Uma Heidi portuguesa na Marató Pirineu

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Para surpresa de muitos e certeza de poucos, a portuguesa Lúcia Franco alcançou um honroso quarto lugar na prestigiante Marató Pirineu (45 km, 2.400m D +), em Espanha (leia aqui). A atleta madeirense revela aos leitores do CORREDORES ANÓNIMOS como foi a sua experiência, um verdadeiro sonho vivido em plena realidade.

 

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As primeiras noites deste Outono… A Natureza, nos seus mistérios de constante mutação, volta a se renovar a cada instante, trazendo consigo a magia própria de cada estação… As memórias voltam e vão, trazendo lembranças de como eram os “Outonos” da minha infância e como tanto se associava a queda das folhas das árvores durante esta época do ano… Ao “entrar” neste Outono, e ao deixar fluir o coração após o último desafio de Trail Running que me propus, não podia deixar de partilhar resumidamente a Marató Pirinéu que participei.

Entre voos, viagens de automóvel, malas e gente que felizmente temos a sorte de cruzar no nosso caminho, o gráfico com o desnível desta aventura começou a ser trilhado com muita emoção…

A noite que antecede a prova deixa-nos expectativa, com o coração acelerado, não sabemos bem definir o sentimento que nos ataca. Repensado o material e tudo o que poderá ser necessário durante a prova, é altura de dormir, ambicionando que a mesma seja Ultra-longa no descanso (o que não corresponde nada à verdade).

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Bom dia Marató Pirinéu! Estou aqui para sentir e desfrutar de ti!

Estava muito frio pela manhã (4º C), o que fez com que nos mantivéssemos dentro do carro até próximo da hora do início da prova sem qualquer desconforto. Colocámo-nos todos dentro do mesmo automóvel a fim de nos aquecermos e evitar o frio que estava lá fora (éramos 7!…).

Iniciamos um trote até à zona de concentração, o que nos possibilitou aquecer um pouco o corpo e assim mantê-lo à temperatura do coração.

A praça de concentração da prova era linda, o acesso à praça era lindo, a arquitectura que nos rodeava era linda, a música aquecia-me a alma e deixei levar-me por toda aquela envolvência. Estava perfeito o ambiente!

9 (nueve), 8 (ocho), 7 (siete), 6 (seis), 5 (cinco), 4 (cuatro), 3 (tres), 2 (dos), 1 (uno)… O momento que um dia sonhei!

marato«Boa prova, Lúciaaaa!»; «Boa prova, forçaaaa!» Era o Ricardo Quintal, que me conseguiu localizar entre os 800 traillers que alinharam à partida. Entre as ruas e o casario local, o início da prova era aplaudido com entusiasmo por toda a gente que se encontrava em cada esquina, em cada lugar. «Força Lúciaaa, boa provaaa!»; «Boa provaaaa!». Atónita, olhei e era o staff do Luís Fernandes e do Ricardo Quintal, que gritavam o meu nome. Eles não imaginam o misto de emoções que me provocaram….

Seguimos estrada fora a fim de sairmos da cidade de Bellver e entrarmos nos trilhos daquele paraíso.

O helicóptero também iniciava a viagem e sobrevoava-nos com mestria, enquanto abanava freneticamente aqueles prados verdejantes. Pessoas cruzavam-se connosco, gritando «Ánimo, ánimoooo… Venga, venga… Ánimo campeona».

Os trilhos estavam ali a aguardar-nos…

Era um sobe e volta a subir de trilhos que se começavam a apossar das emoções e me faziam seguir com o coração.

Esta viagem nos trilhos era um sonho e eu recusava-me a acordar tal a sua beleza e encanto, por tudo aquilo que me estava a provocar.

Os abastecimentos foram simplesmente brutais. As crianças e os adultos ali presentes gritavam por nós, transmitiam-nos palavras de incentivo e alento: «Venga, vengaaaa… Ánimo, ánimo, campeona, ánimoooo». Não sem antes os “miúdos” nos saudarem com os característicos “Give me five”, sem saberem que estavam a dar tantas e tantas injecções de energia para seguir este desafio.

Os voluntários, sempre prestáveis, enchiam-nos os depósitos com água e outros líquidos ou algo que quiséssemos. Só tínhamos de estar ali, enquanto eles faziam o resto.

«Déjame mirar tu material… Móbil e chubasquero!», pediam. «Claro, claro!», respondia. Fiscalização ao material e siga viagem…

Corri, andei, subi, trepei, pulei, ri sozinha, chorei… Vi as paisagens mais lindas que um dia nunca imaginei poder desfrutar ao vivo e a cores; olhei para um lado e para o outro e não me cansei de agradecer o privilégio de poder estar ali. Senti-me a Heidi e segui…

marato2Encontrei cavalos, póneis e vacas; encontrei nos trilhos que pisei tantos e tantos cogumelos semelhantes aos da animação da TV (com a parte superior toda vermelha e com pintinhas brancas); vi um homem subir a montanha com a bicicleta completamente às costas, estampando na face a felicidade por ali estar; encontrei famílias e grupos a contemplarem a montanha, não sem antes aplaudirem de pé e gritarem «Allez, allez… vamos, vamos, ánimoooo”; cruzei-me com condutores que paravam as suas viaturas e saíam para nos aplaudir e lançar-nos palavras de incentivo; contactei com traillers do Mundo que, tal como eu, se identificam com esta paixão; vi crianças a vibrarem com cada atleta que passava; ouvi os sinos semelhantes aos do gado da serra a ecoarem freneticamente cada vez que passávamos e que deixavam “uma lágrima no canto do olho”; senti que aquelas pessoas estavam ali simplesmente e unicamente para nos apoiar; vi gente impossibilitada de andar a aplaudir-nos; presenciei a chegada dos atletas de topo mundial a chegar à meta; aplaudi com muita emoção a chegada dos nossos ultra portugueses ao tapete mágico da meta e que me encheram de tanto, mas de tanto orgulho; a simbiose do que me rodeou neste desafio foi tal que, cada vez que, durante o percurso, eu pensava que ainda faltava muitos quilómetros para a meta, rapidamente me atacava um único sentimento: «Eu não quero que isto acabe nunca…».

Estar acima dos 2300 metros de altitude era algo que me preocupava, pois o meu corpo nunca tinha estado sujeito a tal, mas ele não se manifestou de modo diferente, deixando-me saborear cada instante e a beleza daquele local.

Ao longo do trilho observei as cores das roupas dos outros atletas que seguiam à frente. Nós éramos apenas e só tão pequenos e apenas pegadas naquela imensidão.

O Outono… E as estações trazem e levam o que a Natureza nos dá… Essa Natureza que me dá tanto e tanto, que me dá vida e me entrega a paz que preciso e ainda me enche os depósitos do coração.

Descrever uma prova desta dimensão e o que ela me provocou é extremamente difícil. O percurso é deslumbrante, a envolvência é arrepiante e, se conseguimos deixar o coração fluir, ainda mais ao fazer aquilo que mais gostamos, imaginem a arritmia de emoções…

Os últimos metros para a meta foram sensacionais. Visualizar a bandeira de Portugal ali, na posse de alguns portugueses, foi mesmo algo arrepiante. Aplaudi aquela gente com um daqueles sorrisos que não cabem na boca e, em seguida, entrei no tapete mágico, abri as “asas” e corri os últimos metros… Chegar ali foi o explodir de emoções e o agradecimento profundo de dentro de mim ao céu, que me guiou e me abraçou sempre neste desafio e na vida.

marato4Aquilo que senti é uma dádiva e a prova que seguir o coração é o caminho que devemos trilhar, desde aqui até à Lua e ainda mais.

Se te sentes contemplado pelos desígnios do coração deixa-os palpitar e agarra cada desafio, cada luta, cada batalha, cada desejo, cada querer, cada conquista, cada angústia, cada superação… Agarra e segue trilhando o que a vida te dá.

Um agradecimento especial aos que me amam, aos que me respeitam e aos que me acarinham… Família, amigos, equipa, companheiros de treino, de trilhos e de trabalho e a todos aqueles que, tal como eu, gostam de sonhar.

Este foi um sonho real! Relembrando partes do percurso desta prova, ainda consigo ouvir bem alto dentro de mim pessoas a gritarem: «Somni, somni, somni…», que, em catalão, significa sonhar.

Sonha, sonha, sonha…

E, parafraseando um autor português, «todas as vitórias são colectivas, sobretudo as individuais».

P.S: Os pódios estão dentro de cada um. Por isso, sonha e tenta alcançar todos os teus pódios e trilha com o coração os teus sonhos… Nestes dias de Outono e em todas as estações do ano.

«Ninguna fuerza abatirá tus sueños, porque ellos se nutren con su propia luz. Se alimentan de su propia pasión.»

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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