João Oliveira, o homem das 100 Maratonas/Ultra-maratonas

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João Oliveira é um dos nomes mais reconhecidos em Chaves, mas também do running em Portugal. Recentemente venceu a Ultra Milano-Sanremo 285km, a mais longa corrida de apenas uma etapa na Europa, e com o recorde da prova (foi o seu quarto triunfo internacional). Na recente Ultra-trail da Serra de São Mamede, alcançou um número significativo (e impensável para muitos): correu a sua 100.ª maratona/ultra-maratona. Esta quinta-feira e amanhã, sexta, teremos uma entrevista com um corredor que tem inúmeras histórias na vida, como a que aconteceu na TransOmania 300km, em Omã. Sem GPS e depois dos camelos terem comido as placas de sinalização, o português teve de esperar Johan Steen para terminar a prova na primeira posição em ex-aequo com o nórdico. Caso decidisse tentar vencer sozinho, poderia se perder…

 

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Funcionário prisional, concretamente técnico superior de Acompanhamento da Execução das Penas, o curriculum de João Oliveira é realmente impressionante. Além dos triunfos na TransOmania 300km e na Ultra Milano-Sanremo 285km, apresenta vitórias no Brasil (75 km) e na Grécia (246 km), concretamente na exigente e prestigiada Spartathlon. Evidentemente, conta ainda com vários êxitos no nosso país.

Por isso, não é por acaso que João Oliveira seja um dos nomes mais respeitados no Mundo da Corrida em Portugal, embora não só devido aos seus resultados desportivos, mas também por ter um manancial de histórias, uma melhor do que a outra. Aliás, correr ao seu lado acaba por fazer com que o desgaste de uma ultra fique para segundo plano, já que os risos são frequentes e contínuos ao longo dos quilómetros…

Completou 100 corridas. Qual foi a sua primeira prova?
Na verdade, tenho muito mais que 160 provas. Nesta contagem das 100 provas só estou a contabilizar as maratonas e as Ultra-maratonas. As demais provas, de 10, 25, 30 kms, Meias-maratonas e corridas de Orientação, não contabilizei nesta estatística pessoal.

Mas recorda o ano da sua primeira maratona?
A minha primeira Maratona foi em 2001 e a minha primeira Ultra foi em 2004.

O que recorda?
Recordo que a minha primeira maratona foi uma prova excelente. Não tinha qualquer experiência, tinha feito apenas duas Meias-maratonas (Lamego e Viseu). Fui sozinho para a prova, em Lisboa. Não conhecia ninguém e tentei arranjar alguém, algum grupo que tivesse o meu ritmo, e foi assim que aconteceu. Segui um grupo de quatro atletas, mas, aos poucos, o grupo se desfez e fiquei somente eu e um atleta, que disse que era a sua 15.ª maratona. Ensinou-me muita coisa enquanto corríamos. Por exemplo, corrigiu a minha maneira de colocar o pé, a maneira como respirar, entre outras coisas. Mas, perto dos 38 kms, lembro-me que quebrou um pouco e começámos a fazer mais tempo por km. Eu não o iria deixar, continuei a correr ao lado dele, seria indelicado deixá-lo, uma vez que foi um bom professor de corrida em pouco tempo. Alcançados os 41 600 metros, com vista ao fundo do pórtico da meta, ele dá-me uma palmada nas costas e diz: «Vamos!». E começa a sprintar. Sim, fique admirado como é que uma pessoa em quebra tinha aquela ponta final. Bem tentei alcançá-lo, mas não consegui. No final, terminou com uma vantagem de cerca de uns 11 segundos. Abraçou-me e disse: «Bem-vindo a família dos maratonistas!». Terminámos com um tempo de 3h04.
A minha primeira Ultra-maratona foi em Ronda, nos 101 kms, em 2004. Tudo aconteceu por acaso. Quando treinava na marginal do Porto cruzava-me com um atleta, que sabia que era maratonista, já que fazia alguns treinos com ele. Era o Fernando Santos. No final dos treinos, passado uns 2 a 3 minutos, ele disse: «Tenho estado a ver os teus treinos e reparo que, no final, recuperas muito depressa, até parece que nem sentes os treinos, Davas um excelente ultra.» Lembro-me de ter perguntado o que era um ultra e ele disse que eram uma prova de 100 kms ou mais. Eu desatei a rir porque não acreditava da existência dessas provas. Foi então que ele disse: «Vou-te inscrever!». E, no Natal, recebi um postal da organização a desejar bons treinos para os 101 km de Ronda. Fiquei admirado e falei com ele, que revelou que também estava inscrito. Em maio lá fomos… Quando estava na meta a sensação era bem diferente da maratona, parecia que estávamos a enfrentar algo superior a nós, tipo partir para uma batalha. Foi incrível, lindo lindo, com muita gente. Deu-se a partida e no km 30 ou aproximadamente, alguém da organização disse que estava a fazer uma prova estupenda, que estava em sétimo a menos de 5 minutos do sexto. Até parece que as pernas ficaram com mais força e desatei a correr. Quando as coisas parecem estar a suceder bem, é sinal de que a coisa não está nada bem… E assim foi! Não reparei numa sinalização para virar à direita e continuei a descer a serra até ao vale. Foi quando percebi que, num cruzamento, não existiam indicações. Por sorte passou um jipe da organização e perguntou o que andava ali a fazer, com eu a responder que estava a fazer uma prova de 101 kms… Eles disseram que a prova ficava para o outro lado da montanha. Não acreditei, mas eles abriram um mapa e mostraram onde passava a prova e onde estávamos. Perguntaram se eu permanecia ou abandonava Ronda, respondi que continuava. «Então sobes cerca de 6 kms e viras no teu primeiro cruzamento, à esquerda. Corres mais 2 kms e viras de novo a esquerda, entrando finalmente no trajeto da prova»… Lá fui eu, toca a subir o que desci. Cheguei ao fim com cerca de 12h40, ficando no 34.º lugar, se não meengano. No total, em vez de 101 kms fiz 119. Estourado, sem forças, mas feliz por ter chegado a meta.

Quando terminou ficou com a sensação de que iria continuar a correr ou pensou: «Chega, já fiz!»?
Quando terminei a minha primeira ultra, e apesar das dores musculares e cansaço, o meu sentimento foi tão grande em termos de satisfação que reconheci que era este tipo de desporto que me caracterizava.

joaooliveira1Mas imaginava na altura que chegaria um dia as 100 provas? Tinha como meta correr essa marca?
Há cerca de um ano é que apercebi que poderia chegar as 100 provas no ano seguinte, em virtude do site «Portugueses com 50 ou mais maratonas e ultras», do qual eu faço parte. Este site é sempre atualizado no início de cada mês pelo responsável. Poderia ter chegado já em abril, mas preferi não ter provas durante o mês de março e abril, somente para treinar para a Ultra Milano-Sanremo. Assim, deste modo, veio a se concretizar na de 100 kms da Serra São Mamede – Portalegre. Foi até engraçado fazer 100 provas numa de 100 kms.

Costuma anotar as provas que realiza?
Atualizo sempre o meu curriculum de atletismo. Simplesmente para um dia recordar por onde andei em tantas aventuras.

Das 100, quais as provas que mais recorda? A prova mais dura?
A Spartathlon 246km, em Atenas, e a TransOmania 300km, em Omã. A de Spartathlon porque passei dos 101 para os 246 kms. Foi dura porque nunca tive ninguém a me ensinar a preparar este tipo de provas. O que fazer, o que levar, etc. Lembro-me quando me apresentei na organização, que perguntou quem era a minha equipa de apoio. «Não tenho equipa de apoio, estou sozinho», respondi. Eles não se riram as gargalhadas, mas olharam uns para os outros e sorriram… Mas mesmo assim cortei a linha de meta, mais partido do que inteiro, mas bastante feliz.
A de Omã foi também dura, foram 300 kms sem parar porque foi no deserto. A prova consistia em iniciar na Praia Branca e, em menos de 20 kms, já tinhas subido montanhas acima dos 1700 metros, sendo o ponto mais alto aos 64 kms. Falava-se que, em edições anteriores, quando era por etapas, os atletas cambaleavam por falta de ar… Depois dos 64 kms descemos para um nível de 300 metros de altitude. Passado as montanhas, tivemos 175 kms pela areia do deserto, com dunas superiores a sete metros. Demorámos cerca de uma hora para fazer entre cinco e seis quilómetros. E o calor que fazia? Qualquer poça de água era um oásis (risos).

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Pedro Alves

Pedro Alves

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