O «carimbo» da Maratona do Funchal

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Na última crónica escrevi que a minha performance na Maratona do Funchal deveria se pautar entre a irracionalidade (tentar correr a prova em 3h30) ou a racionalidade (apontar para o tempo de 3h45). O que aconteceu no passado domingo foi precisamente ter corrido entre os dois, entre o racional e o irracional, se tal é possível.

Com apenas uma “lebre” na corrida, precisamente com a marca de 3h30, não tive outra hipótese a não ser acompanhar o meu “guia” na prova. Não estou acostumado a ditar o meu ritmo, deixo esse “trabalho” precisamente para as “lebres”, atletas contratados pela organização para terminarem a corrida num tempo específico. Ao lado deles, a nossa única preocupação é correr, não temos de nos preocupar se estamos a ser mais ou menos rápidos tendo em vista o nosso objetivo final.

O percurso da Maratona do Funchal foi dividido em três. O primeiro com três voltas de 7.348,64 metros cada; o segundo, de transição, com 4.583 metros; e o terceiro com quatro voltas de 3.891,52 metros cada. Segundo a “lebre”, um atleta local com 1h11 na Meia-maratona, o trajeto mais complicado era precisamente o primeiro, devido as subidas durante a trajetória. A verdade é que senti-me bem e confiante e o itinerário foi ultrapassado com certo à vontade, incluindo o segundo, feito praticamente a descer, já que ligou o Lido à renovada Avenida do Mar, com um novo rosto após as obras decorridas devido as mortíferas cheias que ocorreram em 2010, obras que ainda não estão finalizadas.

Os tempos até então eram os seguintes:

10km: 49m21 (média de 4m56 por km)
21km:54m03 (média de 4m54 por km, tempo total de 1h43)
30 km: 45m11 (média de 4m56 por km, tempo total de 2h28)

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Ou seja, já com uma nova “lebre” (a anterior cedeu a bandeira do tempo ao seu irmão mais novo, que tem como melhor tempo 1h17 nos 21 km), tudo fazia crer que conseguiríamos alcançar a ambicionada 3h30, ambicionada por mim e por mais dois corredores, sempre juntos desde o início da maratona. Para concluirmos no tempo estávamos inclusive mais rápidos do que o esperado, já que corríamos a uma média abaixo dos 5m00 por km. O problema foi a partir do quilómetro 34…

Da minha curta experiência em maratonas, esta é a quarta que terminei, uma conclusão já extraí: é a partir do quilómetro 32, 34 que a prova realmente tem o seu início, quando o corpo começa a dar os seus primeiros sinais de fadiga, quando temos de estar psicologicamente preparados para ultrapassarmos as contrariedades, tanto físicas como mentais (e ambas estão intimamente ligadas).

Acredito piamente que, com um mínimo de preparação, corremos com algum à vontade 30 km. No entanto, para cortar a linha de meta de uma maratona, os tais 42km195, não há espaço para falhas no treino, como aconteceu por exemplo comigo devido a uma lesão, uma bolha na planta do pé e uma gripe (ler crónicas anteriores).

Curiosamente, foi a partir do km 34 que nós três “quebrámos”, os três ao mesmo tempo. A “lebre” bem que puxou e incentivou, mas não conseguimos reagir e acabamos por vê-la fugir, rumo ao seu objetivo (e o nosso…). O grande problema do último percurso foi que, dos 3.891,52 metros, entre um e 1,5 km era a subir, com parte dele a ser feito em empedrado, já que era realizado nas ruas do Funchal velho.

Psicologicamente esse dado foi determinante. Ao ser um percurso circular, já sabíamos o que enfrentaríamos depois de realizada a primeira volta. Se ainda encontramos forças para a segunda, na terceira e na quarta tudo foi abaixo. Um dos meus companheiros de corrida teve cãibras precisamente no quilómetro 34, algo que aconteceu por mais vezes depois. No entanto, heroicamente, sempre conseguiu recuperar e terminou a prova com o tempo de 3h38. O outro cruzou a meta com 3h36. Ainda tentei acompanhar os meus dois parceiros na parte final, mas definitivamente não aguentei. No quilómetro 40 procurei acelerar para tentar acabar a prova pelo menos antes das 3h40, mas, por duas vezes, senti indícios de cãibra e decidi não deitar tudo abaixo. Resultado: cortei a meta com o tempo de 3h42, desgastado e exausto, com dores musculares, dores que provocaram, por exemplo, tremedeiras nas pernas durante o alongamento.

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Se nos primeiros 30 km tínhamos uma média de 4m56 por km, entre os 30 e os 40 km a média subiu para 5m12 por km, com os últimos 2195 metros a registar dececionantes e agoniantes 6m34 por km (14m02 para fazer 2km195…). Ou seja, para uma prova que, em teoria, deveria fazer em 5m00 por km, acabei por fazer em 5m15 por km.

Ao contrário do esperado, não fiquei frustrado com o tempo. Pelo contrário, a sensação de ter cortado a meta foi semelhante ao dia em que alcancei até ao momento o meu melhor registo, 3h26. Na realidade, apenas um milagre poderia fazer com que alcançasse as 3h30, principalmente por dois motivos: os treinos que não fiz e o percurso da prova, mais difícil que esperava, principalmente a parte final (para atrair mais corredores, acreditamos que será obrigatória uma alteração do trajeto, pelo menos este último troço).

«Entre os nossos adeptos da modalidade, o grande desafio, contrariamente ao que acontece no estrangeiro, é ser corredor de Meia-maratona, qual cartão de visita suscetível de impressionar os desportistas amigos. A Maratona ainda não fascina, ou melhor, não motiva as gentes do pelotão, o que constitui algo absolutamente antagónico ao sucedido no panorama mundial (…) Hoje, quando alguém diz ter corrido a distância, quase sempre em provas no estrangeiro, a primeira pergunta que os colegas de treino fazem é a de saber qual a marca que foi obtida… Se o tempo for superior a 3 horas, o autor da proeza leva logo o “carimbo” de ter feito uma prova menor, quando, afinal, a grande glória está no facto de ter conseguido correr os 42195 metros! O nível de rendimento atlético é aferido apenas pelo cronómetro, deixado o tal factor “Aventura/Desafio” como algo sem significado e, na verdade, raros são os corredores capazes de possuir a condição física que os leve a completar a Maratona, situação que, em certos países, é vista como inerente a desportistas de eleição », escreveu o Professor Mário Machado na revista Spiridon na edição Setembro/Outubro de 2013.

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Após o término da Maratona do Funchal alcanço perfeitamente as suas palavras. Até ao momento, sempre corri tendo como objetivo apenas e só o tempo final. Agora sei a importância de terminar, seja qual seja a marca do cronómetro. O tal “carimbo” dos outros levo comigo com honra, sem vergonha pelo que alcancei. Afinal, na Maratona, o importante é, acima de tudo, terminar.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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