Vento ameaça as 3h00 de Hugo Ferreira na Maratona do Porto

A preparação para uma Maratona é sempre complicada. Para Hugo Ferreira não foi diferente, ainda mais quando o seu objetivo era terminar a Maratona do Porto em menos de 3h00. Um desafio que ficou mais complicado devido ao vento que assolou a corrida.

 

O treino para esta prova começou com o planeamento dos treinos, baseados na minha experiência, alguns conhecimentos adquiridos por iniciativa própria e por conselhos de alguns atletas amigos. Dediquei o mês de agosto a construir uma boa base aeróbica, tendo treinado entre seis a sete vezes por semana, maioritariamente treinos confortáveis no qual a média semanal andava pelos 100 km.

Após este período, apostei numa fase de cinco semanas em que a média semanal rodava os 115 km e a estrutura semanal dentro do básico. Um treino de séries curtas, outro de séries longas, o treino longo ao domingo a ritmos confortáveis e rolar em torno de 1h10 nos restantes dias. Todo este período foi feito sem descanso semanais. Nas três semanas seguintes mantive a mesma estrutura, reduzi a carga para 100 km semanais, embora tenha começado a apostar nos longos com um ritmo forte. Foi nesta fase que fui a Meia de Ovar em treino e consegui bater confortavelmente o meu recorde pessoal, fixado este em 1h24. As últimas duas semanas reduzi progressivamente as distâncias, mantendo a intensidade de forma a chegar fresco e com energia na Maratona do Porto.

A preparação correu muito bem, com indicadores de confiança elevados. Sentia-me preparado para bater as 3h00, embora o fantasma dos quilómetros finais do ano passado estivessem sempre presentes. No dia de prova fiz tudo como manda as regras: acordei cedo, um pequeno almoço sem espaço para inovações. Cheguei ao Queimódromo e fiz um ligeiro aquecimento de 10 minutos. Dirigi-me ao pórtico de partida de forma a conseguir sair na frente. Enquanto esperava pelo tiro de partida, cumprimentei alguns amigos e fazia as minha contas mentais para que não cometer os erros passados, como sair demasiado rápido. O dilema era o quanto arriscar. Decidi que não baixaria o ritmo dos 4m00/km nem subiria dos 4m10/km, pelo menos enquanto o corpo permitisse.

 

Tudo preparado para a Maratona do Porto
Tudo preparado para a Maratona do Porto

 

Assim foi! Parti bem à frente e, em menos de 100 metros, já havia conseguido estabilizar o ritmo, embora ligeiramente abaixo do que tinha previsto. As parciais durante os primeiros 10 km andaram sempre entre os 3m52/km e 4m02/km. As sensações estavam ótimas, sendo que a passada fluía sem qualquer esforço e a respiração “super-tranquila”. Estava muito fácil rolar a ritmos de 4m00, tão fácil que acreditei que poderia baixar das 2h55.

Mantive o meu plano de hidratação e alimentação, tomando um gel e bebendo água sempre de 5 em 5 km. Não seria por esse motivo que haveria de falhar.

 

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Os próximos 10 km da prova continuaram muito tranquilos, desde o km 6 que o grupo em que seguia se tinha dispersado e seguia sozinho na corrida. Os ritmos mantiveram-se sempre no esperado entre 4m00 e 4m10, tendo passado a distância da Meia-maratona no tempo de 1h25m54 e a um ritmo médio de 4m04. Após a passagem desta distância, comecei a sentir um forte vento vindo de frente, o qual massacrava e desgastava a cada passada. Por instantes pensei que apenas teria que suportar ate à Afurada, pois aí, ao fazer o retorno, o mesmo vento me iria favorecer. Infelizmente assim não foi, pois o mesmo estava constantemente a mudar de direção. Embora ainda continuasse muito fresco, com boas sensações e a manter o ritmo com facilidade, sentia que aquele desgaste extra que o vento estava a provocar iria fazer-se sentir. A dúvida era quando…

O vento ameaça Hugo Ferreira

Mantive o ritmo dentro da média pretendida, tendo baixado apenas 2 segundos. Os km saiam entre 4m10 e 4m05 ate aos 32 km. Por volta do km 29 juntou-se a mim um companheiro de equipa, o Hélder Ferreira, ao qual  um quilómetro mais tarde também se juntou a minha amiga de treinos, a Mara Costa. Tive a companhia do Hélder até ao retorno no Freixo. Até aos 34 km tudo se manteve, altura em que o vento se tinha tornado bastante forte e insistentemente de frente. Dos 34 até aos 38 km comecei a sentir o enorme desgaste que o vento provocou. Os km saíram a 4m15, 4m16, 4m16 e 4m17. Estava a ser difícil manter o ritmo, mesmo com o incentivo da Mara, que me acompanhava, e do Márcio Carvalho, que entretanto se juntou a animar de bicicleta.

Baixar das 2h55 estava em risco.

Os últimos 4 km foram muito sofridos, o ritmo não conseguiu ir além dos 4m23/km e a média geral baixou para as 4m10. Passei o último checkpoint, aos 41,3 km, as 2h52m29 e apercebi-me que, se desse tudo até as últimas forças, ainda seria possível uma marca razoavelmente abaixo das 3h00.

Assim foi!

Juntou-se na reta final o meu amigo Ricardo Ferreira e dei tudo no início da subida em direção ao Queimódromo. Mas tão depressa acelerei como quase que caí ao chão com a súbita falta de forças que senti nas pernas. Os 200 metros de subida foram intermináveis e um sofrimento indescritível, mas, ao virar a curva, visualizar a meta e o relógio a entrar no minuto 56, uma nova energia me preencheu o corpo e fez com que terminasse a Maratona com um sprint de 200 metros a um ritmo de 3m00/km, de modo a não deixar fugir mais um precioso minuto.

 

O apoio sempre fundamental da família
O apoio sempre fundamental da família

 

Logo apos a conclusão da mesma, tive uma enorme quebra e demorei uns minutos a conseguir manter-me direito de pé. Mas ficou uma enorme felicidade de ter conseguido atingir a marca das 3h00 (2h56m36, 18,º classificado na categoria M35, 108,º da classificação geral). Dei tudo o que tinha para a conseguir! Ficou também a consciência de que, se as condições tivessem estado mais favoráveis, teria feito ainda melhor.

Sendo eu uma pessoa incansável na busca de novos limites e procurando sempre melhorar, já está em definição novos objetivos e novas marcas a perseguir. Fica também a promessa de, no próximo ano, estar mais uma vez a fazer a minha distância preferida, na cidade do meu coração, desta vez em busca de algo ainda melhor. Para já, como metas mais imediatas, irei focar-me em conseguir melhorar os meus resultados nos 10 km nas provas de dezembro e obter um novo recorde pessoal na Meia-maratona, desta vez em Viana.

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Pedro Alves

Pedro Alves

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