Andorra Ultra Trail Vallnord: «O que conta não é o nível desportivo, mas como o corredor “vive” a corrida»

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Após cerca de um ano, Andorra Ultra Trail Vallnord, com Ronda dels Cims como cabeça de cartaz (170km, desnível positivo de 13.500m e altitude média de 2000m), está de regresso, este ano com cerca de três dezenas de portugueses. Gerard Martínez, da organização, explica parte do êxito desta prova, considerada uma das mais difíceis do Mundo. Entre 14 e 17 de julho, Andorra torna-se a capital do Ultra Trail.

 

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O que tem a Ronda dels Cims de especial?
A distância (170km), o desnível positivo (13.500m), a altitude média (2000m) e a tecnicidade do terreno. Mas, sobretudo, o companheirismo, a carga emocional dos corredores, dos voluntários e da organização. O Andorra Ultra Trail Vallnord é um evento especial em que todos os atores (corredores, voluntários, patrocinadores, organização, público …) formam uma espécie de organismo que convive em total harmonia com o cenário natural absolutamente fantástico de Andorra.

Como qualificaria a prova no contexto europeu e mundial?
A Ronda está considerada pelos corredores como uma das provas mais duras do mundo e alguns dos principais nomes do Trail dizem que jamais vivenciaram experiências como as que viveram durante a corrida, que tem como velocidade média de 5,6 km/h nos 170 km. A beleza das paisagens, a panorâmica e o carácter técnico de muitos percursos é um elemento característico de Ronda, mas também a solidariedade entre os participantes, assim como o ambiente. Estas características fazem com que Ronda, e globalmente a própria Andorra Ultra Trail Vallnord (AUTV), com todas as suas provas, seja distinta de outras corridas.

Como explica as inscrições para todas as provas esgotarem com meses de antecedência?
O questionário que os 1.300 participantes respondem a cada ano demonstra um grande grau de satisfação de todos. Por outra parte, observamos que, através das redes sociais, os corredores da AUTV são muito ativos e fazem eco da fantástica aventura que viveram em Andorra. Todos estes fatores fazem com que tenhamos um crescimento médio do número de participantes na ordem dos 25% por ano.

Quais são as principais dificuldades para organizar um evento como este?
Nenhuma em especial. O que devemos destacar é que o êxito de um evento como este requer essencialmente de três fatores: muito trabalho por parte de toda a equipa da organização, muito rigor e capacidade de organização e, sobretudo, muita paixão pela montanha e pelo Ultra Trail, uma paixão que dever ser compartilhada, já que mobiliza muita gente. No nosso caso em particular, mais de 400 voluntários e uma centena de profissionais, além de um público cada vez mais numeroso.

Há algum atleta em especial que gostaria de ter em prova?
Felizmente temos muitos atletas de alto nível que participam nas nossas corridas, mas o que conta para nós não é o nível desportivo, mas o espírito do corredor, a sua maneira de “viver” a corrida, de desfrutar as nossas montanhas e de transmitir as suas emoções ao público, aos outros corredores e a organização. Poderia citar muitos corredores que já nos deram a honra de terem participado da corrida. Relembro por exemplo Armando Teixeira, um modelo de modéstia e de companheirismo. Chegou na segunda posição dando a mão a um corredor norte-americano e outro “andorrano”. Este foi um dos grandes momentos do AUTV.

Qual a importância de Portugal para o Andorra Ultra Trail Vallnord? A participação de portugueses tem crescido?
Desde o primeiro ano temos tido corredores portugueses, que têm repetido muitas edições. Regra geral, gostam muito do caráter selvagem de Andorra. Apreciamos especialmente a sua simpatia, a capacidade que têm em comunicar a sua paixão pelo Ultra Trail e o bom ambiente que criam. A participação portuguesa sempre tem crescido. Este ano teremos 32 participantes e são a terceira nacionalidade, depois dos japoneses e polacos (não estou a contar com os espanhóis e os franceses, obviamente).

Que conselho(s) deixaria aos participantes, para todas as distâncias?
Preparação específica baseada num trabalho de musculação e desnível positivo contínuo. Repouso e sono durante 10 dias antes das corridas, muita motivação e gestão bastante cuidadosa do esforço. Muitos corredores abandonam a prova por terem adotado um ritmo de corrida demasiado rápido para a sua forma. Aconselho a todos que não ultrapassem os 80% da Frequência Cardíaca Máxima e também que não se deixem levar por um ritmo que não o seu. Correr uma das nossas Ultras, especialmente a Ronda dels Cims ou Mític, é uma aventura interior que merece uma cuidada preparação e uma gestão muito particular.

Qual a importância de Andorra Ultra Trail Vallnord para Andorra? É o principal evento do país?
O Andorra Ultra Trail Vallnord é, atualmente, um dos principais eventos desportivos e turísticos do país. O impacto económico sobre Andorra é de 3 milhões de euros e o impacto mediático é muito importante para dar a conhecer o país. É um verdadeiro “vector de imagen” de Andorra, já que mostramos a beleza das paisagens e o seu carácter selvagem, embora tenhamos uma grande capacidade de hospedagem que permitem acolher os corredores e os seus acompanhantes em excelentes condições.

Como analisa o Ultra Trail na atualidade?
Desde há uns seis anos que temos observado uma verdadeira avalanche de novas corridas por todo o Mundo, especialmente em França e Espanha. Apesar do incremento do número de corredores, fica claro que muitas provas não poderiam sobreviver devido a falta de participantes, mas também por causa das condições de segurança, que são cada vez mais apertadas e requerem maiores meios organizativos e financeiros.
Creio que o futuro do Trail, e especialmente do Ultra Trail, repousa sobre o feito de que é um desporto totalmente diferente dos restantes, já que privilegia o companheirismo e a solidariedade. A competição se faz com o próprio atleta, que procura alcançar e superar os seus próprios limites … Todo o resto é compartilhar vivências e emoções.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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