Três crianças “correm” os 330 km de Tor de Geants ao lado de Manuel Maria Correia

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Manuel Maria Correia será um dos atletas na linha de partida do Tor de Geants, entre 13 e 20 de setembro, nos Alpes italianos. Pela frente terá de superar 330 km, com 24 mil metros de desnível positivo; por trás terá, no mínimo, três crianças com doenças crónicas que cumprirão o sonho das suas vidas, ir à EuroDisney e à fábrica da Mercedes, devido as passadas deste corredor. 

 

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Tem uma vasta experiência em corridas de Ultra Trail. Porque decidiu agora correr o Tor de Geants?
Apesar de já ter feitos algumas provas, sou o chamado “corredor de pelotão”. Ainda tenho muito para aprender. Se for completamente honesto, nem eu sei responder de forma taxativa porque decidi correr agora o Tor de Geants. Quando se olha para os números da prova (distância, altimetria, tempo de prova), todos são relativamente “insanos”. Mas, na verdade, há dois anos e meio que me apaixonei pela montanha. E, depois de fazer o UTMB no ano passado, o Tor passou a ser um objetivo a médio prazo, dado ser a prova mais “difícil” e onde se encontra o ambiente de montanha mais genuíno. Na verdade, o facto de parte do percurso do UTMB passar no Vale d’Aosta, e ter sido precisamente aí que vivi os momentos mais espetaculares em termos de paisagem, ajudaram à decisão. Talvez tenha decidido cedo demais, mas a sorte assim o ditou e agora é enfrentar o desafio.

O que espera encontrar?
No outro dia li um artigo que dizia que o Tor de Géants era uma prova para masoquistas. Ou seja, referia-se aos obstáculos que irei encontrar. Às já habituais dificuldades das provas de alta montanha, como a altitude, as condições meteorológicas, a alimentação, a desidratação, a hipotermia e o cansaço, junta-se uma variável que é a privação do sono. Eu diria que esta é a única variável que nunca testei e, em conjunto com as outras, não faço ideia do resultado final. O que espero é que as coisas positivas compensem tudo isto. Durante uma semana vou estar num dos sítios mais lindos do mundo, com paisagens deslumbrantes, e, mesmo de noite e tendo sorte, irei ter o céu mais estrelado que alguma vez poderei encontrar. E depois há ainda a autenticidade das pessoas do Vale d’Aosta, com quem espero interagir e poder dar e receber durante toda a semana.
Não irei estar sozinho. Terei um amigo que fará este desafio comigo, o Diogo Simão. Em equipa tentaremos ultrapassar os momentos difíceis que iremos encontrar ao longo do percurso.

manuelAcredita que esta será a prova mais complicada da sua carreira?
Não lhe chamaria carreira, mas antes percurso. Mas sim, não tenho dúvidas sobre isso. Mesmo antes de começar já sei que será a mais difícil. Não há forma de não o ser.

Como se preparou para a prova?
Como faço para todos os grandes desafios: delineando um plano no início do ano com treinos específico e variado e contemplando provas que me permitam testar algumas das variáveis que vou encontrar. Tive alguns azares este ano, pois, no equilíbrio entre vida profissional, pessoal e treinos, quis compensar e tive problemas físicos logo no início. Comecei a preparação mais tarde do que queria, mas consegui fazer entre junho e julho duas provas de Alta Montanha, em Andorra e Suíça. Espero ter conseguido os “mínimos”. Depois, o resto é o normal: cuidado com a alimentação neste últimos dias antes da prova e procurar não fazer nenhum exagero.

Poderia resumir de certo modo a sua preparação? Em termos de treino, qual foi o seu principal foco?
Diria que o foco foi sempre desenvolver a componente de força (altimetria), mantendo o equilíbrio do corpo. Esse equilíbrio foi conseguido com treinos variados em bicicleta/natação/ginásio. A prova é de progressão lenta, ou seja, não é tão importante a intensidade (como numa Maratona, por exemplo), apesar de ela também ter feito parte do plano de treinos, evidentemente.

Como o João, Alex e Rodrigo entraram na sua preparação?
A decisão de criar esta campanha nasceu de uma vontade que já tenho há algum tempo e que só agora foi possível juntar os vários ingredientes para a materializar, desde uma prova com características suficientes que possam chamar à atenção de todos até à minha disponibilidade para me poder dedicar a elaboração de todo o processo e segui-lo até o final.
Na fase inicial de preparação para o Tor de Géants percebi que o desafio que me tinha proposto era muito maior do que aquilo que alguma vez tinha feito. Sei que vou precisar de toda a força e energia para chegar ao fim e, assim, tendo mais gente a torcer por mim, esse apoio será fundamental nos momentos mais difíceis. Foi de forma natural que decidi que, além do habitual beneficiário destes desafios (eu próprio, pela superação e imenso prazer que me dá!), poderia tentar que o impacto chegasse a outros que mais precisam. E de forma solidária!
Quando tomei a decisão de avançar com este projeto solidário tinha apenas um requisito: os beneficiários tinham de ser crianças. Tenho três filhos e, provavelmente, essa é a maior razão. Em conversa com alguns amigos chegou-me o contacto da Terra dos Sonhos. Esta organização dedica-se a tornar possíveis os sonhos de crianças com doenças crónicas ou institucionalizadas. Contactei-os e, ao conhecer em mais detalhe os projetos em que estavam a trabalhar, rapidamente decidi que iria tentar ajudar pelo menos três crianças: o Alex, o João e o Rodrigo. E, se no final puderam ser mais, tanto melhor!

Conhece as três crianças?
Não! E, neste momento, elas nem imaginam o que lhe estamos a preparar. Isso faz parte de todo o processo de realização do sonho. Certamente no final terei algum feedback dos pais e dos momentos em que as crianças viveram aquando da realização dos seus sonhos.

Poderia falar um pouco sobre elas?
O que se pode falar já está descrito na página da causa. O que posso acrescentar é que o facto de irmos conseguir ultrapassar esta suposta impossibilidade que é o sonho de cada uma, além da felicidade momentânea, irá criar em cada uma delas um aumento da auto-estima e da confiança que certamente as ajudará a superar os momentos mais difíceis da sua doença.

manuel1Correr pelo João, Alex e Rodrigo acaba por “facilitar” o treino para o Tor de Geants?
Tem sido um processo de aprendizagem muito interessante. Como já referi, a motivação extra está cá, mas este processo também me está a transformar numa pessoa diferente, certamente para melhor. Ou, pelo menos, com esperança num mundo melhor. Tenho visto imensos gestos bonitos e sinceros dos meus amigos, colegas, familiares, conhecidos e até de anónimos. Estou completamente esmagado pela generosidade das pessoas.

Como funciona o crowdfunding?
Muito simples: uma plataforma que não é mais do que uma página de internet. Pelo promotor, neste caso eu em associação com a Terra dos Sonhos, definimos duas coisas: o montante (que serve para realizar os três sonhos) e o tempo em que decorre a campanha (será até final de setembro). A partir daí resta comunicar e contar com a ajuda de todos. Basta registarem-se na página e seguir as instruções da mesma. Depois é necessário atingir o valor proposto para a campanha ter sucesso. Pode-se continuar a doar até à data limite, mesmo que se atinja o valor estipulado e depois de já termos garantidos os três sonhos. Se for possível concretizar mais sonhos, tanto melhor. Seria espetacular poder ajudar o maior número de crianças possível.
Além do que está descrito na página da mesma, talvez deva acrescentar que a iniciativa teve aceitação de todos com quem falei e senti que as pessoas querem realmente ajudar. Provavelmente é preciso criarmos mais condições para que isso aconteça, seja ajudando financeiramente, com bens ou com tempo e disponibilidade. Se todos dermos um pouco mais, no conjunto teremos um mundo mais equilibrado. Não podendo resolver todos os problemas, devemos procurar resolver os que estão ao nosso alcance.

Está satisfeito com os resultados alcançados até ao momento?
Muito. Inclusive, surpreendido e emocionado. A adesão tem sido simplesmente fantástica. Se continuar assim até o final vamos fazer muitas crianças felizes.

E onde e como as pessoas podem ajudar?
Na plataforma da PPL Causas (clique aqui). Podem ainda seguir toda a comunicação da campanha e da prova na página do Facebook (clique aqui).
Esta experiência é para continuar?
Sem dúvida. Para já não faço ideia como, mas este é o caminho. O sucesso deste formato esteve muito dependente da minha rede de contactos. As próximas experiências terão forçosamente de ter âmbitos distintos para que possam ter sucesso. Pensarei nisso nas longas horas que estiver nas montanhas do Alpes italianos…

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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