o exercício físico intenso do atleta), mas, numa fase mais avançada, à medida que a hipoxia fetal se vai tornando mais severa, essa resposta reflete já lesão iminente ou morte fetal. Nestes casos, há que fazer ecografia urgente à mãe no sentido de excluir patologias que conduzam à insuficiência placentária.

Mas, no caso concreto do tema em análise neste artigo, o que nos interessa são os fetos com atividade reduzida e avaliação ecográfica normal, isto porque são fetos normais que exibem baixos níveis de atividade.

Serão fetos geneticamente inaptos para o desporto? Ou serão fetos cronicamente mal alimentados pela placenta materna e, nessa sequência, com atraso de crescimento e maquinaria energética deficientemente construída?

Atualmente não se pode dar uma resposta concreta a estas questões, sendo pertinente realizar um estudo prospetivo duplamente cego para avaliar o verdadeiro impacto desta diminuição de movimentos fetais normais na atividade física da vida extra-uterina.

Uma vez chegado ao término do seu desenvolvimento o feto terá que passar por uma nova provação – o parto. De facto, a transição da vida intra-uterina para a vida extra-uterina é um passo fundamental por ser este o momento crítico de transição da fisiologia fetal para a fisiologia da criança.

Fisiologicamente, o feto é peculiar: depende exclusivamente da placenta para obter o oxigénio e nutrientes necessários, apresenta circulação vascular da direita para a esquerda e a pressão parcial de oxigénio arterial é baixa (55 +/- 7mmHg), entre outros fatores.

Uma transição bem-sucedida caracteriza-se por um clearance adequado do fluido alveolar, expansão pulmonar e alterações circulatórias com aumento da perfusão pulmonar e da pressão arterial sistémica, com encerramento dos shunts direita-esquerda da circulação fetal.

Estas alterações ocorrem na sua plenitude apenas com um parto normal, via vaginal. Assim, pode-se especular que um feto nascido por cesariana não terá, por exemplo, a mesma capacidade pulmonar que um feto nascido por via vaginal eutócica, podendo ter condicionalismos de performance como um futuro atleta.

Por outro lado, a ocorrência de hipoxia durante o parto (que pode acontecer também com o parto vaginal) pode lesar estruturas fetais importante, designadamente o sistema nervoso central, prejudicando sobremaneira o controlo neuromuscular do futuro atleta.

Em resumo, a vida intra-uterina, factores genéticos à parte, é assaz importante na génese de um atleta devendo-se garantir uma nutrição adequada da grávida e impedir comportamentos de risco por parte desta (tabagismo, consumo excessivo de sedativos, stress emocional …).

Após a gestação, quando do parto cabe-nos a nós, médicos, garantir uma transição fisiologicamente eficiente para que a maquinaria energética da criança possa depois ser potencializada ao máximo.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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