Os dramas e as alegrias que passamos durante 24 horas a correr (Parte I)

 

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Flor Madureira participou pela primeira vez numa prova de 24 Horas, concretamente na 24 Horas Portugal, no passado fim-de-semana, em Vale de Cambra. Enjoos, torturantes dores nas costas, estratégia seguida, um presente misterioso, o sentimento de orgulho por parte do marido, Dean Karnases e os seus «passinhos de bebé», etc.  Em duas crónicas (a segunda parte será publicada ainda hoje), a mãe que pensa que «tem duas vezes 25 anos» revela aos leitores do CORREDORES ANÓNIMOS as enormes dificuldades, mas também a glória, que somos obrigados a passar em provas deste calibre.  

 

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Um dia após ter terminado a minha primeira experiência numa prova de 24 horas a correr, cujo resultado alcançado foi 163,8 km (78 voltas ao percurso), eis o que as minhas filhas, já adultas e que vieram almoçar a casa dos pais, comentaram ao almoço:

«A nossa mãe pensa que tem duas vezes 25 anos. Cada vez está mais louca!», disse a Cátia à Diana.

Pois, estão muito enganadas. É verdade que estou prestes a fazer 50 anos e já sou avó, mas tenho plena consciência das provas em que participo e, principalmente, dos meus limites.

O Paulo Rodrigues, amigo com quem treino diariamente, propôs-me há um tempo um desafio: participar nas 24h em equipa. Aceitei o desafio, mas com a condição de participar a solo. Foi assim que partimos para esta aventura.

A maior distância que tinha percorrido até então foi os 100 km. Já o tinha feito por duas vezes e, portanto, seria este o meu objetivo a ultrapassar. Programei o início da preparação após a UTSF 2015, prova que organizo com o Grão Mestre Moutinho, e que me deixa completamente extenuada. Mas o nascimento da minha “netinha” Suri fez com que essa data fosse adiada para início de Agosto.

Mas como é que se treina para uma prova de 24h?

Essa tarefa coube ao meu marido Carlos Madureira, ex-futebolista profissional. Ele tirou um curso de treinador de futebol e agora faz pesquisas com o intuito de me preparar para as provas que participo, sejam longas ou mais curtas. Confio 100% nele e tenho-me saído bem.

No início de Agosto, após ter participado no evento da Prozis, marca que me apoia, tive um problema de saúde que me condicionou imenso durante três semanas, uma das quais tive mesmo de estar completamente parada.

A partir dessa data o meu objetivo alterou-se. Na verdade, se conseguisse fazer a distância da maratona, seria muito bom.  

Retomei os treinos tentando recuperar o tempo perdido e parti para esta aventura com a vontade de terminar e com a leve esperança de ultrapassar os 100 km.

Saímos do Porto às 10h e nos dirigimos a Vale de Cambra, onde estava muito calor. A primeira pessoa que encontrei foi o Ricardo Bastos, homem de causas que já tinha participado por duas vezes num evento desta natureza. Como habitualmente, recebeu-me com muita alegria.

Fui levantar o dorsal e começou a troca de cumprimentos. Eram tantas caras conhecidas que, tal como eu, iriam calcorrear aqueles 2100 metros, volta após volta… Entretanto, chegou o Paulo Rodrigues com a esposa Carmo.

 

Já na linha de partida trocámos votos de boa prova e, às 12h00 lá fomos nós, cerca de 100 participantes. Sete dezenas iriam participar a solo, enquanto os restantes participariam por equipa ou estariam divididos pelas outras distâncias.

A primeira volta foi muito rápida, já que íamos todos muito entusiasmados e em alegre cavaqueira. Comecei logo a pensar em concentrar-me e abrandar.

Tinha combinado com o Paulo Rodrigues de que cada um faria a sua prova. Assim, desde o início, coloquei a minha estratégia em prática: 30 minutos de corrida, 10 minutos a passo. Passada a primeira meia-hora, quando comecei a caminhar, muitos que passavam por mim perguntavam se estava tudo bem, ao qual eu respondia que era «estratégia». Acho que alguns pensaram que eu estava armada em atleta… Mas era o que estava definido com o meu marido e portanto iria cumprir o combinado.

flor3Ao fim de 2h30 foi altura de parar durante 15 minutos, para comer e descansar. Comi um pouco de massa à bolonhesa e um quadrado de aletria. Depois, lá fui eu para mais 2h30. Nesta segunda parte já fazia muito calor e, para me hidratar, levei uma garrafa de água que bebia durante o percurso. Sempre que terminava estava lá o Carlos, pronto para trocar.   Aliás, o meu marido foi incansável. Esteve 24h permanentemente a postos para me chegar o que eu necessitava. Protetor, vaselina, recuperador, camisola, corta-vento, ou isto ou aquilo… Fui tratada como uma atleta de qualidade mundial.  Após cinco horas, a segunda paragem, já ultrapassada há muito tempo a distancia da maratona. Mas foi quando começaram a surgir os enjoos. Mal conseguia comer, mas tentei ingerir uma sopa, embora só tenha conseguido comer três colheradas. O grande atleta Luís Pires, que estava na mesa ao lado, mostrava preocupação. Passado os 15 minutos, lá fui eu outra vez.

Desta vez alterei a estratégia e dei início ao jogo psicológico que muito contribuiu  para eu ter alcançado os 163 km.

Pondo em prática uma máxima de Dean Karnases, «passinhos de bebé», lá recomecei.

Corria cerca de 1200 metros, com passagem pela meta. Neste local o calor humano e apoio foram fantásticos. «Força Flor! Vai Flor! És grande, Flor!», gritavam as pessoas. Era onde recebia o ânimo para mais uma volta. E lá estava o Carlos, de garrafa numa mão e máquina fotográfica  na outra. «Precisas de alguma coisa?», perguntava. E eu nem respondia, acenava que não e lá ia eu.

A mudança de ritmo dava-se passado uns metros, após a segunda ponte e ao alcançar o terceiro poste, onde o terreno tinha uma ligeira inclinação. Ou seja, era percorrido a passo. Caminhava 300 metros até passar o empedrado e voltava a correr mais 300 metros; parava de novo e caminhava depois mais uns metros, até passar um novo empedrado; era quando iniciava a parte mais longa de corrida, com mais uma passagem pela meta.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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