Comrades: correr 90 kms, “desabar” mas se reerguer com muita esperança

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O brasileiro Carlos Castro ganhou a ambicionada terceira medalha, a denominada «Back to Back», da tradicional Comrades (leia aqui a preparação do brasileiro), prova de 89 kms realizada na África do Sul, realizada há 90 anos. No entanto, não foi fácil. No final, chegou mesmo a “desabar” devido a exaustão. Aqui fica o seu relato, onde quatro palavras ditaram os seus passos: Tribulação, Perseverança, Experiência e, principalmente, Esperança.

 

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O que leva um ser humano a fazer isto?

Pela primeira vez, experimentei este ano correr a tradicional Comrades a subir (89 kms entre as cidades de Durban e Pietermaritzburg). Em 2014, já havia percorrido a prova a descer. A meta era conquistar a medalha “Back to Back”, uma medalha especial entregue pela organização para aqueles que completam a prova em dois anos consecutivos (a Comrades, considerada a rainha das ultramaratonas, é disputada um ano a subir e no outro a descer).

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Na largada havia um clima de euforia e apreensão. Quando Shosholoza, canção popular de África e popularmente conhecida devido ao filme «Invictus», foi entoada por todos, sabíamos que, em poucos minutos, largaríamos para Pietermaritzburg.

Apesar de estar bem preparado, foi difícil manter a confiança, pois o corpo descompensava com frequência. O primeiro grande desafio foi superar os 30 kms iniciais, sempre a subir. Tive de imprimir um ritmo que me permitisse avançar ao máximo, mas sem sofrer muito desgaste físico. A minha preocupação era o calor, que, a partir das 11h00, afetaria os corredores no meio da corrida. Às 11h30, com um Sol significativo, já tinha percorrido 50 kms.

A prova apresenta uma grande estrutura de suporte durante todo o percurso. Há hidratação a cada 2 kms com água, bebida energética, frutas e batatas. Deparei-me com vários postos médicos, mas também autocarros bem equipados para socorrer aqueles que, por algum motivo, tivessem de desistir da prova. Estes veículos eram um verdadeiro oásis, já que, entrar num deles, significaria o fim da prova. Devo salientar ainda que helicópteros sobrevoavam todo o circuito para monitorar os corredores. Havia também muitos fisioterapeutas, que estavam de plantão para ajudar com massagens e serviços de urgência. Em 90 anos de história, ocorreram apenas oito casos de morte na Comrades.

Além de levar o meu stock de suplementos, usei todos os postos de hidratação disponíveis. Foram mais de 40 postos. Por três vezes utilizei os serviços de fisioterapia para “soltar” um músculo ou outro, que estavam na iminência de “travar”.

Por termos de subir, a prova exige muita preparação. Há cinco fortes subidas, conhecidas como “Big Five”, em alusão aos cinco animais mais difíceis de caçar em África. Quando alcancei os 50kms de prova, já tinha superado as subidas de Cowies Hill, Field’s Hill, Botha’s Hill e Inchanga. A última a ser vencida era a de Polly Shortts, nos últimos 10 kms, que, por sinal, foram os mais dramáticos para mim.

A equipa na prova era formada por mim e pela Andrea, que “conduzia-me” até aos pontos estratégicos, com o intuito de ajudar com a suplementação adicional. Mesmo assim, faltando 20 kms para concluir a prova, não consegui mais ingerir absolutamente nada. Sentia uma forte náusea até mesmo para beber água. Foi quanso comecei a me desidratar e ficar sem energia. Consegui avançar mais 10 kms, mas acabei por parar pela primeira vez. Até então havia corrido durante todo o percurso. Um corredor sul-africano, vendo-me naquela situação, parou para ajudar. Deu-me água, com a qual entornei no meu corpo para refrescar do calor. As pessoas gritavam para eu não parar, já que faltava muito pouco para terminar. De salientar que a “torcida” esteve presente em todo o percurso ao longo das 12 horas de duração da prova. A Comrades é um dia de festa na região. As famílias reúnem-se, fazem churrasco, cantam e dançam. Mas, para o corredor, elas são acima de tudo um suporte extra, o oxigénio que falta para que cada atleta consiga ir até o fim.

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O companheirismo é a nota dominante da prova

Devido ao intenso apoio, ameacei voltar a correr e cambaleei por mais sete quilómetros, quando senti que desmaiaria. O problema era unicamente de alimentação. Apesar de fisicamente esgotado, ainda tinha pernas para continuar a correr. Dei um gole no que restava de uma mistura de proteína e carboidrato de rápida ingestão e, a partir daí, com muita náusea, caminhei por mais dois kms. As pessoas ao redor empurravam-me freneticamente. As frases de ordem eram: «Carlos, you’re looking good!», «Well done, Carlos!», «Just 1 km to go!», «Keep Walking!», «Don’t give up!»… Recebi o apoio de pessoas de todas as idades e isso foi realmente fundamental.

Quando um grupo de corredores passou por mim, e que tinha o cancro como justificação da sua presença na prova, juntei-me a eles e voltei a correr. Acompanhei-os até ao estádio, quando avistei a linha da meta. Passei pela Andrea, que estava aflita na “torcida”. Parei e disse que estava tudo bem, que tínhamos vencido. Continuei e terminei com o tempo de 10h46 (o tempo máximo para completar a prova é de 12h00, mas, durante o percurso, há mais quatro “pontos de corte”, que eliminam o corredor caso este não alcance estes locais até o horário estabelecido).

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Ana Maria conquista o ambicionado “Green Number”

 

Já com as duas medalhas a pesar no pescoço, juntei-me com um pequeno grupo de brasileiros que também tinham completado a corrida. Entre eles estava o “embaixador” do Brasil na prova, Nato Amaral, que completou a sua 13.ª Comrades (de referir que, quando corres em dez edições, recebes um número definitivo e participas de um grupo selecto, os denominados «Green Numbers»). Exausto e quase a perder os sentidos, “desabei” ali mesmo. Lentamente recuperei, mas fiquei uma hora a base de suco de laranja…

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Muitas pessoas perguntam o que leva um ser humano a fazer isto? A minha resposta particular é simples: a esperança.

A partir do momento em que decidi enfrentar a vida e dar uma resposta à tudo de precioso que “ela” me tirou, “ela” tem-me dado tudo de volta, simplesmente porque decidi ter esperança.

Esta minha decisão está gravada no meu corpo, numa tatuagem, que mostra uma Fénix. Ao seu redor, as palavras Tribulação, Perseverança, Experiência e Esperança. Trata-se de um trecho da carta de Paulo aos Romanos, onde podemos ler: “Nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.” (Romanos 5:3,4).

Ter esperança significa enfrentar diariamente o ciclo que a vida impõe e não se resignar na tribulação.

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Carlos Castro com Andrea, ajuda fundamental no decorrer da prova

Mais uma vez, agradeço a todos os que “torceram” por mim, em particular ao meu treinador Belino e ao “time” campeão da Elite Esportiva. Um agradecimento especial também à minha família. A medalha “Back to Back” é mais do que merecida pela Andrea, que embarcou de corpo e alma em mais esta aventura. Enquanto corria, ela fazia a sua maratona particular para garantir o meu suporte, do começo ao fim da prova. No ciclo da vida descrito pelo apóstolo Paulo, a Andrea é a minha “esperança”.

Por último, de referir que este ano a prova foi ganha por dois sul-africanos: no masculino, Gift Kelehe, com 5h38; no feminino, Caroline Wostmann, com 6h12.

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Pedro Alves

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