Um adeus para a vida entre Miguel Reis e Silva e a Salomon

1, 2, 3 ,4 e 5. Cinco foram os anos de ligação entre Miguel Reis e Silva e a Salomon. Por motivos profissionais e familiares, a parceira chegou ao fim. Neste balanço de meia década, o português recorda com carinho o vínculo, principalmente por permitir «participar nas melhores corridas de montanha do mundo e conhecer pessoas extraordinárias. Uma parte de mim é fruto de todas essas vivências pelo que o balanço é francamente positivo».

 

Após cinco anos, a parceria com a Salomon terminou. Porquê?
Resumindo: por motivos profissionais (tentativa de conciliar atividade médica no Hospital e no Sport Lisboa e Benfica com a atividade de doutoramento) e por motivos familiares (ter sido pai) deixei de treinar os mínimos que me fariam considerar um atleta, não tendo assim sentido continuar numa equipa competitiva de Trail. Por outro lado, surgiu a oportunidade de incorporar a secção de desenvolvimento de produtos da Compressport, uma atividade pela qual sempre tive interesse, o que facilitou a transição.

Onde estava quando recebeu o convite para integrar a equipa da Salomon?
Já não me recordo. Lembro-me que fui contactado depois de ter vencido uma das primeiras provas de montanha que fiz, um AxTrail.

E ficou muito surpreendido?
A verdade é que o nível competitivo do Trail em Portugal nessa altura era muito inferior ao que é atualmente, pelo que era mais fácil obter resultados de destaque. Este facto permitiu-me, na altura, vencer algumas provas com as bases de Atletismo e de Orientação que tinha. As marcas, nessa época, não tinham o mesmo peso social no Trail (ninguém era apoiado por ninguém), pelo que encarei esta parceria como uma boa oportunidade para aprender com os melhores da modalidade.

E qual o balaço que faz desta parceria?
A Salomon permitiu-me participar nas melhores corridas de montanha do mundo e conhecer pessoas extraordinárias. Uma parte de mim é fruto de todas essas vivências pelo que o balanço é francamente positivo.

Qual a importância que este patrocínio trouxe para a sua carreira? O que esta parceria trouxe para si, como atleta?
Eu nunca fiz nem tencionei fazer carreira desportiva e o objetivo da parceria nunca foi esse. Aliás, a maioria dos atletas da Salomon internacional têm os seus trabalhos comuns durante a semana. Conforme referi, a parceria levou-me aos palcos mais importantes da modalidade envolvido num meio fantástico.

Mas consegue avaliar a sua evolução decorrente do apoio que recebeu nestes cinco anos?
Curiosamente, no período da minha vida em que treinei mais, correspondente aos anos da faculdade, dedicava-me apenas à estrada, pista e Orientação. Entrei na Salomon em 2012, numa altura em que procurava novos desafios, já com menos intensidade. A Salomon sempre me apoiou, não pedindo nada em troca nem exigindo provas. Tratava-se de uma relação de confiança mútua, que apreciei. Neste contexto, sempre senti que nunca evoluí muito durante o período de patrocínio, não pela falta de apoio, mas pelas condicionantes profissionais que, por escolha própria, me limitavam as horas de dedicação ao treino.

Falta de apoio é o fado dos portugueses

Qual foi a prova mais especial deste período em concreto? Porquê?
As provas de Zegama-Aizkorri e Marathon du Mont Blanc continuam a ser as minhas favoritas. São provas em locais belíssimos e com uma mística especial.

E qual o momento que não esquece? Porquê?
Tenho tantas recordações boas que não consigo escolher nenhuma em particular. Todas elas correspondem a momentos de convívio entre pessoas com objetivos de vida semelhantes que se encontravam a fazer aquilo que gostam: correr e desfrutar dos espaços naturais.

Como analisa a evolução (ou não) do Trail nestes cinco anos?
O Trail tornou-se num “case study” de crescimento explosivo de uma modalidade. Lembro-me que, há 10 anos, o circuito da FPME, apoiado pela Salomon, contava com menos de 100 atletas à partida, maioritariamente vindos das provas de estrada. Hoje em dia, as provas contam com alguns milhares de atletas, tendo obtido uma notoriedade social relevante.
No entanto, o Trail foi prejudicado pela ausência de um fio condutor que originasse uma regulamentação por uma estrutura única, até a nível internacional. Neste momento são várias as federações que regulamentam a modalidade, o que às vezes leva à dispersão e à sub-otimização de recursos. Dou como exemplo a submissão às regras e controlos da Agência Mundial Antidopagem (algo apenas existente a nível nacional nas provas de montanha da Federação Portuguesa de Atletismo), um passo essencial para a credibilização da modalidade.

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O apoio de marcas em atletas nacionais é baixo se comparado com outros países?
Esta premissa não é verdadeira, fazendo parte do nosso fado de portugueses queixarmo-nos da nossa sina. Contudo, esquecemo-nos que o Luis Alberto Hernando continua a trabalhar como polícia, que o Tofol Castanyer treina na hora da “siesta” da sua loja de eletrodomésticos e que o Ricky Lightfoot trabalha por turnos como bombeiro.
Em comunidades em que o Trail está mais difundido, como no país basco, Catalunha ou alpes italianos, existem dezenas de corredores de montanha anónimos que vivem sem qualquer apoio desportivo e que têm performances semelhantes aos nossos melhores atletas.

Acredita que, um dia, teremos corredores de Trail profissionais?
Temos que considerar que, a nível mundial, se contam pelos dedos de uma mão o número de atletas profissionais de Trail. Mesmo em modalidades desportivas centenárias, excetuando alguns desportos como o futebol, ténis ou golfe, o mundo do Alto Rendimento é um mundo complexo, onde os atletas profissionais são raros e sobrevivem à custa de muito sacrifício pessoal e da constante instabilidade financeira que não assegura um futuro após o término da carreira desportiva. Esta é a realidade que frequentemente escapa aos olhos de quem admira o desporto. Contudo, no caso do Trail, o impulsionamento por várias marcas de outdoor facilitará o aumento do número de corredores profissionais na modalidade.

Veja aqui um vídeo da Salomon sobre estes cinco anos ao lado de Miguel Reis e Silva

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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