Augusto Pinto Oliveira e Esmeralda terminam no limite do tempo o TDS

Na última parte da crónica de Augusto Pinto Oliveira no TDS – 119 km (7 200m D+), um sono reparador quase deita por terra toda a prova. A corrida contra o relógio ganha momentos dramáticos no quarto dia d’«A Semana do Ultra Trail Bont Blanc».

 

Na base de vida de Les Contamines tínhamos chegado com um bom tempo de tolerância até ao encerramento desta. Como que embalados pelo calor que se fazia sentir no local, adormecemos em cima de um banco, pois tínhamos aproveitado para descansar e ganhar algumas forças para o que nos esperava. «Vão desistir ou vão continuar?». Estas foram as palavras que me acordaram em sobressalto. Faltavam apenas 5 minutos para encerrarem a base e tinha perdido demasiado tempo precioso em Les Contamines. Voltávamos a pôr em risco as próximas barreiras horárias…

«São duas “Super Subidas” mas vamos conseguir. Faltam 23 km para a meta, é mais ou menos uma Meia-maratona. Desistir ou ser desqualificado aqui devido a barreira horária é morrer na praia. Força, vamos lá gastar as nossas últimas forças. Temos que nos empenhar afincadamente e vencer estes últimos desafios», falava para a Esmeralda.

Augusto Pinto Oliveira sofreu no TDS
Augusto Pinto Oliveira sofreu no TDS

Col de Tricot! Uma MEGA subida que serpenteia montanha acima (como indica o próprio nome tricot). Aliado a isso, uma chuva intensa, gelada, que arrasta pedras pelo trilho abaixo e em que, a certa altura, não vês o topo da montanha nem sabes para onde vai o trilho. Deixas também de ver os atletas que vão à tua frente… É um trilho sinuoso, torturante, sem fim à vista, em que tens de deixar aqui todas as tuas forças, em que o teu corpo pede para parar um bocado, suplica por um descanso Mas a tua cabeça diz: «Segue em frente, já falta pouco!»

Chego ao topo, o vento quase que me arrasta, uma chuva gelada fustiga-me a cara, mas penso: «Cheguei e a partir daqui vai ser mais calmo e sem grandes subidas.» A Esmeralda, com medo que eu falhasse a próxima barreira horária, disse-me para continuar sem ela. Disse-lhe que esperava por ela na próxima base, já que queria honrar o meu compromisso de a levar até ao fim. Ela venceu o trilho e chegou ao controlo horário 15 minutos antes do fecho…

Tanto a descida como a subida estavam inundadas, o que tornava esta parte um pouco perigosa. Como não conseguia ver o trilho, podia colocar mal um pé e sofrer um acidente. Cruzava com alguns caminheiros, que lentamente subiam o trilho e diziam palavras de incentivo e coragem. Os pés e as mãos estavam gelados, mas o meu objetivo mantinha-se quente, queria chegar ao fim e tinha de conseguir. «E VOU CONSEGUIR, pois nunca fiquei pelo caminho em nenhuma prova e não será esta que me vai vencer.»

Belleveu, penúltima barreira horária, está quase a fechar. Faltam apenas alguns minutos e decido esperar mesmo até ao último segundo, pois tenho de levar a Esmeralda até ao fim, tinha-lhe prometido que o ia fazer e não vou falhar por 15 km. Saída do meio da chuva e nevoeiro, ela lá chega e voltamos a correr juntos, agora com um passo mais acelerado. Juntá-mo-nos a um grupo de atletas que estavam a passar o mesmo problema que nós, estávamos todos no limite de tempo e apressadamente e desesperadamente tentámos chegar até Les Houches – km 111, última barreira horária e apenas a 8 km de Chamonix, o tão esperado final.

Com a meta de Chamonix no horizonte 

«Vão continuar ou vão ficar por aqui», perguntavam os responsáveis da base. «Nós vamos fechar daqui a poucos minutos. Ou seguem ou ficam já aqui.» A verdade é que nenhum de nós estava disposto a “morrer” ali, já com a meta no horizonte.

Uma verdadeira corrida contra o tempo, estávamos desesperadamente próximos do grande final. Ao longe, a voz do speaker já entoava, as dores nos pés e nas pernas quase como milagrosamente estavam a passar, o frio gélido começava a desvanecer e a dar lugar a um calor emocional.

Ao entrar na rua principal do tão ambicionado El Dourado, somos quase como levados ao “colo” até à meta. Conhecidos e desconhecidos gritam pelo nosso nome, começo a acenar a todos os que chamam por mim, vou ao longo destes metros finais tocando nas mãos daquelas crianças que aguardam a passagens dos atletas.

A meta está a apenas alguns metros, as barreiras de proteção estão rodeadas por pessoas que entoam gritos de glória, ouvem-se o tocar dos sinos que anunciam a passagem dos guerreiros.

 

A altimetria do TDS

 

«Augusto Oliveira, from Portugal», anunciam à minha chegada.

«CONSEGUI! CONSEGUI!», gritava. Por escassos minutos tinha conseguido vencer esta luta constante que tinha travado contra o tempo. Tínhamos conseguido, eu e a Esmeralda, que chegou pouquíssimos minutos depois.

Tinha cumprido a minha promessa, tinha conseguido vencer esta batalha!

 

A galeria de fotos de Augusto Pinto Oliveira

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Pedro Alves

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