Corro mas o mérito é dos outros

sommer

Luis Sommer Ribeiro credita muito do seu provável sucesso na conclusão do Ultra Trail de Mont Blanc a família, treinador, amigos e desconhecidos. «Além do querer, que no meu caso vem antes de qualquer esforço, tenho muito pouco mérito num eventual sucesso que venha a ter», defende o Batman do CORREDORES ANÓNIMOS.

 

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Método!

Joguei rugby durante mais de 15 anos.

Nos últimos anos em que joguei, e vários depois de parar, treinei equipas de jogadores com idades entre os 15 e os 18 anos.

No ano passado pediram-me para dar uma ajuda aos pequeninos, as crianças que ainda não têm idade para jogar mas, como têm irmãos mais velhos a treinar, vão ver os treinos e por isso é bom entretê-las com alguma coisa relacionada com o rugby para os ir integrando no desporto.

A primeira coisa que fiz, mesmo antes de aceitar o desafio, foi estudar. Mesmo estando envolvido durante 20 anos no desporto, como jogador e treinador, bastou que mudassem um elemento aos que conhecia e dominava para ir estudar. Passei dias e dias à procura de testemunhos de psicólogos, professores e pais que dissessem o que é suposto ensinar a crianças de 4 a 6 anos, dentro do desporto.

Isto para dizer que eu não sou o habitual desportista.

O desporto é uma coisa que eu levo muito a sério. Por isso, quando fiz a Maratona, antes de começar a treinar, emergi-me em livros e livros, estudos e mais estudos, planos e mais planos. E, com toda esta informação, fui desenvolvendo o meu próprio plano de treinos.

Fui e fiz. Acabei a Maratona um bocado desiludido com a prova, pois, apesar de saber que corri o máximo que conseguia, não achei uma coisa com um grau de dificuldade assinalável. Aliás, fiz “negative split” (a minha segunda metade foi mais rápida que a primeira).

Por este motivo fui sempre eu que planeei os meus treinos. Até deixar de o fazer…

Quando me lancei na primeira prova de 100kms tinha um plano estruturado, dentro daquilo que tinha aprendido com o estudo que fiz para a Maratona e que depois complementei para o trail. A questão foi que o plano era demasiado ambicioso para mim e baseado em premissas de esforço erradas. Por este motivo, ao que acresceram circunstâncias pessoais desfavoráveis, tive uma pequena lesão por excesso de esforço. Passei um par de semanas em que, ao fim de uma hora de treino, ficava inevitavelmente com cãibras.

Foi também por volta desta fase de reajuste do plano que comecei a fazer as minhas primeiras Ultras e descobri que se podia andar em prova e até que o Trail não era uma corrida contínua, mas uma corrida de progressão, sempre nas condições que nos fossem apresentadas.

Com isto fui abandonando os planos de treino e fui-me deixando andar de Ultra em Ultra. Treinando, sem método, nos intervalos. Os 50kms da prova de janeiro serviam de treino longo para os 60 da prova de fevereiro e assim sucessivamente…

E conheci o tal muro de que se fala nas Maratonas… Mas aprendi mil formas de o ultrapassar. Com isso veio a sensação de invencibilidade. Eu sei tudo! Faço os meus planos, que não cumpro, mas treino. E de facto treinava e muito… Mas rebentava em todas ou quase todas as provas. Depois era questão de dar a volta e acabar o que tinha começado.

Até que veio a Madeira… No MIUT 2014, quando rebentei, não houve nada a fazer, estava fora de prova  e não havia volta a dar.

Como não pus em causa a minha incompetência técnica como treinador, coloquei em causa a minha competência como corredor. E desisti das Ultras, como aqui já disse, até à Freita, que, por qualquer milagre, consegui acabar.

Com isso voltei a ganhar confiança e voltei a inscrever-me para o MIUT e candidatei-me ao UTMB. Por sorte, entrei.

Foi aqui que vi a minha vidinha a andar para trás…

Embora desta vez, antes de saírem os resultados do UTMB, estivesse novamente a seguir um plano todo “pimpão” que eu tinha preparado, com muito estudo e cuidado, diga-se, eu sabia que não era suficiente.

Foi por isto que liguei ao meu treinador actual a pedir ajuda…

Foi difícil convencê-lo que eu tinha alguma hipótese de conseguir os meus objetivos. De todas as provas que queria fazer este ano, disse que só tinha olhos para o MIUT e o UTMB, tudo o resto era preparação…

Jurei obediência e dedicação total ao plano que me fosse dado, mesmo depois de descobrir que isso implicava não fazer qualquer prova além das duas principais.

Enviei o plano ao meu treinador, para lhe mostrar como andava a treinar nas semanas que antecederam a nossa conversa e também como tinha estruturado a preparação. Em resposta tive um plano que tem zero semelhanças com o meu.

Tudo diferente: o tipo de treinos, a unidade de medida do esforço, tudo!

Mais uma vez tive de ceder no treino e deixar praticamente de treinar em grupo e em montanha. No total, 80% dos meus treinos passaram a ser sozinho e em estrada. Treinos estranhíssimos para mim. E, como deixei de ir a provas, deixei mesmo de ter referências em relação à minha evolução.

Nos treinos longos continuava a ficar para trás em relação ao grupo, mas ia-me convencendo que era por ter as pernas cansadas da carga.

Chegou o MIUT e o máximo que podia fazer era aplicar a frase do Santo Inácio de Loyola: “Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus” (ou, neste caso, do meu treinador). O telefonema na véspera da prova não foi o mais animador: “Tu vais rebentar! Por isso, tenta conseguir progredir o máximo até rebentar para não ficares fora dos controlos e depois tenta gerir a dor até ao fim.”

Assim fiz. E consegui… Acabei o MIUT de forma bastante satisfatória para uma pessoa com as minhas condições.

Mas, mais do que isso, percebi, por sentir na primeira pessoa, que o método do meu treinador funciona, percebi a vantagem de ter um par de olhos, fora dos nossos, a ver os nossos movimentos e a corrigir o que é corrigível.

Claro que sou eu que participo nas provas e quem corre nelas, mas credito ao meu treinador pelo menos 30% do meu sucesso.

Daí que, na escala da responsabilidade, em caso de sucesso, a família seja metade, porque é quem me permite ter as condições psicológicas para treinar, mas quem também tem de se esforçar mais para me dar tempo para o fazer e depois tempo para recuperar.

Ao treinador atribuo os cerca de 30% porque o plano é, pelo menos, um terço do trabalho que tenho. Para uma pessoa como eu o difícil é não cumprir o plano, mesmo numa semana que pareça impossível. As coisas têm de se fazer, fazem-se; se eu sei, e confio no meu treinador, que para conseguir o UTMB é preciso fazer X, eu faço X, custe o que custar, doa o que doer.

Se atribuir mais um décimo da responsabilidade, que acho devida, a todos os restantes fatores positivos com que conto, desde o apoio dos amigos, aos conhecidos, aos que, não sendo nem uma nem outra, me dão uma força, sobra muito pouco para mim. Sem falsas modéstias! Além do querer, que no meu caso vem antes de qualquer esforço, tenho muito pouco mérito num eventual sucesso que venha a ter. Limito-me a tentar estar à altura do que me é pedido e, sobretudo, do que me é dado.

Ter um treinador tem sido absolutamente primordial na minha evolução. Sei que, com mais alguma dedicação, sobretudo na parte da perca de peso, seguindo aquilo que me é indicado, os meus objectivos se aproximam muito mais.

 

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 * para ler as anteriores crónicas, clique abaixo no nome do autor

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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