Paulo Paula: «A S. Silvestre São Paulo começou a pensar que poderia ganhar dinheiro com as inscrições muito altas»

Nove dias depois de realizada, a São Silvestre de São Paulo continua a “mexer” no Brasil, fruto das inúmeras fraudes ocorridas na corrida, como foi o caso da multiplicação dos dorsais, com vários atletas a correr com o mesmo número, por exemplo. O brasileiro Paulo Paula, atleta que representa o Belenenses e que já correu a prova em duas ocasiões, não ficou admirado com tudo o que aconteceu. Pelo contrário…    

 

A São Silvestre de São Paulo é a principal corrida no Brasil?
Para vários atletas, e para o público em geral, a São Silvestre de São Paulo é a corrida com mais repercussão na comunicação social do Brasil. Não participar na São Silvestre de São Paulo, para alguns atletas, faz com que não os enquadre como atletas de alto rendimento. Todavia, para mim, a corrida nunca foi uma prova de destaque, só participei na prova por 2 vezes em 24 anos de carreira.

E como foram essas participações?
Não me marcaram muito, corri por duas vezes, em ambas para defender o meu clube. Nunca foi o meu foco principal. Recordo-me de ser uma prova com alguma dificuldade, já que tem um início muito rápida e, nos dois quilómetros finais, apresenta uma subida muito íngreme.

E qual a sua visão sobre a prova?
Vejo a São Silvestre de São Paulo não como uma prova, mas como um tipo de investimento com o intuito do lucro, usando os atletas profissionais e os corredores amadores como fonte de rendimento, já que cobram taxas de inscrição com valores bastante altos.

Mas qual acredita ser a principal magia da São Silvestre de São Paulo?
A magia da São Silvestre de São Paulo existia quando a prova era realizada à noite, com os batedores da polícia militar com as suas sirenes ligadas, dando um clima todo especial. Na minha opinião, hoje em dia, a magia tornou-se uma coisa criada pela comunicação social.

O Brasil, este ano, teve uma das suas piores participações de sempre. O que está de errado na corrida do Brasil?
O Atletismo do Brasil, após o término dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, passa por uma grave crise financeira. Associado a isso, temos uma má gestão, tanto por parte da Cbat (NDR: responsável pelo desporto no país) como pelas federações estaduais, que, ao longo dos anos, não investiram na base para que pudéssemos revelar novos talentos.

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A edição deste ano ficou marcada pela “multiplicação dos dorsais”. Qual a sua opinião sobre o assunto?
O que aconteceu, de vários atletas amadores correrem com o mesmo dorsal, é culpa da própria organização da São Silvestre de São Paulo, que começou a pensar que poderia ganhar dinheiro com as inscrições muito altas, precisamente por ser uma prova em que as pessoas querem correr. Na minha opinião, a São Silvestre de São Paulo deveria ter um valor de inscrição simbólico, já que é uma corrida tradicional, uma corrida aguardada com grande expetativa por toda a população do país no último dia do ano.

Paulo Paula compreende as infrações mas não concorda com as mesmas

Mas compreende a posição dos infratores?
Compreendo, mas não concordo. Compreendo se olhar pelo lado do corredor que quer participar e não consegue devido ao alto valor da inscrição (NDR: 45 euros), mas não concordo com esse tipo de atitude. Se os valores fossem mais baixos, provavelmente não teríamos tantos números de “invasores” na prova.

Acredita portanto que o preço da inscrição serve de justificação para tudo o que aconteceu?
Sim!

E qual a sua posição em relação aos “pipocas” na São Silvestre de São Paulo, aos atletas que correm sem um dorsal da corrida?
Como já disse, se a prova fosse somente encarada como uma prova tradicional e de integração da população e atletas amadores, e não uma forma de lucro, se os preços fossem mais acessíveis, não teríamos este tipo de atitude.

Mas, como atleta profissional, como analisa esta posição dos corredores amadores?
Não me choca, isso acontece, como referi, pelos valores pedidos para a corrida, que são realmente muito altos. Colocar preços acessíveis a todos os interessados evitaria essas situações, sme sombra de dúvida.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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