Como sobrevivi ao frio, a chuva e o sobe e desce da Maratona de Boston

 

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Uma Maratona marca todo o corredor. Correr a Maratona de Boston ainda mais, já que é considerada a mais antiga do Mundo. O brasileiro Carlos Castro esteve na última. No silêncio do hotel, após o término da prova, chorou, ainda mais porque a corrida acabou por ser a sua terapia após ter perdido a mulher e a filha. 

 

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Segunda-feira, 20 de abril de 2015. Acordei às 5h00 e coloquei a roupa que estava há dois dias preparada para ser vestida: camisola, ténis, proteção para os braços, gorro, luvas, meias, “bermuda de compressão” e capa para se proteger do frio.

A cidade de Boston estava há dias frenética e ansiosa para o grande evento que ocorre sempre na terceira segunda-feira de abril, no feriado de Patriots’ Day: a Maratona de Boston. Considerada a mais antiga do mundo, neste ano completou 119 anos de existência. A corrida começa muito antes da largada pois, para participar desta prova, é necessário obter tempo de qualificação em outra maratona. Como acontecia comigo, chegar ali já era uma grande vitória para muitos corredores anónimos.

No caminho do hotel até a praça Boston Common, de onde saíam os autocarros para a linha de meta, procurei adaptar-me a temperatura baixa. Embarquei às 6h00 e, uma hora depois, estava em Hopkinton, onde é a largada (a prova começa aqui e atravessa diversas cidades até chegar a Boston).

Aguardámos cerca de três horas até que ecoasse o hino nacional americano, anunciando o início da prova para o primeiro grupo, a “Wave 1”, da qual fazia parte. A área de espera dos corredores era bem organizada, com bebidas quentes, “bagels” e água à vontade. Duas grandes tendas abrigavam os corredores, que se apertavam para se protegerem do frio enquanto esperavam o relógio não marcava às 10h, horário do início da maratona.

Às 9h30 fomos encaminhados para o local. A chuva era iminente e o frio de 6 graus atrapalhou o aquecimento. Os músculos não se soltaram e o corpo não aqueceu de jeito nenhum.

carlos castroDada a largada, a alegria e a apreensão se confundiram. A corrida começou com uma forte descida e depois uma série de subidas e descidas, semelhantes ao movimento de uma montanha russa.

Fiz a primeira metade da prova em 1h32. Poupei energia mas estive em constante briga com o frio. É na segunda metade, entre os kms 32 e 34, que está o maior desafio da prova: o Heartbreak Hill. Trata-se de uma subida forte de dois km que maltrata ainda mais os músculos já fadigados depois de tanto sobe e desce.

Além da dificuldade do percurso na segunda metade da prova, tive ainda de lidar com a chuva forte, que fez a sensação térmica ficar muito baixa. O vento contra de 8km/h foi algo congelante.

O “cardiovascular” respondeu bem, mas os músculos “travados” e a preocupação com a hipotermia fez com que a minha estratégia mudasse. A partir daí abandonei qualquer expectativa de melhorar o meu tempo. O meu tempo de qualificação para Boston foi de 3h10, obtido na Maratona de Nova Iorque. Estava preparado para enfrentar o sobe e desce do percurso, mas não contava com o frio e a chuva, que me castigaram muito até cruzar a linha de meta, 3h17 depois.

Uma voluntária acudiu-me rapidamente e envolveu-me com um plástico para manter o meu corpo aquecido. A medalha no pescoço pesava muito e, com muita dor, cheguei ao hotel, próximo da linha de chegada.

Depois de horas na banheira quente e já reestabelecido do choque, chorei sozinho por ter superado mais este desafio pessoal. Cada maratona tem a sua história e deixa a sua lembrança. A Maratona de Boston é incrível, tornou-se um símbolo de superação, principalmente após o atentado à bomba de 2013. A população entrega-se ao evento e a cidade literalmente pára. Faça chuva ou faça sol, a população está ali, ao longo do percurso, para empurrar cada corredor até a linha de meta.

Este ano foram 35 mil inscritos, cerca de 26 mil concluíram a prova. O melhor tempo é do queniano Geoffrey Mutai, com 2h03m02. O ganhador de 2015 foi o etíope Lelisa Desisa, com o tempo de 2h09m17.

Comecei a correr quando perdi a minha esposa e a minha filha. A corrida passou a ser minha terapia e, desde então, não parei mais. Ainda faltam três maratonas para completar as Majors. Deixei Boston com o desejo de voltar em breve. Sempre que termino uma maratona, já começo a preparação para a outra. O meu próximo desafio é no final de maio, quando retorno à África do Sul para fazer novamente os 87 km da Comrades.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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