Carla André: «Aquilo que achei ser mais duro é hoje o que mais sinto falta: de dormir a olhar aquelas estrelas e aquela Lua»

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Carla André, de 37 anos, foi uma das surpresas da Marathon des Sables (250 km em seis dias, com uma etapa com 92,1 km), uma das provas mais emblemáticas e difíceis do Ultra Trail. A portuguesa chegou inclusive a vencer a etapa de solidariedade da prova. A gerente bancária é a primeira entrevistada da nossa denominada «A SEMANA DA MULHER» (a nossa segunda série depois de «A SEMANA CARLOS SÁ»).

 

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Qual a sua experiência no Ultra Trail?
Apesar de antes da Marathon des Sables ter efetuado uma ultramaratona (146 km – Ultramaratona Caminhos do Tejo 2013), o meu primeiro Ultra Trail foi na Serra de Arga, também em 2013, curiosamente uma prova organizada pelo Carlos Sá. Desde essa data que fiquei absolutamente apaixonada pelo trail e desde então é a minha modalidade de eleição.

Mas a Maratona das Areias foi muito mais do que imaginou?
Foi acima de tudo muito mais intensa do que imaginei. Não se trata apenas de uma prova, mas de uma experiência de vida. A mistura das várias etapas, com a partilha de tudo o resto, como a tenda e a troca de informações e convívio com outros atletas, leva a uma infinita sensação de liberdade e torna a prova muito especial.

O que pensou antes da prova e o que sabe hoje?
Aquilo que achei ser mais duro é hoje o que mais sinto falta: de dormir a olhar aquelas estrelas e aquela Lua, que parecem apenas pertencer ao deserto, mas também o nascer e por-do-sol. E toda uma paisagem que percorremos, que nos faz sentir que há algo mais do que uma paisagem árida e seca. Apaixonei-me pelo deserto! A intensidade com que se cria esta ligação com todo a envolvente da prova condiciona o resultado e um maior ou menor sofrimento que se tem. Trata-se de uma prova de extrema dureza. No entanto, se soubermos aceitar tudo aquilo que nos espera, o que levamos de lá é magia e não sofrimento e dureza. Foi o que me aconteceu.

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Carla André e Carlos Sá

Encontrou um deserto diferente do que imaginava?
Ao contrário do que pensamos, o deserto não é só areia. Tem muita areia e dunas, mas também temos o privilégio de subir uma montanha e lavar a alma com vistas maravilhosas. Há também partes mais técnicas, com rochas. Aliás, a maioria dos caminhos tem muita pedra.

Ficou surpresa com a sua classificação?
Em relação à classificação, é sempre uma incerteza. Toda a prova depende de inúmeros fatores: como reagimos diariamente aos quilómetros, a recuperação, os pés, como funciona o nosso estômago com a alimentação liofilizada, etc. Portanto, nunca conseguimos prever se uma prova de Ultra Trail correrá bem ou não. No meu caso, acho que, para além de sentir que estava preparada física e psicologicamente, tudo funcionou bem em relação às reações do corpo ao longo dos dias, por isso ter conseguido a regularidade. Consegui recuperar de um dia para o outro e não tive problemas de maior com as bolhas e com a alimentação, que são os problemas mais comuns. Foi um misto de sorte, mas também de muitos cuidados que tive antes de cada etapa. Todos os dias de manhã levava 30 minutos a cobrir os dedos dos pés com fita adesiva para evitar que o atrito provocasse bolhas, que são a maior causa de desistência na prova. O cuidado com os pés foi sem dúvida a minha maior preocupação e receio.

O que recorda da quarta etapa, a mais longa de toda a história da Maratona das Areias, com 92,1 km?
Apesar de ser a mais longa da história, foi a que mais gostei! Antes da largada, o meu receio era como o corpo iria reagir depois de, nos três dias anteriores, ter feito quase três maratonas. Fui sempre gerindo a prova, mantendo sempre os mesmos ritmos, do início ao fim, correndo sempre que o terreno permitisse, por muito cansada que estivesse. O tempo de paragem nos abastecimentos foi mínimo para evitar que as pernas desistissem de correr. Para muitos atletas é a etapa mais dura e difícil, mas termina-la é um momento inesquecível. Confesso que me emocionei mais a ver chegar os últimos atletas do que na minha chegada. Imaginar o sofrimento e a dor que é percorrer tantos quilómetros em tantas horas, muitas vezes com problemas nos pés, etc., quando nem tudo corre bem, é absolutamente inspirador! Os últimos atletas desta tão dura prova, mais ainda do que os primeiros, são um exemplo brutal de força, dedicação e resiliência! Uma inspiração para mim!

Foi a etapa mais dura?
A etapa mais dura para mim foi a primeira, a descoberta do que me esperava, o receio de que algo não correria bem porque teríamos mais cinco etapas pela frente, a adaptação…. Todas as outras, incluindo a maior, custaram menos. O treino estava feito, ali tinha de correr com a alma e coração. Por isso as últimas etapas custaram menos, dado que já sabia que estava a traçar o caminho até a tão ansiada medalha!

Chegou à frente do Carlos Sá, por exemplo. O que significou isso para si?
Tive o privilégio de partilhar este meu sonho da Marathon des Sables com a minha grande inspiração na modalidade, o Carlos Sá, um “Enorme” atleta mas com uma simplicidade adorável, com quem partilhei todos os momentos, à exceção da corrida em si.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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