O cão que queria trincar Carlos Charrua no Marão

Carlos Charrua quase foi “trincado” por um cão no Ultra Trail do Marão, mas também sofreu com fortes dores no estômago. No penúltimo dia d´«A Semana do “não me lembro de chegar à meta de uma ultra naquele estado”», a meta está cada vez mais próxima, mesmo com estes inconvenientes…

 

Quando cheguei ao abastecimento de Gião, não estava famoso. Acabara de ter um stress com um cão que queria comer as minhas pernas e se não tivesse os bastões para me defender (ou paus como lhes chamou o c@br@o do dono…) tinha sido trincado à séria. O estômago começava de novo a ceder. A canja voltou a funcionar, mas as 8h30 de prova já começavam a fazer moça. O Ricardo bem insistiu para que eu ingerisse mais qualquer coisa, mas não dava, não podia insistir e arriscar que “fosse tudo para fora”.

Meia hora depois… BUM!!! Por volta dos 60 km o “homem da marreta” acertou-me em cheio. Algo lamentável, pois, até ao momento, aquela tinha sido a zona de trilhos mais bonita do percurso e portanto onde deveria estar mais a curtir. Dei por mim a arrastar-me por ali fora, a apreciar as paisagens fantásticas, mas, na verdade, não ia a desfrutar, estava a sofrer. Só já pensava em chegar ao próximo abastecimento para tentar salvar a “coisa”.

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A subida nunca mais tinha fim e chegar ao abastecimento da Travanca foi um suplício. Estive por lá uns bons 15 minutos a tentar encontrar o norte e… nada. Depois de ter ultrapassado o pesadelo dos problemas de estômago noturnos das últimas ultras, via-me agora de novo “à rasca”, a 20 km da meta. É aqui que se vê o que vale ter apoio externo, uma voz amiga a reconfortar. Não quero dizer com isso que os voluntários não tenham sido todos 5 estrelas, mas a verdade é que não é a mesma coisa. E não deve ser fácil, pois, naquelas alturas, vamos mal-humorados, fazemos birras como os putos e são os voluntários os que levam com isso tudo e ainda metem um sorriso para nos “enganar”.

Saí dali sabendo que me esperavam mais uns 400m D+ duros, exigentes e de novo com muita neve. Pouco-a-pouco o corpo foi “acordando” e assim que me apercebi que estava em condições de voltar a comer, «enfiei-lhe com dois géis e disse: Com isto já vou até à meta!!!»

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A cota voltava de novo a roçar os 1000m, desta vez de dia, com bom tempo, o que permitia desfrutar dos trilhos com neve e fazia as delícias dos apaixonados das selfies. Sem dúvida que a parte final da prova foi bem mais bonita e divertida. Os trilhos seguiam-se uns aos outros, ribeira para lá, salto para cá, descida entre árvores, saltos de pedras, uma delícia. Teria sido um espetáculo não viesse já com tudo o que é luz acesa e avisos sonoros ativados…

Nesta altura, o Rúben Monteiro e o Luís Leitão chegaram-se a mim. Foram os meus primeiros companheiros na noite anterior e antevia-se que seria com eles que iria chegar à meta. Tal como no início, correr acompanhado aqui fazia todo o sentido. O corpo já deu praticamente tudo o que tinha a dar e uma amena cavaqueira ajuda a descontrair, a enganar a falta de forças e a esquecer as dores, ou a DOR.

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Pedro Alves

Pedro Alves