Como treinar a privação do sono para uma prova de 100 milhas

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Para correr as suas primeiras 100 milhas, é fundamental treinar a privação de sono. Hélder Lemos, no segundo dia d´«A Semana “A Minha Primeira Vez”», revela como fez, mas também deixa alguns conselhos fundamentais para aqueles que, um dia, sonham concluir uma prova com mais de 160 km e desníveis positivos de mais de 11 mil metros.

 

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Em concreto, como foram os seus treinos de privação de sono?
Apenas fiz um único treino de privação de sono antes da prova, dado que o mesmo requer algum tempo de recuperação. Mas foi o suficiente para alcançar o objetivo.
O treino consistia em passar duas noites sem dormir, sendo a segunda noite em esforço, a treinar em serra. Ou seja, procurei simular o mais que provável o que iria acontecer na prova. O intuito era aprender a forma como o corpo, e principalmente a mente, iria reagir (alucinações, etc.).
É importante que o treino não seja feito sozinho, pelos perigos que podem representar para a nossa integridade física. O meu amigo e treinador João Mota acompanhou-me durante a noite toda no treino, ele e o grupo de atletas que orienta, o Trail Running & Endurance – Coaching. Alguns acompanharam a noite toda, outros uma pequena parte. Foram fundamentais para o sucesso da preparação e por isso só tenho de agradecer a todos.
O treino começou numa quinta-feira. Fiz o meu dia-a-dia normal: trabalho, treino, tarefas de casa, etc. Depois tinha de passar a noite em claro, sem dormir. Poderia arranjar qualquer coisa para passar o tempo, mas não podia dormir.
Na sexta-feira, fiz novamente o meu dia-a-dia e, à noite, um treino longo. O treino decorreu na Serra da Arrábida, começou pelas 23h00 e terminou de manhã cedo. O importante era perceber como estava a reagir ao cansaço mental.
O treino foi difícil, mas correu bem. Não vi os meus colegas transformarem-se em javalis…

Da informação que recolheu, a Ehunmilak Ultra Trail foi mais complicada do que imaginava?
Estudei a altimetria do percurso e procurei mais informações sobre o percurso e terreno, junto de quem já tinha realizado a prova.
Foi o que estava à espera, mas, no decorrer da prova, deparei-me com algumas dificuldades. Felizmente possuí a destreza de tomar as decisões certas no decorrer da prova, ultrapassando as mesmas nos momentos certos.

 

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Quais os momentos curiosos que viveu? E os mais “traumáticos”?
Coloquei uma manta por cima enquanto dormia na segunda base de vida. De vez em quando sentia alguém a ajeitar a mesma e a cobrir-me os pés. É incrível como aquele povo é atencioso.
O momento mais “traumático” foi quando parti um bastão. Fez-me pensar que uma distração, um erro pode levar-nos a vida. Não podemos facilitar!

Como foi o convívio com os outros competidores?
O ambiente antes da partida foi ótimo. Fiz a viagem e dividi alojamento com o Daniel Dias, do Minha Aventura, que já conhecia e tive oportunidade de conhecer melhor. Também tive o prazer de conhecer o José Manuel Mota, que nos contou algumas das suas aventuras, e outros portugueses na prova.

Antes da corrida, o que mais temia na linha de partida?
Acho que todos temos receio de não conseguir acabar uma prova deste tipo. Foram muitas horas de preparação… São 100 milhas e tudo pode acontecer, podemos ser forçados a desistir por 1001 motivos.
No início temia que uma pequena lesão que tinha contraído no início da semana da prova colocasse em causa a sua conclusão Sentia-a, mas felizmente não me limitou em nada.

E o que encontrou que não estava mesmo à espera?
O povo basco, com um apoio absolutamente brutal. Aparecem em qualquer sítio e tratam-nos como se fossemos heróis. Mas também não esperava encontrar um terreno com lama e a humidade.

Que lição tirou da Ehunmilak Ultra Trail (ou várias…)?
Posso enumerar, por exemplo, quatro em concreto:
1) Todos os erros que cometi, acho que, de alguma forma, tirei uma lição de cada um deles; 2) Deixar sempre sapatilhas para trocar em caso de necessidade nas bases de vida;
3) Cuidado com os sacos de gelo;
4) Como se deve e não se deve usar os bastões

Que conselhos daria a um corredor que pretende correr a Ehunmilak Ultra Trail?
Preparem-se bem para o desafio, fisicamente e mentalmente, mas tenham em mente que a forma como lidam com os imprevistos durante a prova vai ser determinante. Também destacaria os bastões, que são importantes. É positivo aprender a agradecer em língua basca. Por último, quado uma criança esticar a mão para um Hi5, não deixem de esticar também a vossa.

Futuras provas de 100 milhas são para repetir?
Sim, mas nunca mais do que uma por ano.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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