Corra a Ronda dels Cims com Luís Duarte

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No Utra-trail europeu, a Ronda dels Cims é uma das provas mais emblemáticas do continente. Por isso, correr as montanhas de Andorra é um sonho de milhares de atletas, sejam profissionais ou amadores. Luís Duarte viveu o seu sonho na última edição e conta agora para os leitores do CORREDORES ANÓNIMOS o que é correr a prova, as dores, a angústia, o desânimo, as fantásticas imagens, as derrotas e vitórias pessoais. Hoje começa a denominada «A SEMANA RONDA DELS CIMS».

 

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Tudo preparado em Ordino. Faltam cinco minutos para a partida e os atletas tiram fotos juntos. Eu, o meu “mestre” Armando Teixeira, o João Colaço e o João Mota também aproveitamos para tirar uma foto. Espera-nos um grande desafio, uma grande aventura…

Finalmente é dado o tiro de partida. Não saio na frente da corrida, mas sigo um grupo de cerca de 30 atletas que, para quem vai fazer 170 km e 13500m de desnível positivo, seguem a bom ritmo. Os primeiros 5, 6 km são feitos a um ritmo muito suave, por uma floresta magnífica de pinheiros. Passada esta fase inicial, passo um ou outro atleta até começar a grande subida para Coll d’ Arenes, uma zona já acima dos 2500m de altitude e sem grande vegetação, mas com umas paisagens fantásticas no horizonte. Depois subimos mais um pouco e começamos a descer em direcção a outro bosque, já perto do primeiro abastecimento, o Refúgio de Sorteny. Aqui abasteço os meus dois flasks e aproveito para encher o que tinha de reserva, pois as temperaturas eram cada vez mais altas.

Sobe-se mais um pouco e depois uma pequena descida para um vale magnífico: Rialb! Seguimos um trilho ao lado de um belo riacho e, depois de dois, três quilómetros, temos mais uma subida de grande inclinação para a Portella de Rialb, também acima dos 2500m de altitude. Durante a subida olho para alguns atletas que pareciam umas “formigas” a escalar e pareço reconhecer as cores do equipamento do Armando. Depois da subida e de ter passado por uma língua de gelo, pela frente temos uma descida bastante acentuada, sem trilho visível. No entanto, era possível ver as bandeiras vermelhas ao longo da vegetação. Nesta descida deixo alguns atletas para trás que já seguiam comigo a cerca de três quilómetros.

Depois de passar num ponto de controlo, após uma descida de 500m de desnível negativo, temos de vencer uma subida que nos leva para uma cota perto dos 2350m. Começo a subir e reconheço mesmo o Armando um pouco à minha frente. Aceno com os bastões e ele retribui. Fico contente! Se me aproximar talvez consiga correr ao seu lado alguns quilómetros. Já corremos imensas vezes juntos e sabia que tê-lo ao lado seria bom para mim. Aprende-se sempre com o Armando! Aproximo-me aos poucos e, a meio da subida, ele assobia e faz um gesto do género “Anda!”. Forço um pouco o ritmo com os bastões, as minhas pulsações sobem, mas o apanho e seguimos juntos, como uma equipa até ao segundo abastecimento, junto às pistas de esqui de Arcalís.

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Chegados a Arcalís temos já pessoas à nossa espera. O Pedro Trindade, um grande amigo nosso que nos ajudou imenso nesta jornada, e a Ivone, esposa do Armando. Aproveito para comer um grande pedaço de melancia e umas tâmaras e bebo uma saqueta de quatro electrólitos para repor os sais. O Pedro ajuda-me com os flasks e sigo para o trilho. O Armando já tinha arrancado, perdi algum tempo no abastecimento, mas, de qualquer forma, não me preocupo e sigo tranquilo para atacar a Bretxa de Arcalís, a 2716 metros.

Saio do abastecimento de Arcalís e vejo novamente o Armando um pouco à frente. Descido não o apanhar para poder assim subir com calma até a Bretxa. Todos vamos ultrapassando as pistas de esqui, passando por algumas placas de gelo. Por fim, uma grande picada com as inclinações loucas de Andorra. No topo, uma visão magnífica: várias montanhas míticas dos Pirinéus, inclusive Comapedrosa.

Começa então uma descida não muito técnica, passamos junto a uns lagos onde se viam pessoas a pescar e a apanhar sol. Lindo! Mais uma subida e continuo com um atleta que veio de trás e me apanhou. Chegado ao Pic del Clot del Cavall, começo a descer e deixo o atleta espanhol para trás. A descida foi espetacular, pois ora tínhamos trilho, ora seguíamos simplesmente pela vegetação rasteira. Entramos num bosque magnífico e seguimos um trilho bastante plano até ao Refúgio del Pla de l’ Estany, na base de Comapedrosa. Lá se encontrava o Armando e mais uns três atletas. Ele alerta-me para alimentar bem, pois iríamos fazer um quilómetro vertical até aos 2942 metros de altitude em apenas dois quilómetros!!!

Como melancia, uns frutos secos e preparo para beber mais sais, pois já estava imenso calor e a desidratação poderia estar à espreita. Após cerca de cinco, dez minutos no máximo, sigo com Ivan, um espanhol com quem me cruzei imensas vezes durante a prova. Ele começa logo muito forte e eu abrando, pois a minha respiração já estava a ficar muito acelerada e eu queria fazer a subida com calma. A inclinação é soberba, nunca tinha feito algo parecido. Vamos subindo e passando placas de gelo que nos refletem imensa luz e nos deixam quase sem ver. Transponho blocos rochosos sem qualquer marca de trilho… Muito exigente esta parte e a única preocupação é progredir e ir seguindo uns marcos amarelos enormes. Já o meu relógio Suunto marca 2550 metros e vejo o Armando um pouco à frente. Penso que estará a gerir a prova, mas mais tarde vejo realmente que ele não se encontra bem. Mais umas rochas ultrapassadas e com os bastões a estorvar mais do que a ajudar, lá me aproximo do meu companheiro. Nestas alturas difíceis será bom ter a sua companhia. Chegamos juntos à Collada del Forat dels Malhiverns e já nem cem metros de desnível nos falta vencer. Seguimos juntos com outro atleta francês e um outro, vindo de trás, ultrapassa-nos. Começamos a avistar então o ponto mais alto e o som da gaita-de-foles atinge-nos. Há imenso tempo que desejava fazer esta prova e fazer esta subida só para ver estes voluntários magníficos!

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Clique na foto para conhecer em pormenor a altimetria da prova
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Pedro Alves

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