O problema da média no Ultra no Trail de Mont Blanc mas também na vida

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Antes das merecidas férias na próxima semana, razão pela qual não publicaremos uma nova crónica, Luis Sommer Ribeiro chega a conclusão que está preparado para o Ultra Trail de Mont Blanc (168 km, 9600 D+). Mesmo que as médias sejam o que são…

 

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Se eu comer dois pães e tu não comeres nenhum, em média cada um comeu um pão, mas tu tens fome e eu não.

Este é o problema da média.

Ontem comecei o treino meia hora antes das seis, o primeiro turno da Hora do Esquilo. Nessa meia hora, conseguimos fazer 5,6 km, o que foi bastante rápido.

Quando começou o treino, com o resto da malta, eu já estava quente eevidentemente, arranquei à frente.

Por isso, no fim da primeira subida, tive de voltar para trás para ir buscar os últimos, a pensar que um dia se é peixe, no outro é-se pescador.

Na segunda subida já não fiz qualquer piscina e, a partir dessa, as piscinas eram por mim.

Posso dizer que fui atingido pelo martelo da humildade…

Bem, a partir deste momento, verifiquei que o nível médio da Hora do Esquilo está muito elevado.

O problema é que, com a fome com que os da frente estavam, para cumprir a média eu é que ia ficar sem pão…

someer Foi então que dei por mim a fechar o grupo, num treino em que, supostamente, eu é que o ia guiar… Foi o primeiro treino telecomandado de Monsanto.

O que me leva a outra questão… Esta semana acabam os preparativos para o UTMB, depois disto é descanso.

Ora, há duas formas de treinar para uma ultra.

A primeira, e mais aconselhável, é correr o suficiente para transformar os 166 km em 42. Ou seja, ter a certeza de que o nosso treino é suficiente, para, em condições normais, aguentar os 166 km a correr e conseguir controlar a velocidade. Conseguindo isto, resta “apenas” controlar as variáveis que possam aparecer dentro da prova. Isto é o que faz a malta da frente.

A segunda maneira, e que é a possível para pessoas como eu, é tentar diminuir as variáveis, ou seja, prever já uma data de problemas e resolvê-los cá. Coisas pequenas como assaduras, unhas encravadas, frio, calor, sede, fome. Ter isso tudo muito bem estudado e preparado. Assim temos apenas de lidar com as restantes variáveis e com o estouro. Ou estouros… O treino, nesta segunda hipótese, serve para dois propósitos: afastar ao máximo do ponto inicial o dito estouro e também ir treinando, continuar a progredir, mesmo rebentado. O que importa então é conseguir ganhar uma folga em relação aos controlos de tempo para, quando a marreta vier, enquanto progredimos muito lentamente à espera da nova vida, tentarmos estar seguros de que não seremos desclassificados.

Atenção: isto não significa que quem treina para isto treine menos ou se esforce menos em prova. Significa que está mais atrás na capacidade física, por isso, muitas vezes, o seu esforço é maior, sobretudo psicológico, porque, de antemão e sem ser considerado variável, já sabe que caminha contra a marreta. Não é uma questão de “se ela aparecer durante a prova”, é uma questão de “quando ela aparecer durante a prova”.

Assim, no tal treino em que fechei o grupo, tive a certeza de que não tenho 166 km para gerir. Mas também sei que treinei suficiente para me afastar do controlo para levar com a marreta à vontade.

Resta agora saber se vou conseguir dar a volta e, em caso afirmativo, como vou conseguir fazê-lo. Ou melhor: quanto tempo vou ficar mal e, quando melhorar, quanto é que vou conseguir recuperar em relação à forma inicial.

Posto isto, acho sinceramente que tenho agora capacidade para concluir a prova. Não digo de forma segura, mas espero que de forma digna.

Ficam só a faltar as variáveis, mas também o que é que pode correr mal em 46 horas sem dormir durante 166 km em alta montanha?

De qualquer forma, a média da prova é de 30 horas…

 * para ler as anteriores crónicas, clique abaixo no nome do autor

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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