Carlos Sá: «Quem não tiver capacidade mental para controlar o sofrimento nunca terá sucesso»

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Na “Semana Carlos Sá”, publicamos esta terça-feira a segunda parte da entrevista com o ultramaratonista português, que recorda o seu tempo de sedentarismo, quando fumava dois maços de cigarros por dia, quando pesava mais de 90 kg, quando trabalhava contrariado com a vida,… O trail acabou por mudar tudo, mas sempre sustentado pela sua invejável força mental.

 

Acredita que encontrou a liberdade que todos procuram através do desporto, o mesmo desporto que pode ser um foco de independência das nossas vidas?
Fazer o que gostamos é o melhor sentido de liberdade que podemos ter, mas estar a um nível de alta competição obriga a demasiada abnegação. Ou seja, por vezes não temos a liberdade que o desporto pode proporcionar. Mas sou feliz com a vida que tenho hoje, ao contrário do que acontecia há três anos, quando sentia-me um prisioneiro pendurado por uma corda a trabalhar nos prédios, por exemplo. Fazia-o por pura necessidade.

O que aprendeu com o desporto? O que descobriu de si devido as corridas?
Estive praticamente sempre ligado ao desporto, que dá-nos disciplina, saúde, alegria, prazer, etc. O trail, modalidade ligada a Natureza, é uma autêntica filosofia de vida. Não estamos cá por dinheiro, para aumentar o nosso ego, para derrotar um ou outro rival, mas para descobrir locais deslumbrantes e superar-nos a nós próprios.

Mas até que ponto o desporto relativiza a nossa vida diária?
Ninguém melhor do que eu e outras pessoas que passaram pelo mesmo sentem a importância do desporto nas nossas vidas. Depois de uma vida ligada ao atletismo até aos vinte anos, transformei-me numa pessoa sedentária, com mais de 90 kg. Fumava dois maços de tabaco por dia… Os benefícios que o trail trouxe são de tal forma impressionantes que acabamos por dar uma importância significativa ao desporto.

Como ter motivação para o treino quando o mesmo não deixa de ser algo doloroso, uma dor que está muito acima do limite humano médio?
Um colega ultramaratonista norte-americano, Dean Karnazes, tem uma frase que resume bem esta pregunta: “Se não sairmos da nossa zona de conforto, tornamo-nos pessoas apáticas.” Isto aplica-se a todas as atividades profissionais. O homem começou a construir uma ideia de que tudo pode ser alcançado sem esforço e sem sofrimento. Obviamente que esta ideia errada. Nós, portugueses, somos tão bons ou melhores do que os outros. Temos é que trabalhar com determinação e objetivos bem claros.

A dor é algo trivial na sua vida?
É algo que consigo controlar, mas é bastante dura e deixa sempre marcas. Também aqui gosto de uma frase: “A dor é passageira e a glória é eterna.”
Quem não tiver capacidade mental para controlar o sofrimento nunca terá sucesso.

Até que ponto o lado psicológico é o mais importante para um corredor, tanto nos treinos como nas provas?
Se dividisse o sucesso e a importância do mesmo em percentagem, elas não andariam longe disto: 60% é capacidade mental e espírito de sacrifício, 30% de treino e 10% de inteligência.
Nas provas de extrema dureza ser resiliente é condição fundamental para o nosso sucesso, só assim atingiremos os nossos objetivos.

Mas nas situações extremas o que o faz continuar?
Temos que estar muito determinados e gostar muito do que fazemos para ultrapassar todas as dificuldades, correr riscos de uma forma controlada. Isso é difícil, mas, com treino, trabalho e inteligência, conseguimos minimizar os mesmos.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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