Carla André: «Fomos obrigados a carregar um saco-cama, embora não fosse necessário»

carlanadré

Carla André revela na segunda parte da entrevista (leia aqui a primeira) a estratégia que utilizou para superar os 150 km da Boavista Ultramarathon, prova que acabou por ganhar. A portuguesa salienta ainda os pontos positivos e menos conseguidos da corrida, que tem, segundo a atleta, condições de fazer parte do calendário dos ultramaratonistas, principalmente devido a sua ideia central: dar à volta a ilha de Boavista, em Cabo Verde.

 

 Partilhe pelos amigos e faça um LIKE na nossa página. Obrigado! 

 

Qual a estratégia adotada na prova?
O fator mais importante numa prova de 150 km é a gestão do esforço. Não devemos partir muito rápido, nem muito lento, dado que os primeiros quilómetros são aqueles em que estamos melhor. O fator desidratação é o mais importante, dado o elevado calor, pelo que o consumo regular de sal é obrigatório. Psicologicamente parto a prova em três, pelo que, a cada parte de 50 km, estaria mais perto da próxima parte. Normalmente corro sozinha mas acabei por ter a companhia de dois italianos nos últimos quilómetros da prova, dado que os apoiei na orientação e fizeram questão de me acompanhar ate ao final. Não foi possível grande comunicação, dado que não falo italiano e eles não falavam inglês, nem muito menos português. A nível de alimentação apenas levei frutos secos, barras, géis e umas batatas fritas para variar… A prova é em autossuficiência total. Fomos obrigados a carregar um saco-cama, embora não fosse necessário.

Esperava conquistar o triunfo? Ficou surpresa com a vitória?
O meu único objetivo era acabar a prova, embora pretendesse obviamente dar o meu melhor. Em relação à vitória, não tinha qualquer ideia, até porque, embora tivesse poucas mulheres em prova, as outras atletas eram de nacionalidade italiana e já com grande experiência no trail e longas distâncias. Numa prova tão longa muito pode acontecer. Pode correr bem ou mal, tudo depende como é feita a gestão do esforço e a aceitação do sofrimento que surge.

Em relação aos participantes, o que poderia falar sobre os mesmos?
A prova estava dividida entre participantes de nacionalidade cabo-verdiana, nacionalidade italiana e uma ou outra nacionalidade diferente, como a minha. Durante a prova não interagi muito com os outros atletas devido às dificuldades de comunicação, por serem maioritariamente italianos. Após a prova convivi muito com os conterrâneos, que me acolheram de uma forma inesquecível.

Da sua experiência, três pontos positivos e três a melhorar?

Pontos positivos:
1 – A prova foi feita em autossuficiência total, à exceção da água. Os postos de abastecimento eram muito regulares, aproximadamente de 10 em 10 km, o que foi perfeito face às elevadas temperaturas da prova e aos riscos de desidratação;
2 – O percurso é maravilhoso! A ideia de correr toda a ilha na sua volta é simplesmente fabulosa;
3 – A marcação, que estava muito boa! A prova indica no seu regulamento que devemos guiar-nos por um roadbook e ter um elevado sentido de orientação. Estava preparada para uma orientação com GPS, mas, no entanto, foi muito pouco necessário, dado que a prova estava na sua maioria muito bem marcada!

Pontos a melhorar:
1 – A divulgação da prova deve ser maior. No site do Facebook apenas começam a divulgar a prova um mês antes. Deveria ser efetuada uma divulgação regular de fotos da prova no sentido de mais atletas poderem organizar a mesma com antecedência;
2 – O custo, demasiado elevado. Trata-se de uma prova que exige um custo só por si alto devido a deslocação. A inscrição ser muito cara afasta ainda mais potenciais interessados. A inscrição vai de 280 euros a 400 euros, dependendo da data de inscrição;
3 – Na sua generalidade os membros da organização deveriam ter um maior conhecimento de outras línguas que não o italiano, sendo o inglês obrigatório. Uma prova com o interesse em acolher mais nacionalidades deve ter uma maior comunicação com os atletas. Existiu alguma dificuldade de comunicação no controlo de material.

Acredita que a Boavista Ultramarathon tem condições de ser uma prova com alguma importância no calendário mundial?
Sim, sem dúvida. É uma ultramaratona com um conceito excecional, que é correr à volta de uma ilha. Deveria ser mais divulgada e com a inclusão de um programa que permitisse voo direto para a ilha. É uma experiência fabulosa que pode ser incluída num período de férias por Cabo Verde! Férias a correr!!!

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos