A falta de oxigénio na Volcano Marathon “me obrigou” a aprender a respirar

No quarto dia d´«A Semana da corrida extremamente difícil e extremamente bela», João Bandeira Santos ressalta o companheirismo entre os 19 participantes da prova, ao mesmo tempo que encontra semelhanças entre a Volcano Marathon e as maratonas de gelo da Antártida e do Polo Norte.

 

Devido a sua dificuldade, há uma relação especial entre os participantes da Volcano Marathon?
A Maratona tinha apenas 19 participantes e, nos dias de aclimatização que antecederam a corrida, criaram-se relações de amizade entre todos. Durante o dia da prova existia entre todos um espírito de ajuda, fundamental para corrermos numa zona ultra remota sem quaisquer comunicações nem populações nas proximidades. A pequena vila de San Pedro Atacama fica a cerca de 2h30 de jeep, por caminhos bastante sinuosos. Um dos participantes, aos 33 km, não estava a sentir-se bem devido a falta de oxigénio e um outro participante parou e ficou com ele até chegar alguém da organização. A primeira e segunda atletas femininas terminaram quase ao mesmo tempo depois de quilómetros a lutarem pela liderança. Quando terminaram, abraçaram-se e ambas choraram de alegria. Eu fiz os últimos quilómetros em conjunto com um participante do Brasil. Cruzámos a meta lado a lado!
Esta relação especial estende-se também a toda a organização da prova, liderada pelo Richard Donovan, que nos acompanha desde a fase de aclimatização até a festa pós-competição, que ocorreu no dia seguinte à corrida para estarmos todos “oxigenados”…

O companheirismo foi uma das notas dominantes da Volcano Marathon
O companheirismo foi uma das notas dominantes da Volcano Marathon

O que mais o marcou da corrida?
A exigência da respiração para a progressão da corrida e as paisagens absolutamente fabulosas.

Foi mais complicada do que pensava?
Eu estava bem preparado e à espera de uma prova muito difícil. E a dificuldade era mesmo muito grande. Tendo em conta as circunstâncias, senti-me bem durante a prova. A preparação física, mas também a psicológica, são muito importantes.

As semelhanças entre  a Volcano Marathon e as maratonas de gelo da Antártida e do Polo Norte

O que ainda recorda hoje?
As recordações desta Maratona são muitas e boas. A falta de oxigénio parece que “me obrigou” a aprender a respirar outra vez. As paisagens fantásticas, os vulcões (nunca tinha visto um vulcão a fumar mesmo!) e os rebanhos de lamas selvagens a cruzarem a corrida ficam para sempre nas minhas memórias, bem como o espírito de camaradagem entre todos os participantes

Momentos positivos e negativos da Volcano Marathon?
Correr com UV extremo 11+, com ar extremamente seco e a elevada altitude transformam subidas em verdadeiros muros.  Grande amplitude térmica entre a partida e a chegada. Durante a corrida levei as mãos aos olhos várias vezes para confirmar que tinha os óculos escuros, parecia que estava sem óculos, tal era a intensidade luminosa. Estas adversidades foram esmagadas por uma paisagem de sonho, mostrando uma natureza em estado puro. 

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Há algum ponto comum entre a Volcano Marathon e a Maratona do Polo Norte?
Os desafios a superar são diferentes (na Maratona de gelo da Antártida e no Polo Norte tive que superar o frio extremo;  nesta prova, no deserto do Atacama, tive que vencer a altitude e a consequente falta de oxigénio), mas há bastantes pontos comuns. Estas maratonas são testes muito duros aos nossos limites: é muito importante saber gerir o esforço, não podemos dar demais numa fase porque vamos precisar de energia mais à frente, a motivação para continuar é constantemente desafiada, mas as paisagens são magníficas, locais únicos! Em ambos as maratonas estivemos em locais onde muitas poucas pessoas estão ou estarão. Em ambos os casos, o cuidado na preparação também é fundamental.

 

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Pedro Alves

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