Precisa de uma estratégia para correr uma prova de 100 km?

No terceiro dia d´«A Semana da Concretização de um Sonho», Urbano Cracco desvenda a estratégia que utilizou para terminar o Mundial 100 km, corrida onde foi o melhor sul-americano da prova.

 

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Ficou surpreso com o seu 34.º lugar?
Sem dúvida. Analisando os tempos dos anos anteriores e o meu melhor tempo na distância, o objetivo era ficar entre os 100 primeiros. No entanto, no decorrer da prova, cheguei a estar na oitava posição… Comecei assim a pensar que era possível fazer melhor e que não podia desperdiçar aquela oportunidade. Não hesitei, “fui para cima” e tudo correu bem: ajudei o meu país a alcançar um inédito nono lugar por equipas e ainda fiquei bem posicionado.

Qual foi a sua estratégia inicial na prova? E poderia resumir os seus 100 km?
Primeiramente, gostaria de referir que este Mundial foi um sonho de criança tornado realidade. Quando vesti o agasalho da seleção e vi que estava no meio dos melhores atletas do mundo, não deu para não recordar o meu passado, um menino que nasceu na Fazenda Boa Esperança, no interior de São Paulo, e que desde cedo passou por muitas dificuldades, como a falta de incentivos e as constantes críticas. Um homem que tinha superado tudo isso e que agora estava ali, a realizar o seu sonho, representar o Brasil num Campeonato do Mundo. Não existe melhor sensação, chego a ficar ainda hoje emocionado…
Aquando do início da prova posicionei-me no pelotão dos primeiros colocados, mesmo a correr a um ritmo mais forte do que havia planeado. Pensei que aquela seria a única oportunidade da minha vida em fazer um bom mundial e procurei seguir a estratégia traçada pelo selecionador, que seria forçar até o km 30, onde passei com uma média de 3m47/km. Controlei então a velocidade até o km 50 (3m52/km) mas depois “quebrei” entre o km 50 e o 65. Foram os piores 15 km da minha vida, parecia que tinha um urso nas minhas costas e as pernas não responderam. O meu pace caiu para 4m40/km.
No entanto, tinha a certeza que conseguiria recuperar e depois do km 65 voltei a um ritmo entre 4m15 – 4m25/km. Pronto, estava novamente na prova, apesar de ter perdido algumas posições. Consegui passar alguns adversários e o meu objetivo foi “curtir” os últimos 35 km, tendo como meta alcançar um bom tempo e ajudar o Brasil a alcançar uma boa classificação geral.
Quando passei no km 90, o relógio marcava 6h22m00. Sabia portanto que seria quase impossível fazer menos de sete horas, mas coloquei como objetivo fazer Sub-7h10m00. Ao passar pelo km 99, o relógio marcava 7h05m58, ou seja, tinha 4m02 para cumprir com o objetivo. Forcei novamente o ritmo e cruzei a linha de chegada com 7h09m49, uma média de 4m17/km. Portanto, um tempo melhor do que o planeado, uma alegria enorme, ainda mais quando fui o primeiro sul-americano a terminar a prova.

O segredo nestas provas é manter o ritmo do início ao fim?
Sinceramente, na minha opinião, não há segredos em provas com este perfil. Há é muita experiência por detrás de cada estratégia traçada. Uns adotam a estratégia de manter o ritmo do início ao fim; outros preferem tentar um “sprint negativo”, algo que acho particularmente muito difícil de alcançar em ultras; e muitos são mais conservadores, têm receio de “quebrar” durante a prova.
Em resumo, ninguém conhece mais o corredor do que ele próprio e portanto é necessário conversar com o técnico para ambos decidirem a melhor estratégia a utilizar na prova.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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