Sofrer muito mas terminar o Ironman de Nice

Gildo Silva tinha consciência de que o Ironman de Nice era um dos cinco mais difíceis do Mundo. No entanto, não imaginava que era tão complicado. Por diversas vezes esteve para parar, mas conseguiu terminar. Este é o seu relato.

 

Com a partida para o segmento da natação às 6h30, o Sol tinha acabado de nascer. A entrada de atletas na água era feita de forma gradual, sendo que os atletas escolhem a sua box de saída pelo tempo previsto por eles mesmo para o segmento. Escolhi a box de saída da 1h10-1h12.

O segmento do ciclismo no Ironman de Nice foi decisivo para Gildo Silva
O segmento do ciclismo no Ironman de Nice foi decisivo para Gildo Silva

Passado poucos minutos chegou a minha vez de entrar na água. Um pouco confuso, por estratégia optei por me afastar um pouco da linha reta que perfaz as boias e o percurso de maneira a não andar na “guerra” com outros nadadores. Mesmo assim puxaram-me muitas vezes as pernas e ainda levei alguns socos nas costas. Mas são coisas normais.

Deixei a água no tempo previsto e rapidamente entrei no segmento da bicicleta. O percurso era plano nos primeiros 30 quilómetros, sendo que depois iria começar a minha grande aventura… Consegui sempre um bom ritmo e os quilómetros passavam rapidamente. O meu objetivo Sub-10 nesta prova estava portanto vivo.

Mas “viveu” até aos 50km. Depois seguiram-se uns torturantes 20km de subida em que demorei 1h20. O calor apertou imenso, não havia sombras e a paisagem tudo semelhante à nossa pequena Serra da Estrela. Os sucessivos sinais de subida íngreme eram constantes. Chegado lá acima, o meu corpo começou a deixar de responder, teimando em querer ficar ali mesmo, dando sucessivos sinais como as terríveis cãibras e calafrios. Rapidamente tirei o meu objetivo de cima e o substitui por outro: acabar a prova.

Pensamento terrível, saber que temos ainda mais 110km de bicicleta para fazer e 42km para correr nestas condições. E lá comecei a abrandar o ritmo, gerir ainda mais a alimentação e os líquidos, basicamente constituída por água, isotónico, barras e gel.

Correr por um elástico no Ironman de Nice

Saindo das montanhas com uma paisagem brutal de cortar a respiração e aldeias perdidas, o percurso cruzava novamente com a parte inicial. Os últimos 30km eram portanto novamente planos. No pico do calor, entrei para o segmento de corrida completamente de rastos. Embora o corpo quisesse parar, a cabeça esteve sempre a mandar seguir, continuar, não parar.

Por cada volta no Ironman de Nice, os atletas recebiam um elástico para colocarem no braço
Por cada volta no Ironman de Nice, os atletas recebiam um elástico para colocarem no braço

O percurso da corrida era realizado em voltas de 10km, que percorriam a marginal toda até ao aeroporto. Voltávamos quase pelo mesmo sítio. Existiam milhares de pessoas em torno do mesmo, o que ajudava muito os atletas.

A ambulância não parava e as sucessivas perdas de consciência e forças de atletas bem junto a mim era uma visão bem real daquilo que também me poderia acontecer. As cãibras nunca mais apareceram, mas, no seu lugar, trouxe-me umas “pernas todas derretidas”. Num ritmo inicial de 5m00/km, na segunda volta reduzi para os 5m30/km e, na seguinte, para os 6m00/km. A única coisa que me conseguia ainda levar a correr eram os elásticos coloridos que nos colocavam no braço após completar uma volta de 10km. Corria e ficava a olhar imenso tempo a sua cor. Mas lá vinha um sorriso maior quando avistava os meus amigos a apoiarem-me com a bandeira de Portugal.

A última hora foi terrível, parando nos imensos chuveiros que se encontravam na linha de corrida para refrescar os atletas. Já não conseguia comer nem beber nada, só respondia aos voluntários que me entregavam água… O que eu realmente queria era a meta, nada mais.

Ao avistar a linha de chegada alguns metros à frente, um sentimento triste de não ter cumprido o meu objetivo instalou-se. No entanto, rapidamente foi substituído por uma felicidade interior de estar ali e completar todo este grande desafio e superação.

Se me perguntarem como consegui dar a volta por cima quando estava no topo da montanha completamente afundado, lembrem-se da vossa família e amigos que estão a torcer por vós, das imensas horas de treino, daquilo que abdicaram para estarem ali, de todo o investimento feito.

E, se a vossa meta está a ir por água abaixo, não desistam… Nunca!

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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