Ester Alves e a Everest Trail Race: «Foi a prova em que me senti mais fora do meu meio»

Ester Alves confessa que sofreu, e muito, na Everest Trail Run, admitindo inclusive que mesmo a recuperação entre as seis etapas eram «duríssimas», «longe das ideais». No entanto, a portuguesa, não esquece ainda hoje as montanhas do Himalaia.

 

Correu este ano no deserto, agora correu em altitudes enormes. Como analisa as duas provas? Se, para o ano, fosse obrigada a escolher entre a Marathon des Sables ou a Everest Trail Race, qual escolheria?
O deserto do Saara envolve etapas iguais todos os dias… O deserto pode ser encantador, mas prefiro a montanha no seu estado puro.

Por último, o que poderia falar do Everest Trail Run?
A prova em si é composta por 6 etapas, o que, a somar ao dia de chegada e o de partida, completa 8 dias. Mas a logística de deslocação para Katmandu, de lá para as montanhas, e depois o regresso, implica um total de 12 dias. As condições de terreno foram “piorando” à medida da passagem das etapas. A prova começou por caminhos muito difíceis, mas semelhantes aos que se podem encontrar nas mais difíceis provas europeias. No entanto, evoluiu rapidamente para subidas e descidas que apenas se conseguem no país onde se encontram as maiores montanhas do mundo.

 

A alegria de Ester Alves após terminar mais uma etapa do Everest Trail Race
A alegria de Ester Alves após terminar mais uma etapa do Everest Trail Race

 

E são trilhos muito complicados de ultrapassar?
Há muita pedra, incontáveis degraus de todas as formas, lama, alguma neve e inclusive gelo, na 2ª etapa (as datas da prova são cuidadosamente escolhidas para que lá estejamos na época dita seca. Se assim não fosse estaríamos perante uma prova de escalada e não de trail). Muito curioso foi atravessar (não percorrer), por diversas vezes e nas duas primeiras etapas, uma estrada que tentam construir há anos com o objetivo de ligar as zonas baixas às montanhas. Todavia, os esforços de construção são destruídos todos os anos pelas monções! Impressionante também foram as primeiras vezes que vimos montanhas como o Evereste, Lhotse ou AmaDablam, colossos do nosso globo terrestre, normalmente acessíveis apenas por fotos ou imagens televisivas. De repente, elas estavam ali, quase alcançáveis…

A dificuldade da recuperação de Ester Alves na Everest Trail Run

Portanto, um desafio realmente marcante para os corredores?
É principalmente um desafio ao corpo e à mente. Foi a prova em que me senti mais fora do meu meio. A altitude (quase sempre entre os 3000 e mais de 4000 metros), as subidas invulgares, as descidas como nunca experimentei em nenhuma prova, a necessidade constante de contornar adversidades, como os trilhos ou os agressivos Yaks, que impunham respeito no trilho (tive inclusive de “enfrentar” alguns de frente, mesmo sem espaço para passar). Existia depois a necessidade de recuperar, de dia para dia, após etapas duríssimas. Aliás, as condições de recuperação estão longe das ideais, muito pela falta de tempo, pelo frio e as condições de descanso no acampamento. Dormir foi simplesmente um desafio pela forma como o nosso metabolismo era afetado pela altitude. Descansar com o coração a lutar com a falta de oxigénio derivada da altitude é um desafio. As condições não eram más, pois a organização é das melhores que já conheci, mas foram simplesmente duras! Foi uma amálgama de dificuldades e novidades.

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Pedro Alves

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