Quando um treino traiu as 60 Horas de Rui Martins

O que significa não terminar uma prova? O quanto um simples erro no treino pode afetar todo o nosso objetivo? O que significa chorar em plena prova com a consciência de que não há outro caminho a não ser desistir? Rui Martins viveu todas essas experiências numa competição onde o intuito era correr o máximo possível de quilómetros em 60 horas.

Esta aventura começou muito antes do dia da prova. Por exemplo, com problemas por arranjar patrocinadores, mas também com os treinos, que não estavam a correr como eu queria devido ao facto de nunca saber ao certo se iria ou não conseguir estar presente na prova. Mas felizmente lá consegui ter os apoios necessários com a ajuda de amigos e o sonho de poder fazer 60 horas a correr tornou-se uma realidade.

Evidentemente que tive algumas provas de preparação, como a Ultra Terras de Sicó e as 24 horas de Mem Martins, a última corrida antes de ir para Inglaterra. Esta prova foi um risco que quis correr e assumir, mas a verdade é que dei-me muito mal. Alcancei o primeiro lugar do meu escalão e quarto da geral, com o mesmo número de voltas do terceiro colocado. No total, corremos 180 km… Mas o meu problema foram as últimas 3 horas, quando corri com dores no joelho. Tecnicamente não as devia ter feito, mas a competição não me deixou ser racional e fui até ao fim, com muito esforço da minha parte.

Rui Martins lutou muito para terminar a prova

Após Mem Martins, tive 3 semanas para recuperar. As dores froam enormes, mesmo a andar. Recorri a um médico ortopedista e ele falou que a inflamação era muito grande e que não iria deixar de sentir dores até o dia da prova, pondo em causa, deste modo, a minha participação.

Fiz tratamentos com o osteopata e massagista Paulo Monteiro quase todos os dias até que decidimos fazer um pequeno teste: correr a 7min/km. Não aguentei 2 km… Fiquei muito desanimado e decidi não fazer mais testes até o dia da corrida. Até lá, fiz o máximo de tratamentos possíveis.

Eu e a minha equipa, Miguel Carneiro e Luis Melato, fomos para Inglaterra com tudo estudado, como as horas em que teria de parar, as horas em que deveria correr, etc. Tudo foi muito bem planeado em Portugal. No dia da prova, começou a chover e a ficar muito frio. Iniciámos a corrida às 16 horas de sexta-feira. A data do fim também estava estabelecida: 4 da manhã de segunda-feira. No total, 60 horas.


Rui Martins com a sua equipa, Miguel Carneiro e Luis Melato

Coloquei-me à frente da corrida logo na primeira volta, mas o medo de voltar a ter dores era constante na minha mente. A cada volta que completava, dizia a minha equipa que não estava a sentir dores, como de uma vitória se tratasse. Até que…

E as dores não deixaram Rui Martins em paz

Após 2 horas de prova, e na primeira posição com uma boa vantagem, começou o tormento das dores. Pedi urgentemente um comprimido ao Miguel Carneiro, mas ele nada fez. Estava a fazer uma média de 12 minutos por volta e, em meia-hora, o meu ritmo foi para 22 minutos.

O desconsolo de Rui Martins

As dores estavam a ser insuportáveis e os bastões já não ajudavam. Chegou um momento em que deixei de andar e fui levado para o quarto em ombros, já não conseguia mais. Procurei descansar a perna com gelo e massagem, deitei-me um pouco e, no meio da noite, voltei a tentar andar. Consegui dar mais quatro voltas e tomei a difícil decisão de desistir. Chorei ainda 2 ou 3 voltas a tentar lutar contra mim mesmo, mas a dor acabou por vencer e finalmente parei, após 63 km.

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Fiquei muito desiludido e frustrado. Entreguei o chip e pedi a minha equipa para sair da zona de competição, já que custava-me cada vez mais ver os outros atletas em prova e eu sem poder competir. Mais frustrante ainda foi ver os tempos finais. No ano passado, numa prova de 48 horas no mesmo circuito, corri 250 km. Este ano, o primeiro atleta correu 190 km em 49 horas (ninguém concluiu o tempo limite de 60 horas). Se ganhava? Podia não ganhar, mas de certeza que iria dar luta.

Fica prometido que, para o ano, estou de volta. Desta vez sem dores…

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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