José Motta: «O vento chegou aos 90 km/h na Maratona da Patagónia»

José Motta foi o vencedor da recente Patagonian International Marathon (3h22m54), hoje considerada uma das provas mais singulares do continente sul-americano em razão da sua beleza e dificuldade (realizada a baixas temperaturas e pela inclinação na segunda metade da prova). Na primeira parte da entrevista (a segunda será colocada na sexta-feitra), o brasileiro aborda a prova em si.

 

Antes de tudo, poderia falar um pouco sobre a Maratona da Patagónia em si? Qual a sua importância no panorama da América do Sul?
A Patagonian International Marathon está na sexta edição e chama a atenção pelo cenário exuberante da Patagónia chilena. Além dos 42 km, também há as distâncias de 21 e 10 km. É realizada no entorno do Parque Nacional Torres del Paine e possui um percurso misto de asfalto e cascalho. Apesar de apresentar algumas subidas desafiadoras, a maior dificuldade é a baixa temperatura, principalmente para os atletas estrangeiros. A logística para Puerto Natales, cidade mais próxima, também não é simples, pois o aeroporto fica em Punta Arenas, a 230 km de distância.

Foi a primeira vez que correu a Maratona da Patagónia?
Já tive a oportunidade de visitar a Patagónia, mas fui pela primeira vez para correr. Considero a região uma das mais bonitas do mundo e participar desta prova estava nos meus planos há alguns anos. Só não sabia como iria reagir às condições climáticas, principalmente a baixa temperatura. Como sou de São Paulo, é praticamente impossível treinar em ambientes que simulem a prova.

Houve alguma novidade este ano em relação aos anos anteriores?
A grande “novidade” da edição deste ano foi o forte vento, que chegou aos 90 km/h. Em alguns momentos foi muito complicado correr. Ouvi relatos de corredores que chegaram a cair. Sem dúvida que foi o maior fator de dificuldade da prova.

Quantos participantes teve a edição deste ano?
Cerca de 600 atletas participaram do evento, nas três distâncias.

 

A logística para a Maratona da Patagónia é complicada, revela José Motta
A logística para a Maratona da Patagónia é complicada, revela José Motta

 

A vitória na Maratona da Patagónia foi uma surpresa para José Motta

Poderia descrever a sua prova?
Larguei no ritmo em que costumo correr a maioria das Maratonas, num pace para concluir a prova próximo das 3h00. Rapidamente eu e mais quatro atletas obtivemos uma boa diferença em relação aos demais, alternando a liderança nos quilómetros iniciais. A partir do km 6, no primeiro posto de abastecimento, comecei a aumentar a minha vantagem e já não vi mais ninguém. Estava a viver uma experiência diferente, de correr completamente sozinho e sem referência ao longo de quase toda a prova. Sabia que tinha de estar concentrado para não deixar cair o ritmo ou forçar demais.
Na metade da prova passei pelo local da largada dos 21 km, ocorrida minutos antes. Comecei a ultrapassar os últimos colocados, o que era um alívio, pois, pelo menos, já não estava o tempo todo sozinho.
Foi a partir de então que começaram a aparecer as subidas mais íngremes e, junto à elas, os fortes ventos na direção contrária. Em alguns momentos o esforço para correr era tão grande que a velocidade foi próxima da caminhada. Já não me preocupava tanto se havia aproximação dos demais atletas, o único objetivo era ultrapassar aquelas áreas para poder voltar a “encaixar” o ritmo.
Por fim, na última serra, já era possível avistar o hotel da chegada. Eram os últimos três quilómetros de prova. Quando alcancei o topo da serra, tive a certeza de que não perderia mais a corrida, pois estava com forças para fazer a descida a uma boa velocidade.
Ao avistar o pórtico vivi um misto de exaustão e emoção. Havia vencido a Patagonian International Marathon!

Mas esperava alcançar o triunfo? Estava entre um dos principais favoritos? Foi uma surpresa para todos?
Os atletas não se conhecem antes da prova e portanto não sabia o nível dos que estavam na linha da meta. Ao analisar os resultados das edições anteriores, sabia que poderia chegar entre os primeiros, mas não imaginava ganhar a prova, já que estou numa sequência grande de Maratonas, 10 este ano. Além disso, havia corrido os 67 km do Desafio do Samurai na Uphill Marathon, na semana anterior.

 

O frio é um desafio para José Motta e os participantes da Maratona da Patagónia
O frio é um desafio para José Motta e os participantes da Maratona da Patagónia

 

Só teve a certeza do triunfo nos três quilómetros finais?
Eu liderei a prova com uma boa diferença para os demais desde o km 6. Até então, eram cinco atletas, que se alternavam à frente. Não sabia se conseguiria manter o ritmo até o final e, de facto, não mantive. Mas a verdade é que a margem para o segundo colocado também não caiu. A partir do 21 km as subidas eram mais exigentes, além do impressionante vento contra, o que acabou por prejudicar a todos.

Esta foi a vitória mais importante da sua carreira? Porquê?
Foi a vitória mais importante que já conquistei, sem dúvida. Por se tratar de uma Maratona internacional, com atletas de várias regiões do mundo, a repercussão acaba por ser maior.

Las palabras de José Motta ganador los 42 km de #PIM2017 #CoberturaRunchi

Publicado por Runchile em Sábado, 9 de Setembro de 2017

 

  • José Motta escreveu sobre a prova para o Jornal Corrida, onde é colaborador do blog Mundo Maratona. Para participar na Maratona da Patagónia contou com o apoio da Fila, para o vestuário e sapatilhas; da Fisionoesporte, responsável pela recuperação muscular; da CEP, para as meias de compressão; e da Polar, para monitorizar a atividade física.
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Pedro Alves

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