Lucinda Sousa: «Senti como nunca a força que nos catapulta para outros níveis de superação e resiliência no UTMB»

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Lucinda Sousa e Susana Simões protagonizaram uma das histórias da prova deste ano do Ultra Trail du Mont Blanc, já que, durante grande parte da prova, e devido a dificuldades que ambas estavam a sentir, decidiram correr juntas mais ou menos no quilómetro 100 (veja aqui a chegada das duas melhores atletas de Portugal na prova). Os restantes 60 km marcaram a vida das duas, mas também de muitos outros…

 

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O que significa para um corredor participar no Ultra Trail du Mont Blanc?
Julgo que a participação nesta prova será, sem dúvida, um dos grandes objetivos para qualquer atleta desta modalidade, entre outros por ser a prova mais mediática do Mundo, mas também devido a maior participação de corredores, tanto a nível quantitativo como qualitativo.

No seu entender, quais as principais dificuldades da prova? O que a torna de diferente das demais?
A distância, a altimetria e uma parte significativa da prova ser realizada acima dos 2000 metros de altitude, condições inexistentes no nosso país.

Em concreto, o que esperava da edição deste ano?
Esta prova foi um dos meus grandes desafios da época, sendo que, fruto da fratura da rótula que sofri no passado dia 30 de maio durante o Campeonato do Mundo de Ultra Trail, não me foi possível estar em plena forma física, pelo que a expectativa em termos de resultados não passou pela classificação, mas pelo terminar da prova.

Poderia fazer um pequeno resumo da prova, resumir os 160 km?
A prova correu dentro do planeado até cerca dos 40 km. A partir daí começaram os problemas ao nível da não assimilação de líquidos e sólidos, com vómitos contínuos, o que obrigou a alterar completamente a minha estratégia.
É precisamente a partir do quilómetro 40 que recordarei para sempre o UTMB. Não por ser a mais mediática do Mundo, nem tão pouco pelo resultado obtido. Esse, sem dúvida, ficou aquém das minhas expectativas, fruto do problema que já referi.
Recordarei a prova por a ter vivido de uma forma tão intensa, a exacerbação de princípios, valores, atitudes, sentimentos e emoções, dos quais acredito ser o espírito mais nobre desta apaixonante modalidade. Senti, como nunca, que aquilo que nos parece ser o nosso limite está longe de acontecer. Esse limite julguei-o atingir aos 79 km, em Courmayeur, pelo estado de falência hídrica e energética provocada pela ausência de líquidos e alimentos desde os 40 quilómetros.
Como nunca, senti a força gerada por quem, tão abnegadamente, nos assiste em prova, os amigos, os seguidores, a família, o treinador, tantos outros…
Como nunca, senti a força que nos catapulta para outros níveis de superação e resiliência, quando existe o espírito de entreajuda e companheirismo de quem está ao nosso lado em prova, com o mesmo propósito: querer e determinação. E, neste caso, teve um nome; Susana Simões.

Precisamente, terminou a prova junto com ela. Como surgiu esta aliança? Já a conhecia, por exemplo?
Já conhecia bem a Susana. Aliás, em maio, foi a minha colega de quarto na prova do Campeonato do Mundo, quando ambas representamos a seleção nacional. Perante a dificuldade de ambas, por motivos diferentes e porque a prova assim se proporcionou, mais ou menos aos 100 quilómetros, decidimos apoiar-nos e tentar terminar a prova juntas. Conseguimos!

O que poderia falar da atleta Susana Simões?
Ela é uma referência nacional nesta modalidade, mas, acima de tudo, é um grande ser humano.

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Este ano o calor marcou a prova. É mais complicado “defrontar” o frio ou o calor neste tipo de provas?
Os dois poderão ser condicionantes, sendo que, no meu caso em concreto, o frio teria sido de mais difícil gestão dada a fragilidade energética em que me encontrava.

Terminou em 20.ª da classificação geral. Ficou surpresa com a sua colocação? E alcançou o tempo que esperava?
Não posso dizer que fiquei surpresa, mas satisfeita, dadas as condições que realizei a prova durante cerca de 130 km da prova.

E como analisa a participação dos atletas portugueses?
Foi a maior participação portuguesa de sempre, com resultados positivos, onde será de destacar o grande resultado do Armando Teixeira.

Cada vez há mais portugueses no evento. Poderia dar cinco conselhos para os atletas que pretendem participar pela primeira vez no ano que vem?

1) Realizar um adequado planeamento, ao nível do treino e alimentar;
2) Proceder a um correto planeamento da prova;
3) Não se centrar em tempos ou resultados, mas numa correta estratégia para poder terminar a prova;
4) Mentalizar-se que vão surgir dificuldades várias e não previstas durante a prova;
5) Aclimatar-se à altitude.

Cumpriu um dos sonhos da sua vida ao correr o Ultra Trail du Mont Blanc?
Cumpri um dos objetivos ao qual me tinha proposto.

O que há depois do Ultra Trail du Mont Blanc?
Haverá certamente mais Ultra Trail du Mont Blanc, bem como outras provas, sendo que pretendo incluir no próximo ano uma prova por etapas.

Uma única frase para qualificar o Ultra Trail du Mont Blanc?
Uma festa do Ultra Trail.

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Pedro Alves

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