Ester Alves: «Só ganha no trail quem mais ama a modalidade. Quem corre só pelos pódios não tarda a “morrer”»

esterzegama

Ester Alves, da Salomon Running Suunto, teve cerca de um mês de sonho para muitos atletas, sejam profissionais ou amadores. A portuguesa esteve presente no MIUT, na Transvulcania e em Zegama. A primeira é uma das principais provas em Portugal, que ganha cada vez mais relevo em todo o Mundo; as restantes duas são das principais provas do Trail mundial, ambas realizadas em Espanha. Em cerca de 40 dias, Ester Alves retirou lições que muitos precisam de uma vida para apreenderem. E nem sempre conseguem…

 

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MIUT, Transvulcania e Zegama. Foi realmente um mês e meio de loucos? Se no primeiro contava estar na linha de meta, nos outros eventos participou de forma inesperada. Até que ponto foi complicado gerir os dois convites que recebeu na sua calendarização?
Os objetivos no início da época eram claros: Circuito Mundial, com TransgranCanaria, Lavaredo e UTMB, e MIUT, uma vez que a prova faz parte do campeonato nacional. Estas eram as provas chave de 2015, só depois o Skyrunning. É necessário referir que, em 2014, fui campeã nacional de Skyrunning, pretendia este ano crescer também nesta vertente do Trail. Esperava portanto um verão mais radical do Trail, digamos assim. Por isso, aceitei sem hesitar os convites para a Transvulcania (Skyseries) e Zegama.

O que poderia falar sobre os três eventos? Qual a recordação que guarda para si?
A MIUT é uma prova com uma exigência incrível. O desnível acontece em poucos quilómetros, as inclinações das encostas são únicas… Na verdade, sou filha adotiva da Madeira, amo a ilha e a sua exigência. O MIUT foi a concretização de muito trabalho e teimosia. O meu objetivo era alcançar 18h00, nem mais um minuto. Lutei muito contra mim própria durante toda a prova. No entanto, em 115 kms, há centenas de variantes e todas elas juntas fizeram com que ultrapassasse o objetivo em 48 minutos… Mas chegar foi fabuloso, de lágrimas nos olhos devido a duas quedas que tive na prova.
Já a Transvulcania é mágica. Por ser pouco técnica e com bons prémios, chama milhares de atletas. A única exigência da prova é o calor. A minha preocupação foi por isso correr rápido, entre às 6h00 e às 11h00 da manhã. O objetivo era entrar na descida final no pico do calor. Certamente que é para regressar.
Zegama é uma prova pura de Skyrunning: trilho técnico, muito desnível e arestas de topo de montanha, com a agravante da lama típica do País Basco. Quem não gostar de chuva, lama e técnica, é melhor nem sonhar com Zegama.

E quais as principais dificuldades de cada prova?
No MIUT, o desnível, as subidas em força devido à inclinação das encostas, a quilometragem e a humidade. O ambiente húmido da ilha desidrata-nos com uma maior facilidade.
Na Transvulcania, o calor extremo para maio, a pedra e a areia vulcânica, a velocidade. A prova é muito veloz, não há lugar para paragens.
Em Zegama… Fico ainda sem palavras… Os atletas partem como se fossem uma corrida de 10 kms. Imensa velocidade nas subidas, a lama que nos inunda a alma e dificulta as descidas, o frio no topo da montanha e a humidade.

Quais os momentos cruciais que destacaria em cada uma?
No MIUT guardarei para sempre o momento em que, a 5 kms do final, tenho uma queda violenta com os joelhos no chão. O amigo que vinha ao meu lado não dramatizou e obrigou-me a continuar, mesmo sem saber se eu podia correr. Foi um momento cheio de intensidade.
Na Transvulcania gravo em especial o momento junto ao ponto mais alto da prova, Roque de los muchachos, em que vi um helicóptero a socorrer atletas desidratados, mas também outros a descerem o monte a caminhar em tom de desistência, mas a darem-me ânimo para eu completar a prova.
Em Zegama “gravei” o início da prova: os atletas a darem as mãos enquanto ouviam a música típica basca… Todos sabiam que iam partir para a “guerra”, mas todos se abraçavam e desejavam a “Magia” para a prova.

A Transvulcania e Zegama são duas das principais provas do Trail mundial. Um dia sonhou disputar essas provas?
Para ser sincera, não pensava competir tão cedo nos dois locais. Agora sei que hei-de voltar com mais experiência e fazer melhor.

A mística que envolve as duas provas é justificada?
Sem dúvida, principalmete Zegama. O espírito de união é fabuloso. Aliás, acredito que o espírito competitivo desaparece um pouco para dar lugar à festa.

E quais os elementos que formam precisamente essa mística? O que diferencia as duas provas, do seu ponto de vista?
A personalidade das provas, os atletas que fazem parte do pelotão, o sentido de união de todos. Aprendi imenso só este mês… E a maior lição que tiro é que só ganha no trail quem mais ama a modalidade. Quem corre só pelos pódios não tarda a “morrer”.

Venceu o MIUT, foi sétima na Transvulcania e 30.ª em Zegama. Contente com os resultados?
Satisfeita porque o objetivo traçado em Janeiro foi conseguido, o triunfo no MIUT. Depois, tive o bónus de participar em duas enormes provas… Conheci dois mundos incríveis aos quais quero voltar mais forte.

Estas provas foram as ideais para a preparação do Mundial? O que podemos esperar de si em França?
Estas provas foram boas para a preparação geral como atleta. Ao longo da vida aprendi que não nos devemos focar num ponto, devemos procurar a superação em todos os momentos, a cada instante. Espero estar bem para Annency e representar Portugal da melhor forma.

Como foi representar Portugal em Zegama?
Este ano inscrevi-me na Federação de Campismo e Montanhismo e a verdade é que foi uma enorme honra representar a entidade e, consequentemente, o meu país. Espero apenas continuar o meu trabalho e retribuir todo o esforço que a federação tem feito por nós, atletas. Obrigada à entidade, em particular ao João Paulo Queirós.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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