Uma vitória na Ultra Trail de São Mamede com tonturas pelo meio

Fátima Negri (ou Tuxa, como é conhecida) foi a grande vencedora do Ultra Trail de São Mamede (103,5 km, D+ 3560), no passado fim-de-semana. Entre esta quarta e sexta-feira, a corredora revela o quanto custou ganhar a prova. Mas antes de tudo, os agradecimentos a quem merece…

 

 

«Olá a todos!

Vou começar pelo fim e ir direto aos agradecimentos!

Gostaria de agradecer ao público do UTSM. Obrigada! Obrigada a todos que chamaram por mim e deram-me força ao longo da prova! Sempre que vou a Portalegre sinto-me em casa! Desta vez ainda me surpreenderam mais com tantas palmas! Foi incrível!

Um obrigado gigante aos meus pais, por estarem sempre presentes. O vosso apoio em todos os abastecimentos foi irrepreensível e o apoio diário com tantas horas de treino é fundamental para atingir todos os meus objetivos.

Por último, um grande obrigado ao meu treinador e a todos os meus colegas de equipa por me acompanharem diariamente em cada treino.

Agora, seguimos para a prova…

Na última sexta-feira, eu e os meus pais dirigimo-nos a Portalegre. Deito-me no banco do carro e aproveito para dormir uma soneca durante a viagem. Levantámos o dorsal e seguimos em direção ao hotel em Castelo de Vide, onde janto e volto a adormecer até às 22h15. Visto-me, preparo a mochila e seguimos para a arena. Às 23h30 dou entrada na zona de partida, onde espero pela contagem regressiva. Não paro de abrir a boca e não vejo a hora de começar para o sono parar. À meia-noite do dia 19 de Maio dá-se início à minha quinta prova acima dos três dígitos. São 8,7km com cerca de 500 D+ até Reguengo. Começo devagar e com um ritmo controlado, pois a prova era longa e seriam cerca de 15 horas àquele ritmo. Corro um pouco com o Prazeres e o Lizardo, damo-nos forças e sigo. Começo a ouvir o meu nome e a chamarem por mim em cada troço do percurso, voluntários, residentes, equipas de apoio. Ao chegar ao abastecimento a festa é enorme, pois sou a primeira mulher e todos os voluntários não deixaram passar isso em branco.

Tuxa Negri deixou o sono de lado para correr a UTSM

Sigo em direção a Alegrete, mais 13,2km com 550 D+. Não consigo comer nada desde o início da prova, o que me começa a preocupar. Um troço com bastantes percalços: o pó que se levanta nesta etapa com as lentes de contato dificulta a progressão noturna, imensos single tracks e alguma fila. Acabei por cair umas cinco vezes (gostaria de agradecer aos atletas que, cada vez que eu tombava a tentar ultrapassá-los, ainda paravam para me ajudar a levantar…) e estava cheia de dores no pé, mas não entendi de onde apareceram. Felizmente, acabaram por passar, tão rápido como apareceram.

A cerca de 1km do abastecimento torço o pé e acabo estendida no meio do chão. Caem-me umas lágrimas, levanto-me, continuo a correr e sigo. “Isto não é nada!” Cada vez que colocava o pé no chão era uma dor super-intensa, pensei que talvez fosse mais grave do que estava a espera, mas o abastecimento era já ali. Faço a subida até ao castelo, sorrio para as Fotos do Zé e… “Siga!”. Consigo comer uma banana à força, aviso os meus pais que torci o pé mas que vou tentar continuar a correr. Em todos os abastecimentos eles estiveram lá, trocavam-me sempre as garrafinhas, uma apenas com água, outra com tailwind.

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Sigo para o ponto mais alto da Serra de São Mamede, a subida das antenas. São cerca de 10km com 700 D+ até ao topo. Começo a sentir-me bastante mal, cheia de tonturas, sensações de desmaio, houve inclusive alturas em que pensei que cairia para o lado. Tentei manter-me calma. “Isto é por não conseguires comer, já vai passar.” Fiz a subida com o Varela, que também não se sentia muito bem e pensei: “Ao menos não sou a única.”

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Pedro Alves

Pedro Alves

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