Ricardo Dias: «Temos pessoas na federação que não estão no lugar certo»

Novo campeão nacional de pista nos 10 mil metros, Ricardo Dias tem um olhar crítico em relação ao papel da Federação Portuguesa de Atletismo no panorama da Corrida no nosso país.

 

Foi o melhor português no Troféu Ibérico de 10000 metros, alcançou a 13.º posição. Como analisa a prestação dos portugueses na prova?
Eu sei que se espera mais dos portugueses, mas sobre isso não me vou alongar muito. Tenho a minha opinião sobre o assunto. A nossa federação tem muita culpa nestes resultados, mas não vou comentar, não leva a lado nenhum. De uma coisa é certa: faço o que posso!

Mas concorda que o meio-fundo nacional atravessa uma fase menos boa no Atletismo nacional? Ou não?
Não considero isso, não podemos é comparar hoje com o passado. Os portugueses eram dos melhores da Europa e do Mundo em ternos individuais e coletivos, agora não somos. Mas a qualidade existe! Na minha opinião temos pessoas na federação que não estão no lugar certo. Neste momento, a federação desmotiva os atletas e devia ser o contrário. Pergunto: onde os mais jovens vão ganhar motivação para praticar Atletismo? Não é de certeza por dinheiro, já que poucos têm o privilégio de serem remunerados e os que são não ganham para o dia-a-dia. E ainda por cima têm uma carreira curta…
Temos ainda um selecionador que nunca foi a atleta e nunca valorizou os seus atletas. Ele esquece que, se está naquele cargo, é porque ainda existem atletas e portanto devia defender ao máximo os seus interesses.
E fico por aqui…

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Mas o que deve ser alterado?
Algumas coisas, mas, a mais importante, é acarinhar e valorizar quem anda aqui e dá o seu melhor todos os dias. Fazia-se antigamente coisas que deviam ser novamente feitas hoje. Por exemplo: valorizar as seleções a nível regional, zonais e depois a nível nacional. Com provas e estágios! Se um atleta é o melhor de uma associação e sente que há possibilidades de ir para outro patamar, ele vai trabalhar para esse patamar, que devia ser culminado com a representação na seleção nacional. Era uma forma de manter os jovens motivados. Mas agora, nas provas de seleção, consegues o teu lugar e a federação, nos últimos anos, desmoraliza tudo e todos porque acha que não temos valor. Que consequências isso acarreta? Desagrado pela modalidade! Nos nossos dias temos também uma sociedade virada para o facilitismo e esta modalidade requer muita dedicação e muito sofrimento diário, durante anos.
Em Portugal sempre houve talento e continuará a haver.

Em conversas com atletas de outros países, por exemplo, nota que estes têm melhores condições do que os atletas portugueses?
A diferença para os nossos países vizinhos é a mentalidade desportiva. Somos virados só para o futebol, não temos cultura desportiva. As condições são essencialmente “dinheiro para viver”. Todos querem ser o próximo Ronaldo porque ele ganha muito dinheiro. Neste momento há condições de treinos, mais nos grandes centros, mas, na globalidade, existe condições. Falta arranjar uma maneira de o atleta saber que, se tiver qualidade e trabalhar muito, conseguirá ter uma carreira.

Como vê a evolução do número de corredores de pelotão em Portugal?
Há muitos corredores, a sociedade está virada para o desporto da moda, que é o Running, mas falta qualidade. Mas realmente estamos mais ativos. E ainda bem! Acredito também que as redes sociais ajudaram a esse crescimento.

Militar de profissão, Ricardo Dias encontrou no Exército o apoio necessário para os seus treinos
Militar de profissão, Ricardo Dias encontrou no Exército o apoio necessário para os seus treinos

Como referiu, Portugal é um país onde a mentalidade desportiva é maioritariamente virada para o futebol. O que é necessário fazer para o Atletismo ter outra visibilidade e mais apoios?
Curiosamente, temos a sorte de Benfica e Sporting estarem a investir no Atletismo, mas é necessário mais porque não isso só não chega. É necessário trazer mais qualidade.

Ricardo Dias foi para o Exército para pode ser atleta

É militar de profissão. Qual a importância da disciplina militar para a sua carreira?
Eu sou militar, mas fui para o Exército para poder ser Atleta. Nem tudo foi um mar de rosas, mas felizmente tomei essa iniciativa na minha vida. Não sou profissional e na instituição tenho algumas facilidades para treinar. Faço o meu trabalho e, nas horas de treino físico, faço o meu treino. No final do dia faço o meu segundo treino.

E como conjuga estas duas vertentes da sua vida?
É difícil, mas, com a ajuda da família e com uma grande força de vontade, tudo se faz. Acredito que poderia ter outros resultados, mas não consigo descansar tanto quanto o necessário. Aliás, para as provas mais importantes, sou obrigado a colocar os meus dias de férias para assim poder treinar com mais qualidade, acabando por descansar também mais. Admito que já podia ter alcançado resultados de maior relevo, mas sei, ao mesmo tempo, que, quando deixar o Atletismo de Alta Competição, tenho a minha profissão.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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