Carla André: «O facto de sermos amadores não nos deve impedir de atingir os nossos grandes sonhos»

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«A SEMANA DA MULHER» tem o seu segundo dia com a segunda parte da entrevista com a ultramaratonista Carla André, que participou recentemente na Marathon des Sables e já está inscrita na 24h do Luxemburgo…

 

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Qual foi o seu momento mais gratificante na Marathon des Sables?
Foi finalizar a Maratona das Areias, na etapa Charity, junto com o Carlos Sá. Apesar de não ser competitiva, deixou-me muito feliz ser a primeira mulher a terminar a última etapa.

Em algum momento pensou em desistir?
Em nenhum momento pensei em desistir. A dimensão do sonho é tão grande que a aceitação do sofrimento é enorme. Tudo aquilo que viesse e que tivesse de suportar eu aceitaria. Tive a sensação que apenas desistiria caso algo grave acontecesse. Mas os imprevistos surgem e estava preparada caso acontecesse e tivesse de abandonar a prova.

Qual foi a sua estratégia durante a prova?
A minha estratégia passou por correr sempre em ritmo confortável face à minha incerteza de como iria reagir o meu corpo ao volume seguido de quilómetros.

E como foi a relação com os outros portugueses?
A possível, já que eu e o Carlos Sá éramos os únicos residentes em Portugal. Conseguimos conhecer e criar relação com alguns dos outros, embora eles partilhassem a tenda com a nacionalidade da sua residência.

Considera que foi uma das surpresas da prova, já que é uma atleta amadora?
O facto de sermos amadores não nos deve impedir de atingir estes grandes sonhos, embora deva haver um grande compromisso com o projeto. Quando o dia-a-dia é dedicado ao trabalho, só com enorme compromisso se consegue seguir um plano de treinos. Tem de haver muita dedicação e fazer muitas opções. A mente é o nosso músculo mais forte porque é a que vai levar o querer ao fazer. Os meus treinos acabavam muitas vezes depois da meia-noite.

Sugeria a prova a um amigo ou a um inimigo?
Recomendo vivamente a quem tenha este sonho que procure o concretizar. Mas deve haver dois “ingredientes” em mente: o desejo de querer muito e a focalização no treino específico para a prova. A Marathon des Sables não é “apenas” os 250 km a correr. Além disso há que carregar uma mochila com um peso que poderá atingir os 10 kg, há o calor, corremos na areia… Todas estas variáveis têm de ser treinadas. A prova requer uma enorme organização na gestão da logística.

carlaandre1O que retira desta sua experiência na Maratona das Areias?
A minha maior lição é que, numa envolvente tão grande de provas, numa era em que a corrida está na “moda” e que há por isso uma enormidade de desafios que nos rodeiam, quando queremos realizar um grande sonho há que focalizar, há que abdicar de outras provas e centrar no que queremos realmente fazer. O ter terminado a minha prova, absolutamente recuperada e pronta para enfrentar outro desafio, deve-se essencialmente à preparação que fiz. Em 2014 realizei 22 ultramaratonas, sendo que também cumpri o sonho das 100 milhas. No entanto, terminava as provas mais desgastada e com menos prazer do que estava a fazer. No início do ano resolvi alterar os meus objetivos e focalizar as minhas corridas, tendo apenas realizado as três primeiras provas do circuito Território Centro da Horizontes, que fizeram parte do meu treino. Senti assim uma melhor preparação e um melhor resultado.

Próximos desafios?
Ainda estão a ser estudados, mas sei que, brevemente, surgirá algo que irá fazer brilhar os meus olhos mais uma vez. Para já gostaria de terminar os escritos que fiz de toda a preparação para esta prova em específico, desde Novembro. Quem sabe publicar um livro para poder fazer crer a todos que, quando temos um sonho e lutamos, é possível que o consigamos alcançar e partilhar alguns conselhos de uma atleta amadora e comum que foi buscar todas as 250 Estrelas do Deserto!

Mas já está inscrita para as 24 Horas Luxemburgo, a 12 de junho.
É verdade! Disputei no ano passado a «24h a correr em Portugal». Corri 145 km e alcancei o primeiro lugar no escalão feminino e o sexto da classificação geral. Evidentemente que a prova correu muito bem! Vou fazer agora as «24h Luxemburgo».

E qual é mais difícil? As 24h ou a Maratona das Areias?
Seguramente a Maratona das Areias, é incomparavelmente mais difícil. As provas de 24h são muito duras a nível psicológico, motivo pelo qual gosto de correr as mesmas. São provas mais psicológicas que físicas, já que corremos em percursos de dois km, repetidamente. Da minha experiência do ano passado apreendo que é mais importante termos um ritmo constante do que termos um ritmo mais elevado. O relevante é a resistência e o facto de termos um ritmo mais confortável permite-nos correr mais quilómetros. Em 2014 não parei durante as 24h, mas após os 100 km, sempre a correr, alternei entre corrida e caminhada. Mas evidentemente que, depois da Marathon des Sables, acredito estar mais preparada em termos psicológicos para uma prova de 24h.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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