Carlos Sá: «Ando em busca dos meus limites mas felizmente ainda não os encontrei»

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Carlos Sá participou nos 44 km da Trans GranCanaria 2015 no último fim-de-semana como uma mera preparação para a sua participação na Marathon de Sables, entre 3 e 13 de abril, considerada uma das provas mais duras do mundo. Regressou de Espanha com a medalha do segundo lugar… Um dos atletas de exceção do nosso país de todos os tempos, o nome do português é respeitado por todos, sendo um exemplo para milhões de corredores, amadores ou profissionais, nacionais ou internacionais. Ao longo da semana, todos os dias, iremos publicar uma parte de uma longa entrevista que fizemos com Carlos Sá, uma entrevista que aborda vários assuntos, como os seus limites, o medo, a importância de conhecer os sinais dados pelo corpo, a liberdade proveniente do desporto… Entramos naquela que denominamos «A SEMANA CARLOS SÁ»!

 

Acredita que o homem tem um limite ou a progressão é infinita?
Sim, acredito que cada um tem o seu próprio limite. Costumo dizer que ando em busca dos meus limites, mas felizmente ainda não os encontrei. Proponho-me a desafios tremendos, mas tenho a consciência de que os posso realizar. Como treino de uma forma sistemática, o corpo acaba por se adaptar, o corpo é muito inteligente.
O limite pode estar na ousadia de nos propormos a objetivos praticamente impossíveis de alcançar ou quando descuidamos os nossos objetivos e não trabalhamos o suficiente para o ultrapassar.

Mas até que ponto é importante conhecermos o nosso corpo para alcançarmos os objetivos que propomos a nós próprios?
É essencial conhecer o nosso corpo quando, por exemplo, corremos mais de 20h00, é um aspeto fundamental. Temos de estar concentrados, a ouvir e a ler todos os sinais que o corpo dá. Uma má estratégia numa prova é descurar alguns sintomas que o corpo deixa ao longo da corrida, sintomas que, mais tarde, certamente irão levar à fadiga ou até a situações mais graves.

Onde acredita estar o seu limite?
Com mais ou menos apoios, e quando falo de apoios não é só o financeiro, tenho ido mais longe, mais rápido e mais alto. Quero continuar a conquistar-me a mim próprio e a superar os meus limites. Tenho a noção de que tenho ainda muito por evoluir. Mas, para tal, é preciso manter-me focado em objetivos muito claros.

O desporto gere a sua vida profissional, pessoal e emocional? O desporto acaba por ser o epicentro da sua vida?
Com a crise no sector têxtil e imobiliário fiquei sem trabalho, como aconteceu com muitos portugueses. Fiquei praticamente sem alternativas profissionais porque durante toda a minha vida trabalhei na indústria têxtil, além de uma experiência nos “trabalhos verticais”.
Foi nessa altura que decidi dedicar-me a 200% ao que realmente gostava de fazer, correr. No entanto, tinha a consciência de que teria de ter resultados imediatos para conseguir algum apoio financeiro, uma vez que as contas domésticas de uma família com dois filhos são elevadas e eu estava sem qualquer rendimento, com a minha esposa a receber o ordenado mínimo.
Os resultados surgiram, assim como o apoio da Berg. Jamais esquecerei esse apoio e ficarei eternamente grato a esta marca portuguesa por ter acreditado nas minhas capacidades. Caso isso não acontecesse, seria obrigado a desistir das corridas.
Hoje procuro organizar a minha vida profissional à volta do desporto e pretendo fazê-lo durante muitos anos.

Como consegue conciliar a sua vida desportista com a familiar? Qual a importância de receber o apoio da família?
Se este projeto não fosse familiar nunca teria chegado onde cheguei. Tenho de fazer muitos sacrifícios, mas a família apoia-me com muito entusiasmo. Também eles sofrem bastante com as minhas ausências, que provocarem ainda uma grande angústia. Não podemos esquecer que algumas provas envolvem uma componente de risco muito alta.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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