Como é correr a Maratona de Paris… descalço

«Sempre ouvi dizer que a Maratona de Paris era das mais belas do mundo. Por isso, quando apareceu a oportunidade de participar na edição de 2015, não hesitei em me inscrever um ano antes. Nunca tinha corrido uma Maratona, mas um ano daria seguramente para me preparar. Só havia um pormenor que me preocupava: desejava mesmo muito correr os 42,195 km… descalço!» E conseguiu! Esta é a crónica de Bruno Martins.

Chegada a hora de embarcar para Paris fiz a mala com o equipamento necessário, incluindo o calçado minimalista com que geralmente ando, além de muita esperança à mistura, já que a minha confiança era relativa. O piso de Paris preocupava-me muito.

Na porta de embarque em Lisboa, uma senhora francesa reparou no meu calçado, com os dedos todos separados e individualizados, e questionou-me se eram confortáveis. Disse-lhe que sim, «muito confortáveis», e que andava com eles diariamente. Um dos amigos que a acompanhava interveio e acrescentou que eram umas sapatilhas de corrida, o que espantou muito a amiga. Perguntou-me se eu corria assim, ao que eu lhe respondi que não. «Na verdade eu corria descalço…» Ficaram todos espantadíssimos e perguntaram-me se não era difícil correr descalço. Respondi-lhes que depois de estar habituado era até muito fácil e que estava precisamente a embarcar para Paris, para fazer a maratona descalço. Desejaram-me «bonne chance» e despediram-se. Muito simpáticos, como a esmagadora maioria das pessoas que me aborda sobre eu correr descalço.

Cheguei a Paris na sexta-feira antes da prova e, depois de me acomodar no hotel, dirigi-me para a feira onde se levantavam os dorsais. Logo ali fiquei muito bem impressionado com o que vi. Não havia filas! Fui apresentar o atestado médico para ser validado. As pessoas que nos recebiam acenavam, pois esperavam os seus “clientes”, não havia tempo de espera. Demorei quase nada nesta primeira etapa.

Dirigi-me para o segundo balcão para levantar o dorsal. Procurei o balcão que pertencia ao meu número e verifiquei que estavam duas pessoas, um casal a atender e zero “clientes”. O homem reparou imediatamente nas minhas sapatilhas e referenciou-as abertamente à colega, que se debruçou sobre o balcão para as apreciar. A conversa foi muito idêntica à ocorrida horas antes no aeroporto. «Vai correr com isso? Não? Vai correr descalço?! Olhe, boa sorte… (Ils sont fous ces Portugais!)» Muito espantados mas sempre simpáticos. Restou-me ir levantar o saco com as lembranças, que voltou a não ter qualquer tempo de espera, e dar uma volta pelo recinto. Sábado foi dia de descanso e de alguma ansiedade. Combinei com uns amigos portugueses o encontro a cerca de dois kms da partida, 45 minutos antes do tiro, e coloquei dois despertadores.

Os despertadores não chegaram a tocar, tal era a ansiedade. Como tinha bastante tempo, vi e revi a checklist mental das coisas que tinha de levar, incluindo uma pequena mochila de trail que passei a usar quando comecei a correr distâncias mais longas. Além de me hidratar mais facilmente, consigo levar as sapatilhas sem ter de ir com elas nas mãos. Como ainda não tinha muita fome, bebi um sumo de laranja natural e comi uns pistácios. Embrulhei um croissant com fiambre e o resto dos pistácios e do sumo de laranja para beber pelo caminho. Mas acabou por ficar tudo no quarto…
bruno1À chegada ao ponto de encontro só pensava em comer alguma coisa, não porque tivesse fome, mas porque sabia que, daqui por uma hora, quando já estivesse a correr, estaria esfomeado. Lá comi um croissant num café e fiquei mais aliviado. Mesmo assim, quando apareceu o primeiro colega de corrida, foi com bastante agrado que aceitei uma banana que ele me ofereceu. Agora tinha a certeza que não iria começar a correr com fome.

Lá arranquei em direção à zona da partida, num aquecimento ligeiro, e ainda com as sapatilhas minimalistas calçadas, para poupar as solas. Encontrada a minha porta, entrei e coloquei-me o mais para o fim que consegui. Isto porque, quando escolhi o bloco de onde iria partir, apenas tinha como referência os tempos da corrida calçada. E, nessa altura, fazer uma maratona em pouco mais de três horas eram perfeitamente atingível. Provavelmente deixar-me-iam entrar num dos blocos mais atrás, mas eu não queria chamar mais atenção. Acomodado no final do bloco, mantive-me calçado até cinco minutos antes do tiro de partida. Mesmo assim já tinha uns bons pares de olhos a mirarem as minhas sapatilhas minimalistas e uns outros tantos sussurros que não percebi.

Quando me descalcei e arrumei as sapatilhas na mochila, chamei mais à atenção, mas mesmo assim ninguém me dirigiu a palavra, só olhares inquisidores. Depois da elite partir, começaram todos a chegar-se mais para a frente. Foi quando um primeiro atleta me abordou. «Vai correr descalço? Formidável! Boa sorte!» Agradeci e retribui o desejo. Por esta altura estava estranhamente calmo, apesar de ter algum receio de não conseguir terminar.

Chegada a hora de partida do meu bloco, comecei, como planeado, num ritmo calmo, acima dos 5m30. Tinha a avenida toda para descer e o piso era de paralelos. Felizmente não tão mau como pensava, pois era quase suave, sem muitas irregularidades. No entanto, senti o meu corpo a contrair, como defesa, o que é mau, pelo que tentei descontrair o mais possível. Tenho mesmo aversão aos paralelos. Ainda durante a descida começaram os comentários, pois quase todos os atletas do meu bloco e do bloco seguinte começaram a ultrapassar-me. O meu ritmo era manifestamente mais baixo que o deles. Uns diziam simplesmente «Olha, vai descalço». Outros desejavam boa sorte e coragem.

Muita gente me desejou coragem.

Admito que o que fiz possa facilmente ser entendido como algo corajoso. Comecei a descontrair cada vez mais e, quando os paralelos acabaram, estava já em “modo passeio”. É algo que costumo referenciar quando estou a correr quase sem esforço. Relaxado. Comecei a apreciar a vista de uma das mais belas maratonas do mundo. O mar de pessoas é impressionante durante quase todo o percurso. Foi quando percebi que os espectadores começaram também a reparar nos meus pés. Perdi a conta as vezes que ouvi as palavras «pieds nue».

Curiosamente, comecei a ouvir as palavras «Allez Bruno, courage!». Pensei que haveria perto de mim um francês com o mesmo nome do que eu e que tínhamos acabado de passar por familiares ou amigos. Uns metros mais à frente, novamente a mesma frase: «Allez Bruno, courage!» «Bolas, que este tipo é mesmo conhecido, mas onde estará ele?!?» Ao terceiro «Allez Bruno, courage!», fez-se luz…

Foi um excelente incentivo perceber que desconhecidos me estavam a apoiar, não que precisasse nesta fase de forças, mas de fato senti-me de energias renovadas. Os quilómetros foram passando e diversos atletas me abordaram, alguns abrandavam o passo para me acompanharem e fazerem algumas perguntas. Ainda bem que ia num ritmo desafogado para conseguir conversar. Os primeiros 10 km passaram num ápice. Lembro-me de ter visto a placa e pensado: «Já?! Querem ver que eu ainda acabo isto?!»

Estava-me a sentir bem e, dado que o piso era quase sempre um alcatrão não muito desgastado, as “solas” também estavam bem. Ao km 20 comecei a pensar: «Bem, isto está quase a metade. Se calhar vai ser um passeio.» Mais cedo eu tivesse este pensamento e mais cedo eu sentiria uma dor no dedo grande do pé esquerdo. A princípio era muito subtil, mas depois começou a crescer, a crescer, ao ponto de já não conseguir colocar o pé todo no chão. A juntar a isto estava a passar um cruzamento parisiense todo forrado de paralelos.

«Bolas», pensei. «Isto estava a correr tão bem. Não deve ser um vidro.» Sinto bem quando um vidro se espeta e a dor não era coincidente. Como a dor não passava, pensei que tinha de parar para ver o que se passava com o dedo. Encostei-me a um carro que estava estacionado e com a esponja que nos tinham dado para a molharmos e refrescarmo-nos comecei a limpar o dedo para ver o que se passava. Não consegui identificar nada. E o mais estranho foi que, quando passei repetidamente a esponja, não me doeu. Estranho mas esperançoso. Resolvi continuar. A dor mantinha-se mas, e talvez isto fosse sugestão ou simplesmente um desejo muito forte, parecia que estava muito tenuamente a diminuir. Pensei que ainda havia esperança e lá continuei, procurando relaxar o mais que podia, apesar das dores.

bruno3Passado menos de um quilómetro comecei realmente a sentir menos dores. Animei e consequentemente relaxei ainda mais. Foi precisamente aí que as dores desapareceram por completo. De vez em quando olhava para o dedo para ver se identificava algo, mas tudo parecia normal.

O km 30 chegou e eu comecei a acreditar que era possível alcançar o fim. Várias pessoas continuavam a desejar-me sorte e coragem, ao que eu agradecia ou estendia o polegar. Quando senti uma mão no ombro e um atleta a balbuciar umas palavras impercetíveis, fiz o mesmo. Polegar para cima, apesar de ter achado um pouco descabido ele estar-me a colocar a mão no ombro. Enfim devia ser costume lá no país dele. Não era francês. Este atleta ia a um ritmo considerável e rapidamente passou por mim. Tinha uma pequena bandeira estampada nas costas que não consegui identificar. Foi quando reparei num pormenor muito interessante, que justificou a mão no ombro. Que diabo, ele até me poderia ter abraçado que eu não levaria a mal. O atleta ia descalço!

Nesta altura, apesar de não estar propriamente muito cansado, os pés começavam a reclamar. Por isso, um incentivo destes era mesmo o que eu precisava. O piso que se seguiu era horrível. Pelo meio de uma aparente mata, com uma aparente pista de ciclistas demasiado gasta. Aquilo parecia lixa. Avidamente procurava faixas brancas de tracejado, mas elas escasseavam. «Ahhh, como eu gosto de um belo traço contínuo.» Nestas alturas de aflição gosto de pensar nas frases de incentivo que os meus amigos me foram dando ao longo deste ano de preparação. E foi o que fiz, para ver se aquele piso horrível passava mais depressa. Depois veio mais paralelos, mas estes não eram muito lisos. Eram um bocado “beras”. Até os corredores calçados os evitavam e procuravam as bermas. Felizmente durou pouco tempo e recomeçou o alcatrão mais normal. Menos mal. Pior que começaram as subidas. Pouco íngremes, é certo, mas era uma atrás de outra.

Alegrava-me imenso os pontos musicais por onde fui passando, com bandas a tocar ou tambores a rufar. Depois veio o túnel. Aqui viam-se discotecas improvisadas com raios laser a baloiçar entre os atletas. Depois do túnel, mais subidas. Mas estava quase, mesmo quase. Não fosse aquela surpresa do dedo, que volta e meia me tornava a dar sinal, e por esta altura já poderia ter a certeza que terminaria a prova. Faltavam 5 km. «O que é isso», pensei eu, agora que as “solas” estavam mesmo a reclamar e o estômago também.

Tinha fome! Seria normal? Fui continuando, com a sensação de estar quase sempre a subir, a um ritmo mais moderado. Tinha prometido a mim mesmo, durante a maratona, que, se chegasse bem ao km 40, não ia tentar acelerar para ganhar tempo. Esse não era o objetivo. O objetivo era acabar. Por esta altura, além dos atletas que faziam a maratona, ora a andar ora a correr, já ninguém metia conversa comigo. Provavelmente já não havia fôlego para isso. A partir daqui fui olhando para o relógio para ver quanto faltava para acabar, estava mesmo quase. De repente lá apareceram novamente os paralelos numa curva, mas logo de seguida conseguia-se ver a meta lá ao fundo.
Mantive o ritmo, sem euforias, porque essas deixei-as para cortar a meta, que fiz, literalmente, a dançar ao som da música que passava no momento. Logo que passei a meta, um dos voluntários que para ali estava perguntou-me se tinha corrido a maratona toda descalço. Respondi-lhe que sim e ele perguntou-me se tinha sido muito difícil. Disse-lhe que não. E não foi!

Uma maratona não é suposto ser um passeio, tem de haver alguma dificuldade. Apesar de que, acredito, se não tivesse sido o episódio do dedo tinha sido um passeio. Estava muito satisfeito com o meu tempo, 3h46. Calcei as sapatilhas minimalistas e fiz alguns alongamentos. Levantei a camisola de finisher e a medalha e depois a fome levou-me diretamente ao festim de fruta e passas que se me apresentava mais à frente. E que bem que me soube!

Voltei para o hotel e fui verificar os pés. Sujos, muito sujos, mas tudo OK. O tal dedo grande apresentava-se algo negro, mas sem nenhuma ferida. Já nem me doía. Depois de lavado e vestido de fresco resolvi sair para ir jantar a um restaurante que ficava a um quilómetro do hotel. Fui a correr! Demorei seis minutos. Depois do jantar voltei ao hotel, a correr. Demorei cinco minutos. Nada me doía, apenas sentia alguma pressão. Hoje, no dia seguinte à Maratona de Paris, enquanto escrevo estas linhas, nada me dói. Nada!

Adoro correr descalço!

parispes

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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