A Maratona de Sevilha foi «uma pequena viagem ao Inferno da corrida»

Vítor Oliveira, de 29 anos, surpreendeu tudo e todos ao ser o primeiro português a cruzar a meta na Maratona de Sevilha, logo na sua estreia na modalidade. Apesar disso, o atleta da Associação Vale Grande, de Odivelas, não ficou feliz com o seu tempo, 2h32m12. «Foi uma pequena viagem ao Inferno da corrida», confessa.

 

Ficou surpreso em ser o primeiro português na Maratona de Sevilha?
Foi uma surpresa enorme. Sabia que, se cumprisse o objetivo que tinha em mente, era possível ficar entre os primeiros portugueses. Quem me acompanhou à Sevilha disse-me que não tinham visto o Hermano Ferreira a cruzar a meta, mas que o speaker português tinha anunciado um atleta nacional antes de mim. Umas horas antes de ter sido anunciado nas redes sociais já tinha andado a ver as classificações e deu-me a sensação de que eu realmente era o primeiro português, mas nem liguei muito a esse facto. Quando a notícia saiu e o meu telemóvel começou a receber notificações sem parar é que me apercebi do que tinha feito!

O que isso significa para você?
É um orgulho e um prémio por todo o trabalho destes últimos meses feito por mim e pelo meu treinador André Filipe. Não apaga o facto de não ter realmente ficado satisfeito com o meu resultado final, mas foi sem dúvida uma recompensa bastante saborosa depois do sofrimento que foi aguentar os últimos quilómetros da prova.

Foi a primeira vez que correu a prova no país vizinho?
Esta foi a minha primeira Maratona e, como tal, a primeira vez em Sevilha, mas acredito que não será a última!

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Como foi a sua prova? Qual era o seu objetivo inicial?
A minha prova foi uma pequena viagem ao inferno da corrida. O meu objetivo inicial era fazer abaixo das 2h30, o que significa que não consegui ficar satisfeito com o meu tempo. O início da prova foi feito na base da desconfiança, impus um ritmo confortável e fui apreciando a imensidão de atletas que me rodeavam. Passados alguns quilómetros formou-se um grupo em que seguíamos a um ritmo bastante certinho, por volta dos 3m30/km. Sabia que poderia estar a cometer um erro (o meu treinador disse-me para apostar num ritmo acima dos 3m35/km na primeira Meia-maratona), mas era o ritmo que me permitia ir para o meu tempo de sonho.
Durante muitos quilómetros este grupo seguiu compacto e sempre com o ritmo certo. Via os quilómetros passar e sentia-me bem, sentia-me feliz com o que estava a fazer. Mas então, e lentamente, tudo começou a mudar. Comecei a sentir os músculos da perna esquerda a contrair mais que o normal. A primeira Meia-maratona passou e comecei a pensar se teria forças para fazer a segunda meia mais rápido do que a primeira, como mandam as regras básicas da Maratona. Mesmo com a fadiga a acumular-se, os primeiros quilómetros indicaram que sim. Mas, a partir dos 35 km, as pernas já não eram as mesmas. Tinha os gémeos e os quadríceps completamente tensos. Até os braços estavam a querer entrar em espasmo… O ritmo foi diminuindo naturalmente e, psicologicamente, tive que dar tudo o que tinha. Sentia que tinha forças, sentia que não estava acabado, mas as pernas estavam presas e a minha passada estava completamente irregular. Os últimos quilómetros foram um pequeno inferno e passar a meta serviu apenas para libertar a raiva que senti dentro de mim por não ter cumprido o planeado.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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