Rodrigo Machado encontra os 1000 km na Islândia no Sul

Rodrigo Machado percorre uma das etapas mais complicadas da sua viagem, a denominada Sprengisandur Route. Sente na pele a fama do local, com ventos que não têm contemplações e que acabam por derrubá-lo a si e à bicicleta. Os 1000 km do objetivo inicial são ultrapassados…

 

O vento sopra como nunca vi nem senti. As rajadas, quando vêm, são tão fortes que, se me apanham de lado, empurram-me para fora desta estrada, que só o é de nome. As inúmeras pedras soltas, as irregularidades do piso e a gravilha, que me faz derrapar a cada travagem forte, compõem o resto do cenário. Estou no coração da Sprengisandur Route, trajeto desértico que atravessa a Islândia, no meu caso de Norte para Sul.

 

Rodrigo Machado vai entrar na temível Sprengisandur Route
Rodrigo Machado vai entrar na temível Sprengisandur Route

 

Decidi ainda em Lisboa realizar este desafio na terceira parte da minha viagem de 1000 km, pedalando numa bicicleta em autonomia total pela Islândia. Cheguei ao início desta rota no dia anterior e já com 850 km percorridos. Vinha de uns dias raros por estas bandas, em que o Sol imperou. Até ao final desse dia tudo ia bem calmo, aproveitando ao máximo a tranquilidade que toda esta natureza única me transmite.

Mas o dia amanheceu cinzento, o céu escondido por uma camada espessa de nuvens e uma brisa, leve mas fria. Cedo começo a perceber que sou bem mais lento aqui do que tinha previsto. Cometi um erro na preparação de não ter tentado perceber que tipo maioritariamente de piso compõe esta rota. A bicicleta, com carga da 40 kg, é-me muito difícil a progressão. Atrasei-me demasiado e fui apanhado por uma tempestade de ventos fortíssimos, ainda muito longe do único local para apoio e abrigo, Nyadalur.

Durante horas travo uma luta titânica com este vento enraivecido que teima em não me deixar chegar. Quando o tenho pelas costas e em descidas íngremes, a velocidade é tanta que tenho de desmontar para evitar uma queda que pode ser grave. Com a bicicleta pela mão, o vento derruba-nos inúmeras vezes. Muito bem equipado e com artigos de alto nível, estou seco e não tenho frio. Mantenho a cabeça fria e fico-me apenas no objetivo de chegar ao abrigo.

 

Algum do equipamento que escolhi para esta viagem. Grande abraço aos meus amigos das lojas Outprostore Alvalade e Alfragide que me deram ajuda preciosa. Estamos juntos.

Publicado por Rodrigo Viana Machado em Terça-feira, 1 de Agosto de 2017

 

Depois de 12 horas de esforço físico contínuo e 90 km, a apenas 3 km de Nyadalur, deparo-me com um rio, que, pela força da corrente e pelas águas gélidas, é intransponível para mim, pelo menos de forma segura. Estou no limite da exaustão e tentar passar a vau naquelas condições seria um erro primário. Valeu-me uma estrelinha da sorte com o aparecimento de uma viatura todo-o-terreno, que me auxiliou no meio daquele tormento.

Rodrigo Machado chega ao Sul

Tenho o apoio do refúgio mas tenho de passar a noite acampado por estar já completo. A tempestade dura a noite inteira. Pela questão dos ventos fortes e famosos desta ilha, felizmente optei por trazer uma tenda de expedição de alta qualidade, que aguenta a fúria deste vento a noite inteira. De manhã quero continuar a minha travessia por receio de piorar as condições do tempo e ficar ali retido, mas o Ranger local, por questões de segurança, faz-me aguardar pela sua autorização.

 

Uma das belas imagens de Rodrigo Machado na Islândia
Uma das belas imagens de Rodrigo Machado

 

Por fim, seriam umas 11h00, sou autorizado a partir e lanço-me que nem uma flecha de novo naquele vento, que, apesar de soprar fortíssimo na mesma direção que sigo, cria-me enormes dificuldades, tornando ainda mais dura esta travessia. O uso obrigatório e constante dos travões leva ao desgaste completo das pastilhas e a muitas dificuldades em conseguir reduzir a marcha (e mesmo em parar). Apanho muitos sustos e diversas vezes a travagem é feita com os pés no chão. A terceira noite desta travessia faz-se completamente sozinho, onde montei a tenda abrigada por uns barracões que encontrei, uma vez que este vento não há meio de abrandar. Ao quarto dia o Sol foi aparecendo entre as nuvens, a temperatura subindo e uma troca de posição das pastilhas dos travões melhorou bastante a minha progressão. No entanto, o vento, já não de forma tempestuosa, continua a soprar intensamente. Por fim, já em segurança, num parque de campismo com uma relva imaculada, monto a tenda após 4 dias e 317 km que levei para fazer a rota que muitos falam, mas que poucos se atrevem a lá ir e eu sei agora o porquê. Estou no Sul.

 

Depois da tempestade na Sprengisandur Route, a bonança do bom tempo
Depois da tempestade, a bonança

 

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Pedro Alves

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