André Rodrigues e a sua queda: «Chorei como um miúdo, não com dores, mas por ter de abandonar Zegama-Aizkorri»

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André Rodrigues sempre teve o sonho de correr, um dia, a Maratona Zegama-Aizkorri. O sonho concretizou-se no último domingo. Mas o desfecho não terminou como o esperado, já que teve de abandonar a prova devido a uma inesperada queda, «uma queda como tantas outras que acontecem numa prova com aquele tipo de piso». Sonho frustrado? Nem pensar…

 

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Sempre sonhou em correr a Maratona Zegama-Aizkorri? Foi a primeira vez que participou na prova?
Sim, foi a primeira vez que estive na Zegama-Aizkorri. Desde que comecei a correr, há quase três anos, que o meu grande objetivo sempre foi poder viver a festa de Zegama. Para além de ser a prova mais competitiva do planeta, o ambiente é algo que não se pode explicar. Já tinha uma ideia maravilhosa da prova por todas as fotos e vídeos, mas depois de a viver é que percebi realmente a magnitude do que se passa em Zegama, fiquei ainda mais apaixonado pela prova.

Mas o que significava para si a Maratona Zegama-Aizkorri?
Zegama para mim é o expoente máximo do Trail (não Ultra), tanto a nível competitivo como pelo ambiente de toda a prova. As pessoas ali vivem a montanha. Aliás, não sei como é possível ter tanta gente em locais onde só se chega depois de muitas horas a pé, mas a verdade é que, nos picos mais altos, éramos literalmente engolidos pela multidão.

Como foram os momentos antes da partida, os momentos em que o seu sonho se tornou realidade?
Foi maravilhoso… O ambiente, o nervosismo, a alegria na cara de todos os atletas, visível também nos rostos da assistência. É algo que recordarei para sempre. Depois, é realmente inexplicável estar ao lado de atletas que estamos habituados a ver nos ecrãs e que consideramos como heróis.

Foi obrigado a deixar a prova pela organização. O que realmente aconteceu?
Sofri uma queda no km 23, mas continuei na prova, a andar e a correr quando podia. Desde que não fosse a descer e não me cansasse muito para não ter de inspirar fundo, conseguia continuar. Estava decidido a chegar ao fim porque era responsável por fechar a equipa de Portugal e também porque não queria ter mais um DNF na minha carreira.
As pessoas que assistiram também foram incansáveis, ofereceram-me de tudo e só não me levaram ao colo porque não podiam. No entanto, quando começou a descida final para a meta, tudo se complicou: o chão era extremamente escorregadio e eram necessários movimentos de tronco para nos mantermos em pé, o que me causava muitas dores. Mesmo assim continuei, soltando alguns “ais” de dor pelo caminho. Mas cheguei a uma zona onde estava a Cruz Roja (Cruz Vermelha)… Eles apercebem-se da situação e levaram-me até ao carro, onde fiz um rastreio! Ao que parece, a minha saturação de oxigénio também não estava grande coisa. Disseram então que seria levado para baixo e que já estava uma ambulância à minha espera. Durante a viagem chorei como um miúdo, não com dores, mas pela situação, o que os deixou muito preocupados, já que acharem que eu estava muito mal. Mas depois tudo se compôs…

O que poderia falar sobre a sua queda?
Foi uma queda como tantas outras que acontecem numa prova com aquele tipo de piso, só que, desta vez, em vez de cair “de c…”, acabei por ir com o peito ao chão, embatendo numa pedra saliente que ali se encontrava.

Quando saberá da gravidade, ou não, da sua lesão?
Em termos de saúde geral não é nada grave, mas, em termos de “saúde desportiva”, vai causar alguns contratempos porque terei de passar uns tempos sem treinar. Ou seja, terei de provavelmente reformular alguns objetivos mais próximos.

Como foi a reação dos atletas quando viram que você não estava em condições?
Quando caí fiquei alguns minutos enrolado no chão a gritar. Posso dizer que todos os atletas que estavam atrás de mim pararam e ficaram comigo até eu me levantar e dizer que estava bem. Isto numa corrida da competitividade de Zegama. Estamos a falar de um grupo de atletas que lutava contra o relógio, que ambicionava conseguir um tempo de qualificação para 2016. Ou seja, isso demonstra bem o que é o Trail, uma família. Quando alguém precisa de ajuda, esquecemos de tudo o resto.

Mas correr cerca de 10 kms com dores também demonstra o espírito do Trail. Ou não?
O espírito do Trail foi o das pessoas que estavam a assistir a prova e que fizeram de tudo para nos fazer progredir no terreno. Quando viam que íamos em dificuldades, perguntavam logo o que se passava e ofereciam de tudo, muitos fazendo largos metros ao nosso lado.

Mesmo com dores, esperava chegar ao final?
Sim! Só quando iniciei a descida final é que comecei a duvidar, mas procurei seguir com cuidado. Se tivesse hábito de levar analgésicos comigo para a prova, provavelmente teria terminado, apesar dos riscos associados. É algo a repensar em provas importantes.

E o que poderia falar da prova até ao momento da sua queda?
Estava a ser maravilhoso, algo como nunca tinha vivido. Tinha um ritmo que permitia absorver tudo o que se passava à minha volta e assim desfrutava daquele ambiente e do apoio dos milhares de pessoas que se encontravam ao longo do percurso. A subida à Askorri foi a coisa mais arrepiante que já vivi na minha vida desportiva, fiquei assombrado e estava realmente a saborear cada metro da subida, sempre empurrado pela multidão.

Em 2016 veremos André Rodrigues na linha da meta de Zegama-Aizkorri?
Terei de lutar por essa oportunidade, mas espero que sim.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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