Corredor de Trail: «Mano, larga o alcatrão que faz mal aos pulmões!!!»

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Luís Sommer Ribeiro garante que correr é como fumar, o processo de dependência é o mesmo ou semelhante. E o nosso cronista garante que, «quem corre na montanha, é como quem fuma ganzas».

 

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Hoje tive um treino de séries e mandei-me para as docas sozinho. Claro que entre querer morrer e vomitar, também tive tempo para divagar. E dei por mim a tentar explicar a quem não corre como é que se começa a correr e quando é que uma pessoa se torna corredora.
Acabei, inevitavelmente, por chegar à conclusão que o processo da iniciação na corrida é semelhante ao do tabaco, só que com benefícios.

Não sei se já fumaram, mas eu já, durante 12 anos. Quando deixei de fumar, fumava mais de um maço por dia, o que já é considerável.

Claro que os primeiros cigarros que fumei não me souberam bem.

Tal como os primeiros treinos. Tossi, tive dores no corpo. Fiquei com tonturas. Conheço até quem tenha vomitado. «- A fumar ou a correr?», perguntam vocês. «- Nas duas!», respondo eu.

Os primeiros cigarros são uma estupidez. Sabem mal. O fumo não é natural. Mas nós, por algum motivo, queremos ser fumadores e insistimos. Mais um cigarro, e outro,…

Na corrida também. Temos um objectivo: ser corredores! Então corremos. E não gostamos! Mas corremos e corremos, até que as dores da corrida vão diminuindo. E, de vez em quando, até há uma corrida que sabe bem.

Tal como aquele primeiro “cigarrinho” pensador, num fim de tarde frio, aceso com uma sincronização perfeita com a música que começou a dar nas colunas da esplanada, onde se bebe um “cafezinho” para aquecer.

Aliás, os cenários em que a corrida sabe melhor são mesmo parecidos com os melhores cigarros. (Nota: não estou a aconselhar a levantarem-se e ir treinar depois de praticarem o “doce”, isso pode provocar mau estar em casa. Mas também um cigarro na cama… Fico confuso, decidam vocês!)

E assim vamos correndo e fumando…

Até que, num certo dia, sozinhos em casa, lembramos de um cigarro, mas não temos tabaco. Procuramos moedas e não temos. Saímos de casa, o multibanco mais próximo está avariado, vamos até ao seguinte, levantamos dinheiro, entramos no café mais próximo e vencemos, compramos tabaco. Acendemos um “cigarrinho” e voltamos a pé, felizes para casa. Se pensarmos bem, nesse dia tornámo-nos fumadores.

Também na corrida vai haver um dia em que não têm um treino combinado, nem sequer estava previsto treinar, mas chegam cansados do trabalho a casa, procuram os sapatos de corrida, calçam-se, equipam-se, ignoram a chuva, metem-se no carro, fazem 10 km só para chegar ao ponto de partida e arrancam sem destino, voltam quando voltarem, encharcados, já sentados no carro, com os vidros a embaciar. Podem ter a certeza de que nesse dias serão corredores.

Então, se correr é fumar, o que é a corrida de montanha???

Simples: GANZA…

Qualquer corredor de montanha já disse a piada a um de estrada: «Mano, larga o alcatrão que faz mal aos pulmões!!!»

A verdade é que, quem corre na montanha, é como quem fuma ganzas. Há uns que fazem só para se rir. Há outros que, como dizem os rastas, fazem-no para ter uma experiência de meditação e descontração ou de comunhão intensa com a natureza!

Quem experimenta correr na montanha também tem as mesmas reações de quem experimenta fumar ganzas. Há o parvinho, que já se está a rir e ainda nem acendeu um canhão; mas também há o herói, que diz «não está a bater» com o peito cheio de fumo e uns rissóis gigantes debaixo dos olhos. Na montanha é isto: há quem, assim que calça os sapatos, já fala no espírito do Trail e há quem corra e corra e diga que aquilo não vale nada.

Os corredores de estrada que desconfiam da montanha são como a malta que fuma mas não gosta de ganzas, dizem que faz ficar mais lento, que vicia e faz mal, que é a porta para coisas mais duras (como as provas do deserto…), etc.

Temos também o corredor carocho, aquele que vai a todas… Ele quer é fumar! É o clássico que tem as pontas dos dedos amarelas.

Tabaco: «Orienta-me um night!»;

Ganza: «Siga, marroca de três bafos»;

Petromax (daquele que acende o lume dos escuteiros) prensado: «O que não mata engorda!»

Na corrida, tanto lhe faz se é o grande prémio das freguesias do Cacém, o triatlo não sei de onde ou os 120 km de qualquer montanha. Quer é aviar cartucho!

E, por fim, há o meu preferido! O iludido!

O iludido fuma cigarro eletrónico ou vai à Color Run e acha que fuma. Ou que corre!

E o iludido da montanha é aquela miúda que, numa visita de estudo, fumou meio pacote de chá de camomila a achar que estava a despachar um charro de palmo e ganso da melhor erva e depois ficou com uma moca muito maior do que qualquer um dos que passou o dia todo dedicado ao aperto de papel. Este pode ser encontrado em qualquer “trail urbano”: e explicar que não há trilhos na cidade? Vão vocês dizer a verdade à miúda da camomila…

Por todos estes motivos, termino como comecei: correr é como fumar, mas ao contrário, provoca saúde e pode aumentar consideravelmente o tempo de vida.

Corra, pela sua saúde!

(não foram usadas quaisquer substâncias psicotrópicas para escrever esta crónica. Acho mesmo que vou ter de me deixar de alcatrão, não me está a fazer bem)

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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