Carlos Sá: «Seria ingénuo se afirmasse que a morte não me assusta»

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Morte! A morte não é indiferente para Carlos Sá, que, na terceira parte da entrevista aos CORREDORES ANÓNIMOS, confessa que já passou por alguns sustos. O ultramaratonista fala ainda de como procura enganar a mente nos momentos mais complicados da prova. Estamos na «Semana Carlos Sá»…

 

Há algum truque para ultrapassar o desejo de parar? Como enganar a mente?
Tenho alguns truques que coloco em prática. Dois exemplos: penso em situações de sacrifício pessoal pelas quais passei no passado e foco-me nas inúmeras mensagens de apoio de centenas de familiares, amigos e desconhecidos, que fazem-me acreditar que estou no trilho certo, que, quando corro, não estou sozinho.
Mas confesso que a vontade de ir cada vez mais longe supera claramente muitas adversidades.
Mas tem consciência de que o seu limite pode determinar um dia a sua própria morte?
Temos a noção de que o risco está muito presente na nossa atividade. No entanto, quando atingimos uma situação de limite que nos pode causar danos graves, devemos ter o discernimento e lucidez de que os mesmos não valem a pena. Foi o que aconteceu no Aconcágua, em 2013, na minha primeira tentativa de superar o recorde de ascensão à montanha mais alta do continente americano (6962 metros). Fui apanhado por uma tempestade que não estava prevista. Regressei quando cheguei ao limite do razoável, a apenas 500 metros do cume, do objetivo. Apenas 500 metros… Continuar poderia custar-me os dedos dos pés ou mesmo outras situações incalculáveis. Habitualmente, numa situação de stress, tenho muita calma e penso muito nos meus dois filhos. Raramente desisto, mas, para atingirmos a nossa superação, é preciso muitas vezes dar meia volta para depois voltarmos mais fortes e com mais conhecimento e confiança.
Assim aconteceu no Aconcágua. Três dias depois estava no cume, com o objetivo concluído com sucesso e com um recorde na bagagem.

Mas a morte o assusta? Já a “viu” de perto?
Tenho uma vida muito intensa e sou de tal forma feliz que seria ingénuo se afirmasse que a morte não me assusta. Quero continuar a superar-me, mesmo que para tal tenha que correr alguns riscos. Espero ter sempre muita sorte, mas principalmente o mesmo discernimento nas situações de grande stress.
Nunca vi a morte por perto, mas, por exemplo, a atividade que antes fazia profissionalmente, os denominados trabalhos verticais, e o alpinismo não permitem falhas. Concentração e conhecimento são as palavras-chave.

Ou seja, a palavra desistir não está no seu dicionário?
Outra frase que costumo referir…: “Desistir é a última das opções”. Já acabei provas em muito mau estado, mas foi nessas provas que consegui aprender e evoluir mais. É um sentimento muito difícil de se explicar, só quem passa por isto consegue compreender bem a palavra superação.

A perseverança no desporto é levada para a vida quotidiana e profissional?
Sem dúvida. Há muitas adversidades que ultrapassamos que se podem comparar à vida pessoal ou profissional. A superação no desporto torna-nos mais fortes, mais confiantes e com mais capacidade de concentração.

Mas o desporto aumentou a sua auto-confiança no dia-a-dia?
Costumo dizer que, se consigo ultrapassar montanhas, nenhum problema é demasiado grande na minha vida para que seja uma grande preocupação. Tudo tem solução!

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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