De “inválido” pelos médicos aos 100 km da Ultra-trail da Serra de São Mamede

carlosutsm

Os médicos proibiram Carlos Charrua de correr há cerca de dois anos devido a duas hérnias discais, que causavam fortes dores. No último fim-de-semana correu 100 km na Ultra-trail da Serra de São Mamede (UTSM K100).

 

Ajude-nos a crescer. Faça um LIKE na nossa página. Obrigado! 

 

Ainda faltavam uma série de dias e já não era capaz de dormir descansado com os nervos e a ansiedade a apoderarem-se de mim! O que levar vestido? O que levar calçado? O que comer? Que táctica iria usar nos abastecimentos? Estaria frio ou calor? Como iriam estar as minhas perninhas? Será que as costas iriam aguentar? BAHHHHHH!!!

Consultei… Ou melhor, macei mesmo amigos e conhecidos para recolher dicas e conselhos. Queria ter a certeza que ia o melhor preparado possível.

Era compreensível, pois a UTSM K100 seria o meu maior desafio desportivo de sempre (atenção, até ao momento…)

E pensar que, há praticamente dois anos, estava a ser operado a uma hérnia inguinal depois de ter corrido a primeira Meia-maratona. E que dois meses depois os médicos me “proibiram” de correr, na sequência do diagnóstico de duas hérnias discais por causas das dores insuportáveis que tinha… Agora me propunha a correr mais de 100 kms, com um desnível acumulado positivo de cerca de 3600 metros pelo meio da Serra de S. Mamede. Um misto de satisfação e de algum receio apoderou-se evidentemente de mim.

Na verdade, eu “tinha” cerca de 99% de “certeza” que, caso não tivesse nenhuma lesão grave, conseguiria concluir a prova. Encontrava-me no meu melhor momento de forma de sempre, com muito boas sensações e vindo de uma série de bons resultados em provas com distâncias entre os 30 e os 65 kms, tendo alcançado pódios em umas e ficado mesmo ali à beirinha em outras, naquele que eu classifico como o pior lugar de todos, o quarto…

carlosutsm3Curiosamente, esse também seria o meu maior problema, pois fazia com que aspirasse a fazer uma prova mais rápida, que consequentemente obrigaria uma maior concentração e uma melhor gestão do esforço, da alimentação e da hidratação. Evidentemente que isso poderia colocar em causa a minha certeza de que concluiria a prova, já que essa postura exigiria um esforço maior e portanto poderia aumentar o perigo de me lesionar, de desidratar, desfalecer, estoirar…

Para meu espanto, a sexta-feira até estava a correr bem demais. Estava tranquilo! Tinha feito uma boa viagem, levantado o dorsal cedo para evitar confusões, passeado pela zona, almoçado, descansado um pouco de tarde, jantado com família e amigos… Até que, por volta das 21h30, começou o frenesim. Equipámo-nos, preparámos os abastecimentos, o saco do PAC6 e lá fomos nós para a partida.

A ansiedade e os nervos começaram de novo a apoderar-se de mim. Eu bem queria contrariar a “coisa”, mas não conseguia. O ambiente dentro do estádio estava ao rubro. No palco, montado para o efeito, estava uma banda a tocar músicas dos Xutos, um concerto só para nós… Na pista, uma multidão de gente. Não os contei, mas entre atletas, amigos, familiares, populares e membros da organização, seriam certamente centenas e centenas de pessoas.

Estes momentos são fantásticos! Revemos amigos, tiramos as selfies da praxe, pomos conversas em dia, partilhamos e tentamos camuflar a dor e o sofrimento antecipado daquilo que nos espera… Basicamente, andamos por ali a enganar o tempo e os nervos até à hora da partida.

E foi aí que a barriga começou a andar às voltas. Desloquei-me para a linha de partida com o meu amigo Ezequiel e por ali ficámos, primeiro sentados, depois de pé a partilhar o stress e o desespero da contagem decrescente para o tiro de partida. Aqueles 17 minutos foram HORRÍVEIS!!! Corroeram-me todo por dentro. O barulho no estádio era ensurdecedor. Música dos Xutos, montes de gente a bater palmas, aos gritos, a fazer ovações, a dizer adeus…. Só por curiosidade: liguei o pulsómetro e ainda tive tempo para ser gozado, pois estava na casa das 60ppm. Ninguém numa partida daquelas está com aquele pulso!!! Também o relógio deveria estar stressado e esqueceu-se de acrescentar lá um “1”.

Último beijinho ao filhote, um piscar de olho à “Maria”…
3… 2… 1…
SIGA!!
Agora é que é!

Como a partida até não foi muito rápida, tentei seguir com os primeiros grupos para me posicionar para a entrada nos trilhos. Mas as pernas cedo se queixaram. Estavam tensas, duras, não queriam correr. Como se não bastasse, logo depois veio a dor de burro, resultado do mau aquecimento, da tensão muscular, da respiração descontrolada… E, para ajudar à festa, comecei a ficar enjoado, com cólicas e vómitos.

Andei assim cerca de 40 kms e só quem por lá anda é que sabe o que custa suportar aquilo. Volta e meia lá encontrava alguém com o mesmo problema. Uns a passar melhor, outros pior e outros mesmo a desistir por não aguentarem mais o sofrimento. Queria correr, mas volta e meia tinha de andar e até parar. Passei a noite toda nisto. Ao passar pelos PACs, o cheiro da comida e do suor dos outros atletas deixavam-me agoniado. Abastecia-me de água, que ainda ia conseguindo ingerir esporadicamente… E siga.

Ainda arrisquei um gel e umas marmeladas. Sabia que, se não comesse nada, mais cedo ou mais tarde ia desfalecer, mas pouco tempo duravam cá dentro. O frio e o vento muito forte no alto da serra transportava-nos para outro lugar. Nada fazia parecer que estávamos a correr no Alentejo, em maio. Diz quem lá esteve que a temperatura rondava os 5°C e, como eu não ia a produzir muito calor por ir mais devagar que o normal, acabei por ter uma maior sensação de frio.

Por volta das 4 da manhã comecei a sentir uma grande dor de cabeça e não consegui suportar o frontal. Aliviei várias vezes a tensão do elástico, mas o que me apetecia mesmo era tirá-lo da cabeça. Não fosse ter que usar os bastões para me auxiliar a progredir e era o que tinha acontecido.

Não vou mentir: a ideia de desistir passou pela minha cabeça por muitas vezes.

«O que é que eu ando aqui a fazer no meio da serra, de noite, a penar, quando a probabilidade de chegar ao fim é quase nula?»

Valeu o fantástico apoio e incentivo dos populares durante toda a noite. Havia-os por todo o lado. Nos cruzamentos, junto à estrada, perto das forças de segurança, enrolados em sacos cama à beira dos trilhos, no meio do nada… Nunca tal tinha visto! E valeu também o fantástico e decisivo apoio do David Gracias, que, em todos os PAC em que me encontrou, deu-me uma palavra de incentivo, se inteirou do meu estado físico, do que tinha comido, bebido, de como estava gerir a “coisa”. E ainda bem, pois parecia ser ele o único que ainda acreditava que aquele meu estado iria melhorar.

A verdade é que o momento que tantos apelidam como sendo o pior de uma ultra foi, para mim, o virar da página nesta história. A beleza do FANTÁSTICO nascer do sol, numa fusão de preto e tons de laranja, o ter podido livrar-me do frontal, além da maior tolerância do meu estômago à água, aos sais e à comida, deram-me um ânimo e uma sensação que ainda não tinha experimentado na prova.

Entrava agora num dilema: «Começo já a comer e a “encher o depósito” ou espero mais um pouco até esvaziar completamente o estômago dos líquidos e dos ácidos até ter fome?»

Optei pela segunda, mas claro está que, já sem reservas, acabei por desfalecer na parede do Marvão, pois fiquei sem forças e tive de me arrastar por ali acima. Só que estava pela primeira vez a ficar com a “saudável” sensação de fome e isso também me animava, pois parecia ter tomado a opção certa.

Chegado ao PAC6 dentro do Castelo, e já sem nada a perder, troquei calmamente de roupa, de calçado, besuntei-me de vaselina nas virilhas, axilas, costas e afins, coloquei protector solar, óculos e fui em busca de comida. Confesso que aqui fiquei desiludido com a organização pela primeira vez. Num posto daqueles, num PAC tão importante, merecíamos mais que uma sopa quente e umas tâmaras…

Lá segui então descida abaixo, mais reconfortado, até que começaram a surgir outro tipo de problemas…

Primeiro: o piso em calçada romana, que era duro, duríssimo, com os pés a não aprovar a troca de sapatilhas, tendo andado quase uma hora até me sentir confortável.

Segundo: a barriga a começar a dar cambalhotas.  Valeu-me um maço de lenços de papel que tinha encontrado caído no chão durante a noite e que tinha guardado na mochila…

Comecei a alimentar-me e a hidratar-me com regularidade. As sensações eram cada vez melhores, sentia-me cada vez com mais força e, por volta do km 67, só me apetecia correr.

Acabava de perceber, pela segunda vez e em poucas horas, o sentido da famosa expressão “Morri e renasci…”.

Curiosamente, fiz os 20 kms seguintes com o Javier Garcia, a mesma companhia que tinha tido no I Trail Vicentino da Serra, em 2014, também ele em Portalegre.

carlosutsm1Se, durante a noite, tínhamos tido muito público, então de dia foi algo indescritível. Mesmo com aquele calor todo havia gente por todo lado, que gritava, apoiava e incentivava os atletas das várias provas.

Finalmente estava a desfrutar da corrida, da prova. Mesmo debaixo de 35°C, e eu não me dou bem com o calor, estava a ter muito boas sensações. Os atletas das distâncias mais curtas que íamos ultrapassando não se cansavam de nos incentivar, éramos os seus heróis… Comecei a ouvir algumas frases que serviram de incentivo:

«Xiiiii, já vai com 80 kms nas patas e ainda corre que se farta»
«Zé, deixa passar o homem que ele vai embalado»
«- Olha, aquele vem lançado… é dos 42 ou dos 100?
– Dos 100?
– Mas também já corre há muito tempo, né?…
– Cerca de dois anos
F….!!!»

Essas frases e diálogos foram oxigénio naquela altura! O percurso tornava-se cada vez mais técnico e diversificado, o que ainda me agradava mais. Volta e meia surgiam fontes com água gelada  e lá ia eu, como os pássaros, colocar a cabeça debaixo das bicas para refrescar.

Só que o calor começava a apertar e, por volta do km 90, comecei a sentir-me novamente enjoado e a perceber que o corpo já estava a começar a rejeitar os sais quentes, deixando-me receoso que o mesmo acontecesse com a água…

E, quando a moral estava de novo a ir abaixo, eis que surge novamente, e do nada, o “mestre” David Gracias e o Pedro Lizardo, que, juntamente com os populares que estavam na berma da estrada, deram a força e o incentivo que faltava para os 10 kms finais. Fui por ali acima direito à Ermida da Penha, parecia que não tinha corrido nada! Foi sempre a pensar nas palavras deles e na expectativa que tinha criado da entrada no estádio que fiz o que restava. Muitos se queixaram dos 269 degraus das famosas escadas da Penha, mas confesso que as fiz a correr, sem esforço nenhum. E ainda deu para ajudar um rapaz a descer, que vinha com tantas cãibras que até dava pena…

A parte final foi absolutamente espectacular! Tal como tinha acontecido na altura da partida, também à chegada o estádio estava ao rubro. Enquanto dava a volta final à pista, a minha chegada era anunciada pelo speaker e aplaudida por dezenas, centenas, “milhares” de pessoas espalhadas pelas bancadas, pela relva, pela pista… Estavam a tratar-me como um verdadeiro herói!

carlosutsm2E, bem lá ao fundo, a correr na minha direcção, vinha o meu maior fã e a mãe!…

Corremos os últimos 50 metros de mãos dadas e passámos a meta juntos. Só quem tem o privilégio de poder passar por uma situação destas é que percebe que, naquele momento, ficamos anestesiados, esquecemos o tempo ou as classificações, que temos dores, que estamos mal dispostos, que temos bolhas nos pés ou com as virilhas em ferida… Ficamos tão leves e frescos que até causa incómodo de tão bom que é.

Afinal, foi por ter sonhado tanto com aquela imagem, por ter querido tanto aquele momento, por ter desejado tanto passar por aquele conjunto de sensações, que suportei todo aquele sofrimento desesperante durante a noite e todos os enjoos e padecimentos que foram surgindo durante o dia.

Afinal, tinha valido a pena!!!

Mas a “festa” ainda não tinha acabado e, passada toda aquela euforia, pouco a pouco a “máquina” foi-se indo abaixo até que entrou em colapso, com o regresso dos enjoos, dos vómitos, das cólicas, dores abdominais, arrepios de fio e tonturas… Virei um “farrapo”!

Como só havia água gelada para os banhos e eu não me queria meter lá debaixo naquele estado, fui esperando, esperando, acabando por andar perto de uma hora de um lado para o outro, rebolando-me pelo chão, procurando um local fresco e uma posição confortável… Mas nada!

Já preocupadíssima, a minha companheira, Elsa, foi ter comigo para irmos ao posto médico para que me observassem e vissem o que podiam fazer. Claro que, depois de algumas análises, já de lá não saí. Desidratado, com a glicémia a 64 e sem ser capaz de comer ou beber nada, tive logo direito a uma caminha, uma garrafinha de soro e mais umas “seringadelas” de reforço de sais, açucares e medicação para os enjoos. Meia hora depois estava como… NOVO!!!

Se no que toca aos abastecimentos eu achei que a organização poderia ter gerido a coisa melhor, no que toca ao atendimento médico não tenho nada a apontar. Enquanto lá estive (acordado) apercebi-me da quantidade e diversidade absurdas de problemas com que os atletas chegam à meta. Incrível o trabalho e a dedicação daqueles médicos, enfermeiros, fisiatras… Realmente cinco estrelas!

Gostaria de deixar mais uma vez um enorme obrigado a todos pelo apoio antes, durante e depois da prova. O Trail tem esta magia, de parecemos uma grande família, mesmo sem nos conhecermos. É que, na verdade, cada um à sua maneira, vamos todos em busca do mesmo.

Quero também deixar os parabéns à organização pelo acolhimento, pelo percurso, pela excelente marcação, pela dedicação, pelo ambiente contagiante gerado naquele estádio e no meio do campo, por me terem proporcionado uma experiência, ainda que dura, fantástica. Afinal de contas, foi a minha primeira Ultra de três dígitos e, inevitavelmente, terei sempre um carinho especial pelo UTSM.

 

Tempo final: 13h45m05’’

Classificação geral: 58.º

Classificação M40: 11.º

 

FOTOS: André Tavares (Photoshot – Digital Photography)

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

Gostou? Partilhe pelos amigos