Carlos Sá: «Não devemos cair no erro da obsessão dos resultados»

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Termina esta sexta-feira a «Semana Carlos Sá». No último dia desta extensa entrevista, dividida em cinco partes, o ultra-maratonista aborda a sua empresa, a Carlos Sá Nature Events, assim como as provas que organiza. O português dá ainda conselhos para quem quer começar, além de dizer os motivos pelos quais corre. E não, não é pelos resultados nem pelos recordes…

 

Poderia falar um pouco sobre a Carlos Sá Nature Events
O Grande Trail Serra d’Arga foi o mote da criação da Carlos Sá Nature Events. Já organizava a prova com o meu clube, a Desnível Positivo, que continua a colaborar no evento. A cada edição temos procurado melhorar a qualidade do mesmo, fato que se tem traduzido num crescente aumento de participantes. No ano passado tivemos mais de 2000 inscritos, este ano esperamos mais de 3000 atletas.
O evento terá lugar nos dias 26 e 27 de Setembro e contará com duas provas competitivas a realizar no primeiro dia: o GTSA vertical e, no final do dia, o GTSA Sunset (com cerca de 17 kms), além de uma caminhada. No segundo dia estão agendados quatro provas competitivas, com várias distâncias: 13, 23, 33 e 53 kms. Teremos também a IV edição do Trail Jovem (a realizar no dia 26), que, a avaliar pela tendência crescente observada, poderá contar com mais de 200 entusiastas participantes, dos 4 aos 18 anos!

Há ainda o Peneda-Gerês Trail Adventure. Como surgiu a ideia desta prova?
Tendo sempre procurado os melhores trilhos para treinar, frequentemente me embrenhava pelos trilhos do único Parque Nacional de Portugal, o Parque Nacional Peneda-Gerês. Surgiu entretanto a ideia de criarmos um evento que marcasse pela diferença, um evento que pudesse cativar atletas, não só nacionais, mas também estrangeiros, mostrando-lhes dessa forma o que de melhor tem o nosso país. O nosso objetivo é que todos confraternizem, não só entre si, mas também com as suas próprias famílias, tantas vezes privadas da sua companhia, nos períodos de treino e provas. Surgiu assim o Peneda-Gerês Trail Adventure, uma prova a realizar em equipa, por etapas, profundamente marcada pelo que de melhor tem esta modalidade: o espírito de camaradagem e o convívio.
Em 2015 a prova evoluiu, tendo uma distância mais longa, de 280 kms, a percorrer em oito etapas, por trilhos verdadeiramente únicos!
Mas já no dia 26 de Abril teremos o Trail Solidário do Vez, em Arcos de Valdevez, uma grande festa solidária, uma vez que, para além de termos a correr os atletas que estarão a participar no evento de oito dias, bem como alguns atletas inscritos nas provas que decorrerão nos quatro últimos dias do evento (estes a fazer uma distância de cerca de 43 kms), também teremos atletas a participar numa das provas – o Trail Solidário do Vez, 16 ou 28 kms – ou na caminhada solidária do Vez, de 8 kms. O valor da inscrição destes eventos solidários reverterá na totalidade para a Cáritas Diocesana de Viana do Castelo.
carlosgeresA prova de 8 dias poderá ser realizada também numa versão mais curta – de 130 Kms, perfazendo uma média de 15 kms por dia, iniciando em Arcos de Valdevez, percorrendo também os municípios de Ponte da Barca, Melgaço e Montalegre, terminando no Município de Terras de Bouro. As versões “mais curtas”, a realizar durante os últimos quatro dias do evento, compreendem as distâncias de 130 kms e 70 kms (esta última versão é realizada a solo pelos participantes).
Este evento conseguiu atrair um lote impressionante de atletas de referência na modalidade a nível mundial, nesta edição de 2015, e a procura para a participação na edição de 2016 tem sido enorme! Para já, contaremos com atletas de Singapura, Brasil, EUA e Canadá, a juntar a um leque de países europeus considerável.
Em 2016, o Peneda-Gerês Trail Adventure terá novas versões, de forma a permitir que ninguém fique de fora desta festa! Em resumo, teremos 8 dias / 8 etapas, com 280 kms; 5 dias / 5 etapas, com 160 kms; 3 dias / 3 etapas, com 120 kms. Todas com versões mais curtas.

Outra prova de sucesso parece ser a Gerês Marathon, agendada este ano para o dia 29 de Novembro… 
A beleza do Parque Nacional inspirou-nos a proporcionar uma experiência única também àqueles que não praticam trail, mas que gostam de desfrutar da natureza. Porque não realizar uma maratona em pleno Parque Nacional Peneda-Gerês, mas, desta feita, pela estrada? “O Homem sonhou e a obra nasceu…”
A escolha da data prendeu-se com a paleta de cores outonais que o parque nos oferece em novembro. Os vários tons de castanho deram o mote à “maratona mais dura do mundo”, com um desnível acumulado “quase” impensável e nada usual para uma maratona de estrada, em que as marcas de tempo de realização de prova habitualmente alienam os participantes da paisagem que os rodeia.
Foram muitos os atletas que aceitaram o desafio no ano passado, tendo esgotado o limite por nós imposto à partida, de 1000 participantes. Foram muitos os que chegaram de sorriso rasgado à meta perguntando pela data da próxima edição… E nós não queremos defraudar as expectativas de ninguém. Este ano esperamos cerca de 2000 participantes.

Decididamente, o seu futuro deverá passar pela organização destas provas. Mas até quando espera levar o nome de Portugal ao mundo?
Enquanto encontrar motivação ou disponibilidade física para superar estes grandes desafios, como a Maratona das Areias, não vou parar.
Comecei a correr com objetivos claros quando, em 2006, vi um senhor italiano de 58 anos a vencer a mais importante Ultra-maratona do Mundo. Marco Olmo mostrou ao mundo que não há limites para sonhar. Trabalhou uma vida numa pedreira onde diz que se sentiu prisioneiro e encontrou a sua alegria de viver na corrida, mesmo começando depois dos 40 anos. Tenho orgulho de ser seu amigo e mais orgulho em o ouvir, a dizer a muitos que eu sou o seu melhor discípulo.

carlosgeres2Um conselho a todos os praticantes da modalidade, que têm você como exemplo?
Que corram como eu, pelo simples prazer de conhecer novos locais, novas histórias de vida, novas experiências… Com a massificação do trail vejo muita gente onde o aspeto competitivo parece ser a razão pela qual correm. Saem frustrados quando as expectativas e os resultados não são alcançados, mesmo correndo em sítios deslumbrantes.
Devemos ter objetivos claros para nos motivar a treinar e sofremos menos no cumprimento desses objetivos, mas não devemos cair no erro da obsessão dos resultados e nem na pressa da obtenção dos mesmos.

Como se define?
Uma pessoa muito calma, simples, humilde, trabalhadora, determinada e persistente.

Por último, porque corre?
Prazer, vontade de fazer mais e melhor, superação pessoal e estilo de vida.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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