Um Corredor Anónimo no Ultra Trail du Mont Blanc

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Depois de oito meses de treino, finalmente chegou o dia. Luís Sommer Ribeiro vai «viver» o Ultra Trail du Mont Blanc, considerada a prova principal da modalidade a nível mundial, uma prova que reúne cerca de 2000 participantes, sorteados num universo de mais de 10 mil. Portugal e Brasil terão vários atletas no próximo fim de semana nos Alpes, entre eles o cronista do CORREDORES ANÓNIMOS. 

 

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Luís Ribeiro – Dorsal 657 (o melhor deles todos!)

Hoje seria o dia em que faria as contas.

8 meses, não sei quantos treinos, não sei quantas horas, não sei quantos kms e não sei quantos metros de desnível positivo.

Números que, certamente, iriam impressionar quem não segue um plano de treinos e fazer rir quem treina a sério.

Depois passaria para os estratosféricos números da prova: mais de 2 mil participantes, cento e tal kms muitos metros de acumulado. Frio, chuva e neve.

Mas prefiro centrar-me nas coisas que realmente me interessam. Os tais mais de 2000 participantes foram sorteados (sublinho o fator sorte) num universo de mais de 10 mil.

Ou seja, pela primeira vez na vida, tive sorte em alguma coisa. Se bem que já era a segunda vez que concorria e, por isso, tinha o dobro das hipóteses de ser sorteado.

Com este sorteio vou ter acesso ao centro do mundo da corrida de montanha.

Não é a mais longa, nem a mais complicada, nem sequer a mais difícil na sua distância. Não é a prova que vai mais alto, nem que tem mais acumulado. Mas é o Ultra Trail de Mont Blanc.

É “A” prova!

Os números que interessam são estes: mais de 2 mil voluntários, os participantes são de 87 nacionalidades diferentes, o mais velho participante (no OCC) tem 83 anos! 55 mil bolachas de água e sal! 23 mil barras de cereais! 9 mil bananas! 450 kg de salame! 3 toneladas de queijo!!!!!

Vou partir ao som do “Conquest of Paradise” do Vangelis, arrancar pelas ruas da mítica Chamonix. Tenho 8 kms de relativa calma antes de iniciar a prova com a primeira subida para Le Délevret. Vou seguir as 15 mil marcações de percurso! Este ano deram-nos mais uma subida! Quando chegarmos ao cume do Col de la Seigne, aos 2.500 metros de altitude, não descemos logo tudo. Descemos um bocadinho e subimos às Pirâmides Calcárias!

Já vi filmes, fotografias, dos caminhos, das pessoas, das paisagens,.. Agora falta-me estar. Falta-me viver!

Falta-me vibrar com o meu filho mais velho no mini CCC, onde vai correr 600 metros com o dorsal n.º 1!

O respeito que tenho por esta prova é proporcional à vontade que tenho de a fazer, de a sentir e de aproveitar cada bocadinho que a semana mágica de Chamonix tem para oferecer.

Não estive 8 meses a preparar a prova. Isso é errado. Estou há 8 meses a treinar bem. Quando acabar esta etapa, seja qual for o resultado, espero continuar a treinar com este empenho.

parte física é uma parte muito pequena de tudo aquilo que vou viver. Se olharmos os números de outra forma veremos que apenas cerca de 5% do meu tempo nestes 8 meses foi gasto a treinar. A minha vida continuou nos restantes 95%!

sommermonstClaro que, em Chamonix, isto vai ser diferente, já que quase 25% do tempo que lá estarei, se tudo correr bem, será em prova!

De qualquer forma, estas pequenas contas, que são as que importam, mostram bem que o esforço de participação não é assim tão grande, já que foi a sorte que me inscreveu e também gastei com isto apenas 5% do meu tempo…

Muitos de nós passaram mais tempo parados no trânsito do que aquele que eu passei em treino. Ou seja, acho que a minha preparação está ao alcance de qualquer pessoa que se disponha a fazê-la.

Por outro lado, o treino tem de ser sempre feito com seriedade e perfeição, já que é tão pouco.

Mas também o treino não é só corrida. Como “a corrida” não vai ser só treino. O equilíbrio à volta é tudo. Os amigos que fiz, as fantásticas experiências que tive nestes 8 meses… Isso é o que me prepara!

Foram estes 95% fora da corrida que me aumentaram a vontade de ir para os Alpes e que, em cada momento que não estou a treinar, me fazem sonhar com a prova, com os passeios, com a chegada! É verdade: sonho com a chegada. Ainda nem comecei a correr e já quero acabar a prova. Já projetei mais de mil vezes a minha entrada, depois da curva na recta final.

Não sei como vai correr a prova na próxima semana. Sei no entanto que me sinto imensamente agradecido por tudo o que me foi dado na preparação da viagem.

Resta-me tentar retribuir. Ir lá, viver ao máximo e depois voltar, contar o que se passou e tentar que a minha experiência neste tempo seja posta ao serviço de quem possa precisar.

Obrigado

Um abraço.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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