A tortura dos primeiros quilómetros da Corrida Fim da Europa

Dois anos depois, Ruben Costa voltou a participar na Corrida Fim da Europa, prova de estrada definida pela expressão «Dificilmente haverá prova mais bonita…». Todavia, para ver a paisagem entre Sintra e o Cabo da Roca, é necessário ter resiliência, principalmente na primeira parte do percurso…

 

Em 2016 participei pela primeira vez da Corrida Fim da Europa. Estava na preparação para a Maratona de Sevilha e o percurso com sobe e desce era ideal para preparar as pernas, bem como para um treino em competição num local diferente (algo que defendo e, sempre que posso, faço). Infelizmente, essa edição ficará também marcada pelo facto do meu pai ter falecido duas semanas antes, sendo por isso pouca a vontade e a alegria de correr, mas ainda assim terminei a corrida com o tempo de 01h20m59. Assim, dois anos depois, regressei para participar na 28ª edição, sem grandes objetivos de tempo final, apenas fazer o melhor possível.

Na manhã de domingo saí cedo de casa com um grupo de amigos com os quais corro habitualmente para irmos diretos à Azoia (chegada) deixar um carro e, de seguida, seguirmos para Sintra (partida). Esta seria a solução, visto não ter comprado o dorsal juntamente com autocarro de transporte.

Chegado a Sintra faltava pouco mais de 1h00 para o começo da prova, tinha tempo suficiente para preparar tudo: ir ao café, deixar a mochila no bengaleiro e fazer um aquecimento leve. A manhã estava fria, pelo que optei por correr de calções e camisola, mas de luvas (ficaram comigo do início ao fim).

Na zona da partida já estavam vários corredores a fazer as últimas preparações, mas sem grandes confusões ou apertos. Aliás, esta prova tem número limitado de inscrições porque, quer a partida quer durante o percurso, não pode comportar um número alargado de corredores. Também por isso a organização tinha definido dois blocos de partida: 10h00 e 10h15. Iria partir às 10h00 para evitar corredores mais lentos, como aconteceu em 2016.

No dorsal estava presa uma etiqueta mais pequena que iria servir para identificar a mochila que ficaria no bengaleiro que a organização dispunha e que iria levar as nossas coisas para a chegada. Após entrega da mochila, fiz um aquecimento leve, em ritmo lento, e fui “ver” o primeiro quilómetro do percurso.

A dureza dos primeiros quilómetros da Corrida Fim da Europa

Partida à hora certa, 10h00 em ponto. O percurso não mudou, por isso já sabia com o que contar. Embora tenha partido com velocidade, rapidamente reduzi o ritmo porque sabia que iriam ser 3 km sempre a subir, sem descanso, em curva e contracurva, sempre em subida e sempre a acumular desnível positivo. Nesta fase apenas dava para estar concentrado na respiração, procurar a manter controlada, sem grandes oscilações. Isso seria importante para manter um ritmo “certinho”, com passadas curtas mas precisas. Ninguém falava, eu incluído, e o som da respiração ecoava pela serra acima.

Nesta primeira fase o percurso era muito bonito, com a estrada ladeada por muros em pedra e árvores, tudo muito verde – estávamos a subir a bem bonita Estrada da Pena.

Sensivelmente ao quarto quilómetro estávamos perto da Cruz Alta, a cerca de 427 metros, e este não seria o ponto mais alto do percurso. Aqui, o percurso tinha o primeiro ponto de descanso, uma pequena descida que dava para respirar.

Do km 5 até cerca do km 9 o percurso já seria mais fácil, a estrada era um ondulado de sobe e desce que se passava facilmente, dava para manter um ritmo/km até relativamente elevado. Nesta fase, as descidas ajudavam a ganhar balanço para as subidas que apareciam mais à frente. Embora com a respiração algo acelerada e com o cansaço a acumular, ainda dava para apreciar a paisagem, ver pessoas a passear pela serra e grupos de amigos a fazer BTT. Por vezes, à esquerda, ver o Oceano Atlântico.

LEIA NA QUARTA-FEIRA A SEGUNDA PARTE DA CRÓNICA

 

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos