Crónica da Maratona de Berlim: deu recorde do mundo, mas não deu recorde pessoal

Em 2017, e com alguma surpresa, Ruben Costa foi sorteado para participar da Maratona de Berlim. No entanto, e devido ao nascimento do seu primeiro filho, que nasceu uns dias antes da prova, acabou por falhar a corrida. Um ano depois, finalmente concretizou o sonho de correr nas ruas da capital germânica, precisamente no dia em que o queniano Eliud Kipchoge superou o recorde do Mundo da distância: 2h1m40. Esta é a sua crónica.

 

Cheguei sexta-feira para ter tempo de me ambientar à cidade, que já conhecia, mas principalmente para ir com calma à Feira do Corredor. Deixadas as malas no apartamento, rumei em direção ao antigo Aeroporto Tempelhof. Já me tinham dito que a feira estava localizada num espaço incrível e, ao chegar, comprovei isso mesmo. O local “cheirava” a Maratona Internacional, já que, por todo o lado, conviviam corredores asiáticos, sul-americanos, europeus, etc. E o espaço era realmente incrível!

A Feira do Corredor dividiu-se entre quatro enormes hangares e ainda parte da pista de aterragem. Havia de tudo: roupa, calçado, acessórios, nutrição, stands dos promotores da prova, merchanddising, etc. Um verdadeiro mundo, tudo muito bem organizado. Sem problemas, levantei o dorsal e o resto do kit. Durante a inscrição tinha reservado a T-shirt do evento e a T-shirt de finisher, que levantei igualmente na feira. A vontade era tanta de mostrar que iria participar na Maratona que vesti logo a T-shirt do evento, uma bonita camisola amarela com riscas azuis. Só a tirei para me deitar…

O dorsal de Ruben Costa na Maratona de Berlim
O dorsal de Ruben Costa na Maratona de Berlim

Sábado, dia da “breakfast-run” da Maratona de Berlim

Iria ser uma corrida em ritmo tranquilo, entre o palácio de Charlottenburg e o Estádio Olímpico de Berlim, com um pequeno almoço no final. Seria um primeiro contato com corredores de todo o mudo. Na véspera tinha combinado com um outro português, o Ricardo Areias, que se juntou a mim acompanhado por uma amiga, a Joana Moura. O Ricardo é um veterano desta prova, já que participaria pela quinta vez da corrida, além de ter participado uma vez na Meia-maratona. Para a Joana seria a primeira vez.

Ruben Costa com os companheiros da Maratona de Berlim, a estreante Joana Moura e o veterano Ricardo Areias
Ruben Costa com os companheiros da Maratona de Berlim, a estreante Joana Moura e o veterano Ricardo Areias

O ambiente era incrível. Atletas mascarados de Elvis, de TeleTubbies, etc. Um verdadeiro convívio internacional com pessoas literalmente de todo o mundo: Japão, Taiwan, Brasil, Chile, Costa Rica, Alemanha, Dinamarca… Todas orgulhosas por mostrar a sua bandeira. O percurso era acessível e deu para esticar as pernas e ir falando com o Ricardo, que, sendo um veterano desta Maratona, foi-me dando informações sobre a partida, percurso, etc.

O final desta corrida/treino de 6km seria no interior do incrível Estádio Olímpico. Incrível a sensação de entrar e pisar a pista. No fim, um pequeno-almoço com água, leite com chocolate, fruta, croissants e também a famosa bola de Berlim, não com recheio de doce de ovo, mas com recheio de doce de cereja e cobertura de açúcar em pó.

Terminado o “último treino” antes do grande dia, tempo para trocar de roupa, vestir uma vez mais a T-shirt do evento e passear por Berlim, embora sem andar muito porque, no dia seguinte, tinha a Maratona para correr.

Domingo, dia D da Maratona de Berlim

Às 6h30 tocou o despertador. Tinha chegado o momento. Dormi relativamente bem e acordei bastante calmo. Estava a cerca de 25 minutos de transportes para a zona da partida e por isso fui calmamente até lá, sem pressas. Nos transportes já vinham os corredores vestidos e igualmente prontos para a Maratona. Chegado à estação Brandenburg, andei uns metros e, à frente do parlamento, estava a zona de entrada no espaço restrito aos corredores, tudo muito bem organizado e identificado.

Sem pressas fui-me dirigindo para a zona do meu bloco de partida, onde cheguei uns 20 minutos antes, sem apertos e empurrões, tudo muito calmo e relaxado. No interior do bloco de partida, vi nos ecrãs gigantes a partida da primeira vaga, com os corredores de elite. Pensava que também iria sair na primeira vaga, mas tive de aguardar mais 10 minutos.

Feita a contagem decrescente, e passado o pórtico da partida, foi o momento de pressionar o botão de start do meu relógio, ligar o chip de competição e seguir em frente. “Vamos para mais uma maratona!” Durante a preparação defini como objetivo tentar um tempo próximo das 3h15 e por isso pretendia controlar muito bem a média, quilómetro a quilómetro.

A minha prova na Maratona de Berlim

O início do percurso era fácil, em ligeira descida numa avenida larga, sem problemas. Os quilómetros passavam e estava a sentir-me bem, com passadas soltas e sem dores. Estava confortável e a manter uma média que me permitia atingir o objetivo. O percurso continuava sem apertos, por ruas e avenidas largas, cheias de pessoas nos passeios a apoiar, muitas crianças a pedir “high five” e muitas bandas a animar os corredores.

Os abastecimentos eram bons mas, por vezes, um pouco caóticos, já que tínhamos de ter muita atenção para não chocar com alguém ou mesmo escorregar no chão molhado.

Os quilómetros continuavam a ser ultrapassados e cheguei à marca da Meia-maratona perfeitamente dentro do tempo planeado, com margem para gerir o tempo final. Mas, mais ou menos à passagem do km 25, comecei a sentir uma dor no joelho esquerdo, que me fez começar a baixar o ritmo. Com o passar dos quilómetros comecei a perceber que não tinha treinado o suficiente nem feito treinos longos suficientes para resistir à distancia. Aproximava-me do quilómetro 30 e as sensações já não eram as melhores. Reduzi e fui gerindo, resistindo à tentação de parar e começar a andar.

Ruben Costa na Maratona de Berlim
Ruben Costa na Maratona de Berlim

A perspectiva de recorde pessoal começava a ficar mais distante, praticamente impossível de atingir, e por isso desliguei o chip de competição e procurei manter um ritmo calmo e confortável até o final. E assim foi! Os quilómetros passaram sem que desse por isso: do 34 chegou o 36 e, de repente, o 40. “Ruben, esta Maratona está feita!”.

Virei à esquerda e as portas de Brandenburg indicavam que o fim estava já ali. Ver a minha Cláudia e o meu pequeno Tiago a apoiar, já dentro do último quilómetro, deu-me a última força para fazer os últimos 400 metros até à meta. Puxei da bandeira de Portugal e corri com ela ao vento para mostrar a todos que este anónimo português tinha conseguido. Passei a meta orgulhoso, baixei a cabeça para receber a medalha e beijei-a com a sensação de dever cumprido. Tinha concluído a minha 4.ª Maratona e a minha 1.ª World Marathon Major, a Maratona de Berlim.

Restava seguir o trajeto para a saída e beber o enorme copo de cerveja sem álcool oferecido pela organização.

Infelizmente, o tempo final não foi o melhor, nem próximo do melhor, foi apenas o meu terceiro melhor tempo na distância. Terminei com o tempo de chip de 03h28m11, mas o importante foi ter conseguido participar e correr todo o percurso, concluindo a Maratona sem problemas, feliz e orgulhoso.

A próxima Maratona? A do Porto, já no dia 04 de novembro…

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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