Portuguesa sobreviveu aos 20.500 degraus da Maratona da Grande Muralha da China

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No próximo dia 16 de maio realiza-se a Great Wall Marathon, uma das duas Maratonas que são disputadas na Grande Muralha da China. Filipa Elvas participou na Great Wall China Marathon em 2013, uma prova mais dura em termos físicos. Na altura, foi a única mulher a terminar a competição. Hoje dá cinco conselhos para os interessados em correr um dia esta corrida realmente desafiadora.

 

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Cerca de dois anos depois, a assistente de bordo na TAP recorda como se fosse ontem a sua participação na Great Wall China Marathon, de como chorou no final durante cerca de três horas, de como foi ultrapassar mais de 20.500 degraus em 7h50, de como custou a sua preparação para a prova, uma preparação que ainda hoje leva consigo.

filipaComo soube da existência da Maratona da Grande Muralha da China?
Foi um amigo, Álvaro Leite, que me falou nesta prova pela primeira vez, foi quem me incentivou a fazê-la, que explicou-me que era uma das mais duras Maratonas do mundo.
Decidi fazê-la essencialmente por duas razões: pelo desafio que representa, quer a nível físico, quer a nível mental, mas também porque sou muito feliz a correr.

E como foi participar na prova?
Na altura foi o desafio mais difícil que tinha feito na minha vida. Ainda hoje recordo o que vivi naquele dia… Tenho um grande orgulho por ter cruzado a meta. Nunca esquecerei o que passei, principalmente por ser uma maratona muito exigente, principalmente a nível mental. Em particular, recordo os degraus, que acompanharam-me do primeiro ao último segundo. A concentração teve de ser total. Na realidade, a cabeça é o músculo mais importante que se tem numa Maratona.

Mas o que recorda em particular da prova?
Recordo de tudo, realmente de tudo… A dificuldade de correr em degraus, o esforço que fiz para me manter sempre focada nos degraus, a minha respiração, cada passo que dei, dos atletas, do percurso, que é sempre igual… Aliás, a monotonia desta prova pode ser um “inimigo” que leva a cabeça a fazer com que o corpo desista facilmente. Lembro-me de ver inúmeros atletas a pararem e a desistirem.
Curiosamente, pouco recordo da paisagem que envolvia a Muralha, já que era quase impossível tirar os olhos dos degraus.

Mas como são os 42 kms? A prova é sempre realizada no interior da Muralha?
Os 42 kms são realizados quase sempre na Muralha, ao longo de vários lanços de degraus, de várias dimensões. Só uma pequena parte, na segunda metade da prova, é feita em terra batida decrescente e ascendente.
Há duas “Maratonas na Muralha da China”, curiosamente ambas realizadas em Maio:
a Great Wall Marathon, com 5000 degraus, sendo 80% do percurso fora da muralha; e a Great Wall China Marathon, com 20.500 degraus, sendo 98% do percurso dentro da muralha. Participei na última.

E qual foi a principal dificuldade que sentiu?
Os degraus, apontados para o céu, e as descidas, muito acentuadas e em terra batida. Evidentemente que os degraus são a grande dificuldade da prova, mas também o grande desafio.

Recordo do seu treino para a prova? Poderia falar um pouco sobre ele?
Normalmente são precisos quatro meses de treino para uma Maratona. Para além do treino de corrida, para esta prova o meu treinador, Manuel Machado, introduziu no meu plano séries de degraus e de rampas. Sabia que o meu grande “inimigo” seriam os degraus e por isso tornei-me “amiga” deles. Procurei cumprir as séries em degraus sempre com um sorriso… Mas, quando o treino terminava, não utilizava o elevador até ao 4.º andar no meu prédio, subia sempre pelas escadas, algo que ainda hoje faço, o que faz com que sempre recorde a Muralha da China…
Sabia também que teria temperaturas elevadas e humidade máxima durante a corrida. Procurei por isso treinar na hora de maior calor, mas nem sempre foi possível porque sou assistente de bordo na TAP e cumpro horários muito diversificados.

O que a surpreendeu mais?
Na muralha, a beleza de tudo mas também a dificuldade de a transpor. Em mim, foi o facto de, após cruzar a meta, ter chorado de emoção e de felicidade durante quase três horas. O meu corpo tremia… de alegria.

Quais os 5 conselhos que daria a alguém que um dia pretenda correr a prova?
Seriam estes:
a) Treinar em degraus e rampas.
b) Elevada preparação mental, concentração, foco…
c) Objetivo principal: chegar ao fim.
d) Fazer o melhor que se consegue fazer em cada dia de treino: dar o melhor de si, ser feliz a correr.
e) Determinação e força de vontade.

filipa2Até hoje foi a prova mais desgastante que fez em termos físicos?
Até ao dia 1 de Maio de 2013, a Maratona da Grande Muralha da China tinha sido a prova mais dura que tinha concluído.
Mas, em 2014, fiz os 43 kms de Melides-Tróia, pela areia… Esse sim foi o desafio mais duro que realizei! Nunca tinha corrido na areia e experimentei fazê-lo naquele dia, sem nenhum treino na areia. Foi muito doloroso!

Foi a única mulher a terminar a prova, em 30 corredoras. O que isso significou para si?
Significou que cumpri com determinação e força de vontade o plano de treinos do meu treinador. Significa que nada é impossível: com esforço e com trabalho tudo se alcança. Significou e significa um orgulho eterno, que me acompanhará para sempre.
Cada um de nós faria mais coisas se as julgasse menos impossíveis.

Mas o que retirou da prova em si, em termos pessoais e desportivos?
Em termos pessoais retirei o mesmo que retiro em todas as maratonas que realizei até hoje: tudo se alcança com força de vontade e determinação, em todas as vertentes da nossa vida.
A vida é como uma Maratona, um dia de cada vez, um passo de cada vez. E, em cada dia, dou o melhor de mim. Faço o mesmo em cada quilómetro, em cada degrau… Concentro-me, estou focada no que estou a fazer.
Em termos físicos senti mesmo que a nossa cabeça é fundamental para ultrapassar todas as adversidades para cruzar a meta. Dou muito valor à capacidade mental, à força interior e à emoção… Sem elas não chego ao fim, não chego a lado nenhum.

Há um ditado chinês que diz: “Ninguém é grande antes de subir à Muralha.” Sente-se hoje “grande”?
Não me sinto “maior” por ter cruzado a meta da Maratona da Muralha da China, sou a mesma Filipa de sempre. Mas sinto que muita coisa mudou na minha vida, apesar de ser a mesma mulher.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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