Carlos Sá: «Não é difícil fazer as provas, mas treinar para elas»

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Penúltimo dia da denominada «Semana Carlos Sá», uma semana onde o melhor ultramaratonista nacional e um dos principais nomes do Mundo da modalidade revela alguns dos seus segredos e mostra um atleta e um homem desconhecido para muitos. Hoje, descubra as provas que mais marcaram o português por causa das dificuldades que viveu. Oportunidade também para falar da Maratona das Areias, que Carlos Sá vai participar pela quinta vez consecutiva, entre os dias 3 e 13 de abril, ou seja, ao virar da esquina…

 

Ao treinar horas e horas ao ar livre, o relacionamento com a natureza acaba por ser diferente?
O relacionamento com a Natureza é precisamente a diferença. Por isso o Trail é um desporto sem paralelo. Não me vejo a treinar várias horas no ginásio ou na piscina. O sentimento de liberdade e descoberta de novos locais é deslumbrante e gratificante.

O que sente quando termina uma prova? Terminar uma prova significa que qualquer desafio na vida é ultrapassável?
Quando terminamos uma prova sentimos alegria, é o culminar de muitas horas de treino, sacrifícios pessoais e não só. Digo que não é difícil fazer provas, mas treinar para elas.
A determinação despendida no desporto ajuda nos desafios da nossa vida, aprendemos a ser mais humildes e resilientes.

Quais foram os piores momentos da sua carreira, os mais duros?
Aquando da minha primeira prova de 160 km. Fiz mais de 90 km com a planta dos pés em carne viva. A parte frontal era uma bolha só. Se não fosse a vontade de vencer, não teria aguentado todo o sofrimento. Ganhar na estreia foi realmente brutal.
Mas também no Aconcágua… O “mal de altitude” condicionou-me de tal forma que vivi uma experiência a rasar o limite do aceitável.
Mas há mais: a Maratona da Areia, em pleno deserto do Sahara, com 250 km em auto-suficiência, deixa evidentemente marcas dia após dia, principalmente por corrermos em condições extremas.
A recente Arrowhead 135, em fevereiro último, nos Estados Unidos, uma corrida de 217 km no Minnesotta, com temperaturas médias de 25 graus negativos, a Ultra-maratona mais fria do Mundo. Tive vários problemas com a preparação e as condições encontradas, foi das provas que mais sofri, acabei por desistir a 35 km da meta. Estava exausto… Recordo que arrastei-me para alcançar o posto de controlo, para depois abandonar a prova.
Já são muitos momentos duros…

Momentos duros que não o impedem de regressar a Maratona das Areias, a Marathon des Sables…
A Maratona das Areias é das provas mais caras que temos na Ultra-maratona. Apresenta uma logística impressionante, é uma experiência de vida sempre diferente, mesmo para quem a vai correr pela quinta vez consecutiva, como será o meu caso, entre 3 e 13 de abril. Enquanto tiver condições para estar presente, pretendo sempre participar porque adoro este tipo de desafio, além de ser um dos que mais retorno mediático internacional oferece.

Como se sente sendo um dos favoritos para o triunfo final?
A cada ano a Maratona das Areias está mais competitiva e, a este nível, nunca se pode fazer previsões. Como sempre acontece, procurarei dar o meu máximo. O resultado que obtiver será sempre bom, seja ele qual for. Neste tipo de desafios o mais importante é partir.
Em quatro anos fui duas vezes o melhor atleta não-africano, as duas vezes com um quarto lugar da geral, além de um sétimo e um oitavo lugar nas outras duas participações. Depois dos africanos, devo ser dos atletas mais regulares. Mas não podemos esquecer que eles treinam especificamente para esta prova e têm qualidades únicas.

O que poderia falar sobre a prova?
É uma corrida com 250 km feitos em seis etapas, compreendidas entre os 35 km e os 80km. Temos de correr a prova em autonomia total. A organização fornece apenas 12 litros por dia. A alimentação para todas as etapas tem de ir dentro da mochila, do início ao fim, assim como kit de primeiros socorros, saco-cama, very light, road book, entre outro material de sobrevivência obrigatório.
A constante oscilação de temperaturas e ter de correr a grande velocidade com oito quilos às costas são a principal dificuldade, mas também ter de comer barras, frutos secos e massa leofilisada em todas as refeições, durante sete longos dias…

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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